cibersegurança

Paulo Pina: Cada vez mais temos de proteger dados

Diretor-geral da Prosegur, Paulo Pina, na Sede da Prosegur.
(Gonçalo Villaverde / Global Imagens)
Diretor-geral da Prosegur, Paulo Pina, na Sede da Prosegur. (Gonçalo Villaverde / Global Imagens)

O diretor-geral da Prosegur fala sobre os desafios da área em tempos de digitalização e globalização, em que a proteção de dados é uma exigência

Os desafios da digitalização e a cibersegurança são tema principal de uma conversa com o diretor-geral da Prosegur, especializado na área de Security. Paulo Pina admite ser muito difícil contratar numa área vista como pouco criativa, cinzenta e mal paga. Mas a segurança está a mudar rapidamente, garante o responsável.

A Prosegur é um dos maiores empregadores do país, com cerca de 7 mil empregados, e está a reestruturar-se para se adaptar aos tempos modernos. De que novas ameaças é que estamos a falar e o que é que a Prosegur está a fazer para lidar com elas?

Somos uma das maiores empresas de segurança a nível mundial e já há um par de anos que verificámos que as ameaças eram cada vez mais. Quando falamos em segurança, falamos em mitigar ameaças ou riscos… com um mundo cada vez mais dedicado e com atores cada vez mais inteligentes, fazia sentido que verticalizássemos todos os negócios. Assim sendo, o grupo verticalizou-se em todas as geografias por empresas separadas: uma empresa que se dedica à segurança empresarial com homens e com tecnologia de segurança, a que chamamos Prosegur Security e de que sou presidente em Portugal; a Prosegur Cash, que se dedica a logística e tratamento de valores, transporte de valores, tem mais que ver com dinheiro; a Prosegur Alarmes, para um mercado empresarial com baixa exigência e particular.

Nos últimos anos, a digitalização da economia e do mundo e as ameaças que pairam sobre nós levaram-nos a olhar para uma peça que faltava do ponto de vista empresarial e que tem que ver com a cibersegurança, que é um mundo que tem explodido e que normalmente está associada aos ambientes de IT mas nós achamos que é uma componente essencial, uma solução de segurança global. Assim investimos no desenvolvimento dentro da Prosegur Security para termos também essa capacidade de poder responder aos clientes com soluções de cibersegurança, completando assim a segurança global. A cibersegurança era a peça que nos faltava, porque a própria tecnologia de segurança foi evoluindo para se aproximar dos sistemas de informação das empresas e portanto temos de estar preocupados com a segurança dos próprios sistemas de segurança. Somos assim a única empresa mundial que tem a valência de cibersegurança dentro das nossas valências.

Mas é uma coisa que funciona integrada em todos os países?

Em cada país somos verticais. As empresas de cibersegurança fazem parte também da Prosegur Security.

Mas na parte da cibersegurança faz sentido que haja uma integração… a nível europeu, por exemplo.

Do ponto de vista operacional funciona assim, do ponto de vista comercial funciona país a país.

Do ponto de vista operacional deve funcionar integrada. Pode haver um tipo na Ucrânia a tentar entrar nos meus dados…

Existe uma diferença nesta nova vertente de segurança, que de facto não é geográfica, é global e desmaterializada. Não tem fronteiras, portanto também tem operações globais, embora depois, do ponto de vista físico, existam operações em Portugal, em Espanha, na América Latina. Mas a segurança, e a resposta, tem de ser global.

Cibersegurança é uma área mais exigente pela rapidez e porque não tem fronteiras

Nessa nova vertente qual foi o investimento que a Prosegur teve de fazer para introduzi-la nas suas soluções?

Em Portugal, comprámos uma empresa chamada Dognaedis, sediada em Coimbra, que é um dos players de nicho mais relevantes na cibersegurança em Portugal. Integramo-la há cerca de dois anos e continuamos à procura no mercado de promover esta nossa valência. Do ponto de vista global, temos investido em diferentes geografias, quer na Europa quer na América Latina e agora nos EUA, com aquisições de novas empresas para nos complementarem.

É mais fácil comprar as soluções que já existem com tecnologia que já está desenvolvida do que criar de raiz?

