Tecnologias

Os homens trabalham menos horas. E já se sabe porquê

Os homens trabalham menos horas. E já se sabe porquê

Um estudo publicado pela NBER concluiu que, até 2015, homens entre os 21 e os 30 trabalharam menos 203 horas por ano devido aos videojogos

Se nas décadas de 1960 e 70 a mudança de mentalidades face às tarefas domésticas ajudaram as mulheres a entrar no mercado de trabalho, será que hoje os momentos de lazer afastam os homens algumas horas do emprego?

A questão não é descabida e foi colocada por académicos norte-americanos da National Bureau of Economic Research (NBER) que concluíram, num estudo divulgado esta segunda-feira, que os videojogos são uma das razões que ajudam a explicar por que razão os homens, a partir dos 20 anos, trabalham menos horas.

No entanto, as conclusões dos investigadores Erik Hurst, Mark Aguiar, Mark Bils e Kerwin Charles não foram as primeiras a causar polémica. Um ano ano antes, o primeiro dos autores agitou o mundo académico ao publicar, pela Universidade de Chicago, um ensaio sobre o tema. Nele, a questão que se coloca é a seguinte: por que razão os homens mais jovens dedicam menos tempo ao emprego?

Segundo o estudo, até 2015, os homens norte-americanos, entre os 31 e os 55 anos, trabalharam menos 163 horas por ano, face ao mesmo grupo etário questionado no ano 2000. Já os homens entre os 21 e os 30 trabalharam menos 203 horas por ano. A diferença entre estas duas faixas etárias representa uma diferença de 40 horas de trabalho por ano o que equivale a menos uma semana de trabalho anual. Note-se que, o estudo excluiu estudantes a tempo inteiro.

Videojogos, os grandes responsáveis

Mas, afinal, quais são as razões para o decréscimo nas horas de trabalhos do sexo masculino? Os especialistas apontam uma série de razões, desde a globalização, a mudança tecnológica ou até à mudança de paradigma da filosofia do trabalho.

No entanto, ao tentar saber porque é que os mais jovens não querem trabalhar, os especialistas concluíram que os videojogos foram os responsáveis pela redução da quantidade de trabalho desta população (cerca de menos 15 a 30 horas ao longo de um ano).

Na época da recessão, os autores concluíram que as pessoas que, de repente se encontraram com mais tempo livre, acabaram por passá-lo a jogar videojogos e que, muitos dos inquiridos empregados, viam esse hábito afetar o seu trabalho.

Entre 2004 e 2015, o tempo de lazer dos jovens cresceu 2,3 horas por semana – um aumento de cerca de 60% face aos anos anteriores. Essas horas de lazer foram gastas, sobretudo, a jogar videojogos.

Em contraste, o tempo de lazer das mulheres mais jovens cresceu 1,4 horas por semana. No entanto, não foi gasto na mesma atividade. O mesmo aconteceu com os homens e as mulheres mais velhas – nenhum destes grupos gastou tempo extra a jogar.

Ao longo da investigação, os académicos da NBER concluíram que, apesar do aumento do tempo livre, os homens mais jovens não o gastaram em tarefas domésticas ou cuidados infantis.

A culpa é dos salários

São várias as razões. Os académicos apontam uma delas. Muitas vezes, os homem perdem incentivo no trabalho porque os salários médios estagnaram há décadas, ao passo que, como se fosse uma compensação, a qualidade dos jogos tem vindo a crescer significativamente, o que se torna desafiante.

Até ao lançamento de jogos como World of Warcraf, no final de 2004, esta tendência não se verificava com tanta robustez. Daí a conclusão. Mas há quem aponte outras razões.

“Os jogos proporcionam uma sensação de objetivo. A pessoa acorda de manhã e vai jogar com a sensação de que está a tentar melhorar determinadas habilidades. Para além disso, os jogadores sentem que os colegas virtuais, com quem jogam, contam com eles e o mesmo acontece com a comunidade online que com eles joga”, explica a designer de jogos, Jane McGonigal.

Adam Alter, professor da Universidade de Nova Iorque, que estuda a adição tecnológica, destacou ainda que, ao contrário dos programas de televisão ou concertos, os videojogos não têm um fim e na sua maioria, “são construídos para serem infinitos ou ter metas a longo prazo na qual o jogador não gosta de abandonar”.

Um dos autores deste estudo recente, Erik Hurst, argumenta que as mulheres estão mais propensas a escolher jogos para smartphones, jogados nos tempos mortos, como nas idas para o trabalho ou no regresso a casa. O estudo não contabilizou o tempo que as pessoas passam nas redes sociais ou na web. No entanto, o investigador refere que o tempo gasto com essas atividades não cresceu tanto como o que foi gasto em videojogos.

Em jeito de conclusão, Hurst ironiza: “e por que não divertirem-se um pouco aos 20 anos e começarem a trabalhar mais tarde?”. Por fim, remata que isso pressupõe que venham a encontrar bons empregos (bem pagos) e, claro, que não se deixem seduzir pela qualidade dos jogos que vão estar disponíveis… em 2070.

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