Trabalho

Quando a personalidade do seu companheiro prejudica a sua carreira

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Eis algo que é óbvio e ao mesmo tempo não é: todos<strong> somos muito mais do que aquilo que mostramos no local de trabalho.</strong>

Temos outras dimensões, invisíveis às nossas empresas, supervisores e maioria dos colegas, e essas dimensões invisíveis têm um profundo impacto no nosso trabalho.

Algumas investigações deixaram-me a pensar nisto. Uma é um estudo de dados relativos a casais de duplo rendimento que mostra que as pessoas dedicam mais tempo ao trabalho quando as suas relações íntimas correm bem, porque a ausência de problemas em casa lhes concede maior vigor emocional, cognitivo e físico no local de trabalho.

O outro revela que a personalidade do companheiro afeta os resultados profissionais – rendimentos e promoções, entre outros. Ambos os estudos nos lembram de que cada indivíduo debruçado sobre uma tarefa no seu trabalho está relacionado e é produto de um contexto social e familiar muito influente, e que devíamos prestar mais atenção a esses contextos. E já lá chegarei. Antes, porém, deixem-me dizer que não estou a advogar mais partilha emocional no escritório. Na verdade, agrada-me bastante a ignorância mútua das questões privadas que é norma no meu trabalho. É uma bênção. Honestamente, é uma das coisas que torna o trabalho fantástico.

Mas acredito que todos nós podemos beneficiar de uma maior consciência do impacto das nossas vidas exteriores no nosso desempenho profissional, e refiro-me também ao «nós» organizacional: os poderes instituídos.

Ambos os estudos que mencionei nos deixam a pensar, mas o segundo é verdadeiramente notável. Brittany C. Solomon e Joshua J. Jackson, da Washington University em St. Louis concluíram que uma rica coleção de dados relativos a milhares de lares australianos seria passível de fornecer uma análise sobre o efeito das características da personalidade dos cônjuges nos resultados profissionais, porque a base de dados incluía, não só resultados de inquéritos indicando dimensões de personalidade, mas também informação sobre rendimentos, promoções e satisfação no trabalho.

Os dados de personalidade cobriam o que é conhecido como as “cinco grandes” dimensões – extroversão, amabilidade, neuroticismo, responsabilidade e abertura à experiência. Os investigadores descobriram que o único traço de personalidade do cônjuge importante para o resultado profissional era a responsabilidade, que se revelou poder prever o rendimento do empregado, o número de promoções e a satisfação no trabalho, independentemente do género.

Colocando o rendimento em termos de dólares, por cada valor extra de desvio-padrão na responsabilidade do cônjuge, um indivíduo tem a probabilidade de ganhar aproximadamente mais 4 mil dólares por ano, fazendo a média através de todas as idades e ocupações, de acordo com Solomon. E uma forma de enquadrar a descoberta relativamente à promoção é que os empregados com cônjuges extremamente responsáveis (2 valores de desvio acima da média) têm 50% mais probabilidade de serem promovidos que os que são casados com alguém extremamente irresponsável (2 valores de desvio abaixo da média).

Ainda mais notável é que os dados permitiram aos investigadores perceber por que razão a responsabilidade dos cônjuges é importante. Antes de mais, estes realizam uma série de tarefas domésticas, libertando o empregado para se concentrar no trabalho (“Quando podemos depender de alguém, isso tira a pressão de cima de nós”, disse-me Solomon). Em seguida, os cônjuges responsáveis fazem os empregados sentir-se mais satisfeitos no casamento (o que faz a ligação com o primeiro estudo que mencionei). Ainda, os empregados tendem a imitar os hábitos diligentes dos seus esposos responsáveis e escrupulosos.

Isto não significa que o seu sucesso dependa do facto de estar numa relação. Existem muitas pessoas sozinhas que brilham profissionalmente, e muitos líderes empresariais eficazes que não têm um relacionamento. De facto, a investigação sugere que, em certas circunstâncias, ser sozinho pode ajudar os CEO a gerir as suas empresas: as empresas geridas por chefes não casados investem mais agressivamente e assumem riscos maiores que as outras empresas.

Mas, como diz Solomon, revela-se com frequência que as pessoas de sucesso têm relações maritais fortes. “Quando se está numa relação, deixa-se de ser dois indivíduos para passar a ser essa entidade”, explica. Quanto mais sólida for a entidade, maior a nossa vantagem.

É óbvio, claro, que as nossas vidas de trabalho unidimensionais não representam totalmente as nossas vidas exteriores multidimensionais, que cada um de nós é a manifestação, visível no escritório, de uma existência que não só se estende com vastidão no momento, como tem uma história completa atrás de si. Embora possamos parecer uma coleção de pontinhos num diagrama, cada um desses pontos é como a interseção no espaço de uma longa linha e uma superfície bidimensional. A superfície (o local de trabalho) não vê as linhas; apenas vê os pontos de interseção, ou seja, os pontinhos.

Porém, o que não é óbvio é a extensão em que tantas pessoas são parte de equipas, num determinado sentido – equipas de duas pessoas localizadas fora do escritório. Qualquer colega, chefe ou subordinado direto pode ser apoiado por um cônjuge verdadeiramente responsável, alguém que, de boa vontade – e mesmo com alegria – cuida de detalhes que, de outra forma, se tornariam uma dor de cabeça e interfeririam com o trabalho. Assim, qualquer colega, chefe ou subordinado direto também pode ser obstaculizado por uma relação conjugal que esteja alguns valores abaixo da média.

Não podemos e, provavelmente, nem queremos, saber pormenores acerca dessas equipas, mas como Solomon destaca, se as organizações compreendessem verdadeiramente os efeitos no local de trabalho de relacionamentos fortes no exterior, podiam ser mais recetivas a políticas como a flexibilidade de horários e o trabalho a partir de casa, que permitem aos empregados passar mais tempo com os seus outros significativos.

Talvez não concorde que a sua empresa se deve envolver em tentar melhorar a sua relação conjugal. Mas há coisas que pode fazer por si mesmo. Pode ajudar o seu cônjuge a apoiá-lo. Se depende da confiança, diligência e orientação para os objetivos que o seu companheiro demonstra, não dê essas características por garantidas. Talvez tenha ido tanto tempo heroicamente à proa que se tenha esquecido do esforço que é necessário para remar. Então, sente-se e reme por uns momentos. E, enquanto rema, por que não sugerir ao seu companheiro que se levante e fique heroicamente à proa, para variar? Imite a responsabilidade dele: arregace mesmo as mangas para o fazer. Talvez descubra que o seu companheiro tem uma perspetiva pessoal interessante, que o pode levar a lugares inesperados.

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