É uma questão de velocidade. Este mundo está a caminhar a velocidades muito grandes, o crescimento da tecnologia é exponencial e fazer crescimento orgânico é muito mais lento. Por outro lado também os domínios de competência são difíceis de aprender. Íamos demorar muito tempo a incorporar todas essas valências, portanto é num misto entre crescimento inorgânico e orgânico que nos estamos a desenvolver.

Quanto é que esse serviço representa nas operações da Prosegur? É uma área que está a subir?

A Prosegur Security é top 300 em volume de negócios em Portugal, faturamos mais de 100 milhões de euros. Sendo esta uma área ainda incipiente do ponto de vista de volume de negócios, tem vindo a crescer mas ainda representa menos de 5% da nossa operação em Portugal.

Mas porquê? As empresas ainda não estão alertadas para esse tipo de risco?

Existem duas razões. Cibersegurança e segurança são coisas muito globais, se falarmos de tecnologia global, ou seja incluindo tudo o que é segurança digital e por meios tecnológicos, neste momento representa cerca de 35% da nossa operação. Ou seja, tudo o que é tecnologia de segurança ou soluções baseadas em tecnologia em Portugal representarão mais de 35%.

Com a digitalização da economia, com as exportações e portanto a necessidade de ter operações cada vez mais desmaterializadas fazia sentido que houvesse essa preocupação.

O que antevemos do nosso plano de negócio para os próximos três anos, achamos que estaremos por volta disso, dos 35% do volume de negócios. É benchmark no mundo cerca de 26% do volume de negócios nas empresas de segurança serem vindos de soluções baseadas em tecnologia. Em Portugal estamos bastante acima. Uma coisa que pode parecer “só 35%” está acima do benchmark mundial e somos vistos como uma referência de um país com muita tecnologia envolvida nas soluções; somos, do ponto de vista do panorama português, a maior empresa de tecnologia de segurança com um volume de negócios que é o dobro do segundo. E temos nestes últimos anos vindo a consolidar esta posição de liderança e acreditamos que vamos continuar.

Já somos uma empresa de soluções de segurança, que tradicionalmente eram só feitas com homens. Tinha uma portaria com homens a fazer segurança e há muito tempo que vemos que o caminho que as soluções para empresas deve ter diferentes atores: homens, tecnologia de segurança, tecnologia em sentido lato. Portanto estas soluções a que chamamos “Integra”, que são soluções integradas de segurança, em que acreditamos que cada ator é mais forte porque a tecnologia de segurança permite fazer deteção cada vez mais eficientemente mas por outro lado não permite reação, pelo que teremos sempre homens a fazer reação. É no balanço destas duas coisas que a solução é mais eficaz e melhor. Começámos este caminho há um par de anos, e neste momento somos líderes em Portugal nesse tipo de soluções e com tendência para crescer ainda mais.

É muito difícil atrair talentos para a área da segurança

Falou da parte humana da operação. Tem-se falado muito num dos problemas da digitalização da economia que é os robôs roubarem-nos os empregos. A verdade é que o trabalho mais mecânico pode ser feito por máquinas mas precisamos sempre de trabalho mais especializado. Diz-me que precisa de pessoas na operação. Imagino que precise de pessoas com determinadas valências, com talento para este género de trabalho…

Estão a acontecer duas coisas: ao impregnarmos as soluções com mais tecnologia as pessoas que integram essas soluções passaram a ter um skills-set diferente. Enquanto antes era um homem que estava a olhar para as ameaças do ponto de vista físico e tinha menos interação com os sistemas, hoje tem de ter isso mas também tem de ser um operador que interage com os sistemas e interpreta os dados, a informação, a maneira como conjuga o seu conhecimento com a informação que a tecnologia dá. Isso leva a que precisemos de pessoas mais preparadas e mais inteligentes na operação de sistemas que, por um lado são mais inteligentes, mas também mais complexos. Também há uma transformação, embora relativamente lenta que, por sermos muitos, estamos a fazer nas nossas pessoas em capacitá-las a serem cada vez mais operadores integrantes de uma solução de segurança e não serem eles os operadores sozinhos.

Isso passa por formação. Estão a fazer contratação também?

