Porque é que os nossos filhos arriscam mais do que nós?

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A nossa filha adolescente planeou passar duas semanas na Coreia este verão. Precisava, para isso, de arranjar cerca de 3 mil dólares. Decidiu tornar-se empresária e iniciar um negócio para financiar a viagem - o fabrico caseiro de pão e bolinhos de canela.

Este é um género de trabalho diferente do que nós fazíamos quando éramos adolescentes. Um de nós (Whitney) trabalhou na caixa de um Burger Pit em San Jose, na Califórnia, enquanto o outro (Roger) trabalhava numa plantação de bagas no sul de Maryland. Porém, entre os colegas da nossa filha, nos Estados Unidos, tornarem-se empreendedores parece ser a regra e não a exceção.

O péssimo mercado de trabalho para os adolescentes americanos está a forçar muitos deles a pensar no trabalho de maneira diferente. De acordo com o Instituto de Estatísticas de Trabalho americano, a taxa de emprego adolescente entre 1950 e 2000 rondou os 45% mas, desde aí, tem decrescido regularmente. Em 2011, apenas 26% dos adolescentes estavam empregados. Existem, certamente, muitas razões para este declínio. Vão da economia em contração à concorrência de trabalhadores mais velhos, dos conflitos de horários ao facto de muitos jovens, simplesmente, não quererem “empregos adolescentes” tradicionais.

Uma sondagem rápida junto dos nossos colegas indicou que cerca de 60% deles tiveram empregos adolescentes tradicionais: fazer hambúrgueres, servir às mesas, trabalho de escritório que incluía datilografia, arquivo e receção. Porém, quando perguntámos aos nossos amigos o que fazem os seus filhos hoje em dia para ganhar dinheiro, descobrimos que apenas 12% deles têm os ditos empregos tradicionais para adolescentes. Uns vastos 70% destes miúdos podem antes ser descritos como trabalhadores por conta própria, quer isso signifique vender produtos no eBay, quer se trate de dar aulas de piano. Os adolescentes de hoje em dia estão a obter uma experiência de trabalho completamente diferente da que nós tivemos, e que os prepara melhor para serem inovadores.

A comunicação social está a desempenhar um papel importante nesta mudança. Programas de televisão como o “Shark Tank”, onde aparecem jovens empreendedores, assim como a cobertura por meios locais e nacionais de histórias inspiradoras acerca de adolescentes bem-sucedidos mudaram a forma como a nossa juventude encara o trabalho. De acordo com um inquérito Gallup de 2011, 8 em cada 10 miúdos querem ser o seu próprio patrão, e 4 em cada 10 querem iniciar o seu próprio negócio.

E, como foi demonstrado pela experiência da nossa filha, existe também uma vaga de pais e outros adultos a apoiar estas ambições empresariais. Os nossos amigos e vizinhos podiam perfeitamente continuar a comprar o seu pão e bolinhos de canela na loja do costume mas, quando perceberam que ela estava disposta a levantar-se às cinco da manhã ao sábado para fazer pão, quiseram apoiá-la.

Além do mercado de trabalho medíocre e das mudanças culturais, também a tecnologia está a transformar o onde e quando começamos a trabalhar. Pensemos por exemplo em Nick D”Aloisio, um prodígio inglês da programação que, em 2013, com 17 anos, vendeu a Summly, a sua aplicação de resumo de notícias, à Yahoo, por cerca de 30 milhões de dólares. Ou em Adora Svitak, uma escritora e oradora americana que foi apresentada ao mundo com 6 anos e cuja TED talk de 2010 “O Que os Adultos Podem Aprender Com as Crianças” tem mais de 3 milhões de visualizações. Para estes adolescentes, o alcance das suas redes não se limita à sua localização física. Graças à tecnologia, as suas “bancas de limonada” podem ficar à esquina da rua de qualquer cidade do mundo.

Também não podemos esquecer o competitivo mercado das admissões à universidade. Para conseguirem entrar nas melhores, os adolescentes têm de se diferenciar. Isto significa, além da excelência académica, a participação em atividades extracurriculares, à noite ou nos fins de semana. Isto não só deixa pouco tempo livre para o género de trabalho que os pais destes adolescentes costumavam fazer depois da escola, como a maioria das comissões de admissão não ficam muito impressionadas com esses trabalhos em part-time. Já não é suficiente demonstrar a preocupação cívica através da participação numa limpeza da cidade; é preciso organizar a limpeza e dirigi-la por alguns anos. Os candidatos não podem dizer à universidade escolhida que adoram jornalismo mas só escreveram dois ou três artigos para o jornal do liceu. É necessário escrever dezenas de artigos e publicá-los em meios variados. Ou, melhor ainda, fundar o seu próprio jornal – online. A necessidade de serem diferentes está a forçar os adolescentes a inovarem e diversificarem de uma forma que nunca foi necessária às gerações anteriores.

Esta confluência única de circunstâncias – uma economia dura, um mercado universitário cada vez mais competitivo, um panorama tecnológico em mutação – está a criar uma cultura de inovadores. Precisando e tendo oportunidade para serem bastante diferentes dos seus pais, os adolescentes atuais compreendem instintivamente a ideia de se desafiarem a si mesmos. Há quem chame aos nascidos com o Milénio, Geração Z, mas julgamos que será mais apropriado apodá-los de Geração Inovação.

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