Harvard Business Review

Porque devemos ter, pelo menos, duas carreiras

Fotografia: D.R.
Fotografia: D.R.

Quando seguimos o apelo daquilo que nos desperta a curiosidade, levamos paixão para as novas carreiras e sentimo-nos mais realizados

Não é invulgar conhecer um advogado que gostava de trabalhar com energias renováveis­, um programador de aplicações que preferia escrever um romance ou um editor cuja fantasia é tornar-se paisagista. Talvez sonhe, também, em mudar de carreira, para algo completamente diferente do que faz atualmente. A minha experiência demonstra-me, porém, que raramente as pessoas dão esse salto. Os custos de mudar parecem demasiado altos, e a possibilidade de sucesso parece demasiado remota.

Contudo, a resposta não pode ser continuar a arrastar-se no seu emprego, frustrado e caminhando lentamente para o esgotamento. Penso que a resposta é fazer as duas coisas. É melhor ter duas carreiras do que apenas uma. E, ao comprometermo-nos com duas carreiras, produzimos benefícios para ambas.

No meu caso, tenho quatro vocações: sou responsável de estratégia empresarial numa empresa da Fortune 500, oficial da Marinha americana na reserva, autor de vários livros e produtor musical. As duas perguntas que as pessoas me fazem mais frequentemente são, “Quanto tempo dorme?” e, “Como tem tempo para fazer isso tudo?” (as minhas respostas são, “bastante” e, “arranjo tempo”). Contudo, estas questões “processuais” não atingem o âmago das minhas razões e motivações. Uma pergunta mais reveladora seria, “Por que razão tem múltiplas carreiras?” Muito simplesmente, trabalhar em diferentes áreas faz-me mais feliz e deixa-me mais realizado. Também me ajuda a executar melhor cada uma das tarefas. Vou explicar como isto é possível:

Subsidiando o Seu Próprio Desenvolvimento de Capacidades

O meu salário empresarial subsidia a minha carreira de produtor discográfico. Sem currículo como produtor, ninguém me pagaria para produzir a sua música, e o que me motivou a tornar-me produtor não foi o dinheiro mas sim a minha paixão pelo jazz e pela música clássica. Assim, trabalhei como voluntário, para poder ganhar experiência nesta área nova. O meu trabalho em horário normal, não só me deu a capacidade financeira para fazer álbuns, como me ensinou as capacidades para ser um produtor bem-sucedido. Um bom produtor deve saber criar uma visão, recrutar pessoal, estabelecer uma timeline, angariar dinheiro e distribuir produtos. Depois de produzir mais de uma dúzia de álbuns e de ter ganho alguns Grammys, as editoras discográficas começaram a abordar-me para me contratarem como produtor. Continuo a não aceitar pagamento porque fazer música é algo de duradouro que constitui, para mim, recompensa suficiente.

Ao mesmo tempo, tenho o hábito de convidar os meus clientes da empresa para assistirem a sessões de gravação. Para quem trabalha todo o dia num escritório, é empolgante ir aos bastidores e interagir com músicos, cantores e outros criativos. Quando me encontrava em Cuba a produzir um álbum, um dos meus convidados, ao ver os músicos dançarem, observou: “Nunca tinha estado junto de pessoas que se divertissem tanto no trabalho”. O facto de os meus clientes terem uma experiência fantástica ajuda-me a criar receita na empresa, por isso a minha carreira corporativa e a musical beneficiam-se mutuamente.

Fazendo Amigos em Diferentes Círculos

Quando trabalhava em Wall Street, o meu círculo profissional começou por se limitar a outras pessoas que trabalhavam no sector dos serviços financeiros: banqueiros, comerciantes, analistas, economistas. Em conjunto, estabelecíamos uma visão “consensual” dos mercados. E a maioria dos meus clientes, gestores de ativos, procuravam algo diferente: “Apresentem-me uma perspetiva oposta.” Por outras palavras, eles não queriam ouvir o pensamento de grupo. Entendi isto como uma ordem para encher o meu ficheiro de contactos com pessoas que pudessem fornecer aos meus clientes uma perspetiva diferente.

Por exemplo, um dos meus clientes queria compreender o que os cidadãos chineses diziam uns aos outros. Sendo escritor, conheço outros escritores, pelo que falei com um amigo jornalista num periódico que monitoriza conversações na China. Não estando restringido pelos procedimentos normativos de um banco, ele conseguiu dar ao meu cliente uma perspetiva livre, que foi muito apreciada. O meu cliente ganhou uma nova perspetiva. Eu ganhei um negócio. O meu amigo ganhou um assinante. Quando estamos presentes em diferentes círculos, podemos apresentar seletivamente pessoas que, de outra forma, nunca se conheceriam, e criar valor para toda a gente.

Descobrindo Verdadeiras Inovações

Quando trabalhamos em empregos diferentes, podemos identificar os pontos em que as ideias interagem e, o que é ainda mais importante, onde deviam ;interagir. “É a tecnologia casada com as artes liberais, casadas com as humanidades, que produzem os resultados que nos fazem vibrar o coração”, disse Steve Jobs, que era a personificação do pensamento interdisciplinar.

Devido ao furacão Katrina, muitos músicos saíram de Nova Orleães. Com o propósito de criar fundos que ajudassem os músicos da cidade, eu podia ter criado uma organização sem fins lucrativos típica, pedindo dinheiro às pessoas. Em vez disso, ajudei a criar uma solução mais sustentável: uma agência para músicos, que descrevi como Wall Street meets Bourbon Street. As pessoas que desejassem contratar um músico para uma festa em Nova Iorque podiam encontrar uma banda no website da minha organização, que depois lhes solicitaria que adicionassem um pequeno donativo, para ser entregue a uma organização de solidariedade com sede em Nova Orleães. Os contratantes (que em alguns casos eram os meus clientes corporativos) encontravam facilmente uma banda para a festa, os músicos sediados em Nova Iorque ganhavam um concerto e a organização de solidariedade em Nova Orleães recebia um pequeno donativo. Graças ao tempo que passei a trabalhar num banco, consegui criar um tipo de organização diferente, que entretanto se fundiu com uma organização de solidariedade maior.

Quando seguimos o apelo daquilo que nos desperta a curiosidade, levamos paixão para as novas carreiras e sentimo-nos mais realizados. E, tendo mais do que uma carreira, podemos acabar por ser melhores em todas elas.

Kabir Sehgal, é autor best-seller de vários livros, trabalha em estratégia empresarial numa grande empresa, e foi vice-presidente do J.P Morgan.

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