Sim, mas por esta ser uma atividade regulada e do ponto de vista salarial com um contrato coletivo de trabalho que não nos permite contratações em larga escala, quando olhamos para os colaboradores que temos, que constroem essas soluções, as desenham e pensam como se operam e instalam, de facto na nossa empresa ainda são menos do que os vigilantes na rua mas estão a aumentar. Estamos num plano de formação contínuo e global para garantir que temos a nossa força de trabalho a reagir e a operar essas soluções cada vez mais inteligentes. Por outro lado ao impregnarmos mais tecnologia existe sempre esse risco de os robôs roubarem o nosso trabalho mas acreditamos que esta transformação de soluções está a permitir-nos ganhar mercado novo. Qualquer player que hoje não tenha ao dispor estas soluções e continue a trabalhar em segurança só com homens está condenado a prazo porque não tem tantas ferramentas e não é tão eficiente nas soluções.

Se por um lado nos clientes que já temos podemos estar a reduzir alguma coisa do contingente humano, como temos novos clientes para angariar com ferramentas que outras empresas não têm, ao angariar esse bocado de mercado conseguimos colocar essas pessoas. Esta vantagem competitiva permite-nos não fazer despedimentos.

Procurar talento, é fácil, há gente com esses skills?

É muito difícil. É uma tendência global em todos os setores da economia e em Portugal especialmente, é complicado encontrar pessoas especializadas porque existem poucas e é difícil atraí-las. E o setor da segurança, esta que é mais tradicional — para a segurança digital é relativamente mais fácil mas sendo um mercado de nicho há menos pessoas com competência. O setor da segurança mais tradicional é visto como um setor conservador e não é tão atrativo como outros no mercado da tecnologia. Há a imagem de que segurança são homens fardados a ver se alguém rouba nas lojas, portanto é complicado atrair talento para um ambiente destes comparando com a Mercedes Benz que tem um carro no Hub Criativo do Beato, ou o setor aeronáutico. Esta questão de conseguir atrair talento para um setor que não é muito sexy, é sério, muito sério, é relevantíssimo para a segurança e autonomia do país mas é visto com um setor muito tradicional e muito desvalorizado com salários muito baixos e a ideia de que qualquer pessoa pode ser vigilante ou segurança e com uma fronteira muito próxima com a atividade de segurança ilegal, todos estes fatores não ajudam a que consigamos atrair muito talento. E é um mundo bastante hermético. Quando olhamos para uma empresa de segurança pensamos “mas o que é que há ali dentro?”, “como é que é a Prosegur por dentro?”.

E como é que é? O que é que diria para atrair talento?

Diria que é uma empresa que desempenha o papel essencial e basilar da segurança de uma nação. Trabalha no setor que é provavelmente dos mais essenciais à segurança de todos. Todos vivemos neste cantinho espetacular e toda a gente gosta imenso de viver cá e as multinacionais dizem que é bom trabalhar cá porque é um país seguro. Mas é seguro porquê? Óbvio que a nossa matriz cultural também é esta de não sermos muito agressivos, mas também é porque as empresas de segurança e a segurança pública funcionam bem em articulação e garantem este ambiente pacífico, que é um motor brutal de aumento para a nossa economia. A Prosegur hoje é um dos garantes para que este clima exista em Portugal e isso deixa-nos muitíssimo orgulhosos. Porque somos um dos líderes da segurança privada em Portugal e desempenhamos esse papel relevante, sem nunca descurar o papel da segurança pública, mas que é uma área complementar e subsidiária. Nas empresas, nas casas das pessoas estão as empresas de segurança privada. Nós sendo um dos líderes desse mercado temos de estar orgulhosos.

Por outro lado estamos a transformar-nos porque as empresas também se estão a transformar com a digitalização e tecnificam-se os seus negócios e aí geram-se novos riscos que cumpre às empresas de segurança mitigar. Nós também temos de nos tecnificar e estar cada vez mais impregnados nesses processos, o que também nos moderniza a nós. Essa jornada que é feita nas empresas é uma jornada feita connosco. Também é bonito para as empresas de segurança modernizarem-se. A economia vai-se modernizando a velocidades grandes e é atraída por esse vortex da transformação digital e nós também estamos a ser atraídos para lá e por isso também temos essa magia de estar num processo de transformação empresarial.

A segurança está a modernizar-se à boleia da tecnificação e digitalização das empresas

E até provavelmente têm de estar à frente, oferecerem soluções ainda antes de as pessoas as procurarem.

O nosso papel mais fundamental é de olhar para as empresas, ensinar-lhe a identificar os novos riscos a que estão expostas e promover ativamente soluções para esses riscos. Isto é quase contribuir para a sobrevivência. É quase uma missão, que não é obviamente filantrópica… Mas é uma missão bonita de sabermos que estamos a criar ambiente para as próprias empresas e para a economia se desenvolverem saudavelmente e a velocidades aceleradas.

Têm alguns trabalhos com o governo?

A Prosegur tradicionalmente sempre teve mais de 90% do seu volume de negócios para empresas privadas e o setor público é residual.

É uma opção?

É uma opção estratégica. A Prosegur caminhou nessa estratégia porque achamos que este nosso papel de ser mais tecnológicos, mais inovadores, mais arreigados deste ponto de vista é mais fácil de fazer junto das empresas que são mais ativas do que no Estado, que pela sua dimensão é mais conservador. Por outro lado em Portugal o governo tem contratado segurança a preços sempre muitíssimo baixos e todos os concursos públicos que fez os orientou a preço mais baixo. Nós não somos uma empresa de preço mais baixo, somos uma empresa de solução e de qualidade de serviço. Estrategicamente vivemos num mercado com concorrência desleal, porque faz preços abaixo do que devia, mas o nosso caminho não é esse. Nós estamos no mercado para dar segurança, e segurança é uma coisa séria e por isso tem de ter o mínimo de qualidade. Há barreiras que jamais violaremos. Não conseguimos competir só pelo preço e hoje é uma opção estratégica e se calhar chegámos cá por consequência disso.

Isso também passa pelo tipo de salários que praticam? Conseguem atrair gente com mais qualidade pagando um bocadinho mais?

O mercado da segurança privada em Portugal, quando estamos a falar de segurança humana, é regulado por um contrato coletivo de trabalho portanto toda a gente tem de pagar o mesmo.

Mas há quem pague mais.

O que acontece é que os benefícios que damos e os programas que temos internamente, com centro de formação próprio, temos um programa de formação, damos outros incentivos por geração de negócio, temos o Prosegur por Muitas Razões, em que temos a universidade Prosegur, um grupo desportivo e cultural e um conjunto de coisas que estão para lá do contrato coletivo de trabalho que, não sendo salário em valor monetário, são valor para os nossos colaboradores. Do ponto de vista do que não é a segurança humana, aí estamos a competir no mercado com os recursos que há e a tentar captá-los. Adoraríamos que todas as empresas cumprissem o contrato coletivo de trabalho, porque um dos fatores de concorrência desleal é que algumas empresas nem sequer cumprem com o que está lá…

Há trabalho não declarado na segurança

Mas como é que não cumprem?

Esse é um assunto a quem tem dever de o investigar e nós o que podemos dar é algumas pistas do que achamos que acontece. Apareceu uma notícia há uns meses sobre um vigilante do hospital distrital da Guarda que dava o testemunho na primeira pessoa. As pistas que temos e que a associação de empresas de segurança dá sobre o trabalho não declarado são de que há escalas feitas com menos pessoas do que deviam. Há salários pagos em numerário com prejuízos a longo prazo das pessoas que não têm esse salário declarado e prejuízo para o próprio Estado. A nós o que nos preocupa é a criação de situações de concorrência desleal. O contrato coletivo de trabalho foi agora renegociado porque corríamos o risco de não ter pessoas para trabalhar neste setor porque o salário manteve-se nos últimos anos mais ou menos estável no salário mínimo e com o setor do turismo a igualar salários tivemos um êxodo para esses setores. Fomos obrigados a fazer uma revisão do contrato coletivo de trabalho com as plataforma sindical que representa os trabalhadores, para garantir aumentos de salários em 20% nos próximos dois anos para conseguirmos salvar o setor.

É muito.

Estamos conscientes do impacto que teremos nos nossos clientes, porque não somos irresponsáveis. Mas tinha de ser porque estávamos numa situação em que perigava o setor todo, porque de repente não tínhamos pessoas para trabalhar. E mesmo nós que somos um empregador grande tivemos este ano, e no final do ano passado, uma rotação enorme de pessoas que saíram e com muitas dificuldades em recrutar novas. E se isso nos acontece a nós com este volume, empresas mais pequenas têm problemas muito grandes. Por isso o setor teve de tomar medidas que permitissem a sustentabilidade do setor. Tentámos fazê-lo com o menor impacto possível, trancheá-lo para que não houvesse um impacto tão grande nas empresas que nos contratam. Ainda assim, por fazermos soluções não só baseadas em homens, temos essas alternativas para os nossos clientes que permitem dizem que o impacto não é total, é na parte feita com homens, e mesmo para empresas que não possam absorver esse impacto temos alternativas com níveis de segurança equivalentes com outras valências.

Nova lei da segurança privada traz riscos graves

A nova lei da segurança privada, aprovada na generalidade no início do ano e que tem coisas extraordinárias como aumentar de 15 mil para 150 mil o limite de valores segurados nos transportes. Vocês, empresas de segurança, e as instituições de segurança pública têm-se oposto e no parlamento também houve divisões. É vossa esperança que no debate na especialidade possa haver mais sensibilização?

Eu não tenho mandato para falar na Prosegur Cash, mas é um problema que nos preocupa enquanto grupo. Há outros pontos na lei da segurança privada que também têm efeito na Prosegur Security e todos esses aspetos que achamos que são menos positivos para a atividade da segurança privada em Portugal, com reflexo na segurança como um todo, temos esperança de que sejam corrigidos na especialidade. A AES tem promovido junto dos grupos parlamentares diligências com os diferentes grupos parlamentares para dar conta da nossa opinião e estamos esperançosos que alguns desses pontos sejam corrigidos desse ponto de vista. É verdade também para o regime solidário de contratação, também para alguns temas de autoproteção que estão na lei, não é só o tema do limite dos 150 mil euros para o transporte, mas existem quatr ou cinco pontos que nos preocupam.

A nível da sua área, quando uma carrinha sai do banco com determinado valor, imagino que haja dados sobre isto…

Certo. O que antevemos como perigo, mas não somos só nós, as forças de segurança já fizeram declarações públicas sobre o tema. Circular publicamente com até 150 mil euros sem qualquer segurança, ou tendo a opção de não ter traz um risco acrescido para aquele ambiente de segurança que nos caracteriza que é um motor essencial da nossa economia para corrermos um risco que não percebemos qual é a vantagem. É isso que nos deixa na dúvida.

Poderá ser uma lei que permite abrir o mercado a outro tipo de empresas?

Mas a lei anterior obrigou as empresas de segurança a fazer investimentos massivos nesse campo e é agora estranho que diga que vai abrir o mercado… um mercado que é aberto e concorrencial. O mercado de transporte de valores é livre e concorrencial, não tem uma, nem duas, nem três, terá pelo menos quatro empresas a operar em Portugal.

Os riscos vão além do roubo, há o branqueamento, a corrupção, a falsificação…

O que nos preocupa é que essa tendência fará aumentar a criminalidade que está circundante a essa área. Porque se há risco, há apetite e se há apetite não vai só afetar a questão do transporte de valores, vai afetar todo o ecossistema da segurança e aí vamos ter risco acrescido não só no transporte mas também nas dependências que guardam o dinheiro, onde se deposita… em tudo o que é adjacente. A perceção de risco aumentará e trará fraturas ao ambiente que temos. Isso traz problemas à nossa ecoonomia, muito baseada no turismo… Podia ser um motivo só económico das empresas de segurança para estar a alertar sobre isto mas quando as próprias forças de segurança pública o dizem e corroboram o nosso argumento. Isolando-me do tema do transporte de valores preocupa-nos o efeito que isso pode ter no ecossistema da segurança.

Cada vez mais os nossos dados vão estar disponíveis em todo o lado. Temos de os proteger

A digitalização do negócio, esta transformação que já vem acontecendo há algum tempo mas será cada vez mais acelerada, tem mais vantagens e oportunidades do que riscos e desafios ou é ela por ela?

Em primeiro lugar é inevitável, nem vale a pena pensar muito. Se pudéssemos decidir, porque provocará problemas morais e éticos um dia destes, mas a questão é “será que podemos decidir? Parar e pensar?”. Não podemos, porque a velocidade de transformação está de tal forma que é imparável e nesse caso temos de nos adaptar a ele e retirar dela o que melhor possamos. Tenho a tendência de dizer vantagem com a cautela e a consciência dos riscos que daí poderão advir. Pensemos nas fronteiras e nos riscos que esta aceleração nos leva e mitiguemo-los. É essa visão de copo meio cheio que temos de ter, até porque a outra não existe, é isolarmo-nos, é parar. Falámos muito em globalização e isso diluíu as fronteiras, agora nem há parte, tudo e global, não há fronteiras.

Um dos riscos que traz tem que ver com segurança de dados, até onde é que as pessoas estão dispostas a abdicar… como se protege os dados das pessoas?

E não só. Também tudo o que começámos a ver surgir e que não conhecíamos: influências em eleições, tendências políticas, manipulação, fake news. Antes o canal de comunicação era mais regulado, era mais fácil distinguir. Hoje como somos todos produtores de informação, é muito complicado perceber para onde vamos e os nossos dados vão estar disponíveis em todo o lado e a influenciar tudo e todo a ritmos alucinantes. Isto leva a outro tema que é a educação para a literacia digital, o tema de percebermos o que é importante na informação e na maneira como a difundimos… a questão da mitigação de riscos tem que ver com isto: preparamo-nos para o que aí vem e que nos permita proteger contra esses riscos que vão existir. Estamos muito preocupados com essas coisas e em proteger os nossos clientes contra essas coisas e por isso é que achamos que o tema da segurança digital é um tema de segurança per si e não pode estar só na segurança, tem de estar na casa das pessoas, nas soluções de segurança das empresas. E do ponto de vista empresarial é isso que nos interessa e também do ponto de vista dos recursos humanos que temos ao conseguir ter este programa de literacia digital para percebermos que lidamos com informação nossa e também dos outros, e portanto temos de saber muito bem o que é que fazemos com o que é que fazemos. Antigamente fazíamos segurança com bens, a informação dos nossos clientes passou a ser um bem que também temos dever de segurar. Ter estas valências e estarmos hoje com esta noção de negócio, achamos que nos vai atirar para a vanguarda para nos afirmarmos como referência da segurança empresarial.

Onde é que vê a Prosegur daqui a cinco anos?

Em Portugal vejo a Prosegur como uma empresa centrada nos clientes, porque será essencial à medida que eles transformam os seus processos de negócio mais rapidamente do que os possamos acompanhar e isso vai implicar que estejamos cada vez mais dentro dos próprios processos de negócio dos clientes – porque vão mudar rápido e a única maneira é estar lá e acompanhá-los à mesma velocidade. Vejo a Prosegur concentradíssima nos seus clientes, com capacidade de inovar e trazer soluções para acompanhar esse ritmo, vejo a Prosegur com colaboradores cada vez mais valorizados para acompanhar esta transformação, porque estaremos num ambiente mais moderno e menos conservador. E vejo como a referência da segurança empresarial em Portugal.

Ainda mais?

Hoje somos apontados como um dos líderes. Esta mudança de transformação digital, sermos hoje líderes na tecnologia de segurança, com esta valência na segurança digital que mais nenhum player em Portugal tem, acho que nos vai afirmar como a referência para estas soluções globais e integradas de segurança em Portugal. Porque estamos mais preparados, porque já temos liderança nos pilares essenciais para cimentar estas soluções e a velocidade a que já estamos nos vai fazer avançar mais rápido do que os outros. Daqui a 5 anos seremos indiscutivelmente a referência. Não sei se seremos o maior, mas não é o que nos interessa. Seremos referência, a melhor empresa de segurança em Portugal.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Teste - Redação DV

Liberdade e sustentabilidade dos media, com ou sem apoio do governo?

Regime dos residentes não habituais garante isenção de IRS a quem recebe pensões do estrangeiro.
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Primeiros 18 residentes não habituais prestes a perder benefício

Miguel Albuquerque, do PSD Madeira.

Projeção. PSD perde maioria absoluta na Madeira

Outros conteúdos GMG
Paulo Pina: Cada vez mais temos de proteger dados