Harvard Business Review

Trabalha horas a mais? Homens a sério vão dormir

Os dois compromissos que ocupam mais tempo à maioria dos adultos do planeta - sono e trabalho - são frequentemente difíceis de conciliar.

A proliferação de horários de trabalho fora do padrão habitual e, para muitos, a inexistência total de horários, tornaram menos comum o padrão tradicional horas de expediente/dias úteis.

Cerca de um em cada cinco americanos funciona agora de acordo com um horário diferente do convencional. Entretanto, cerca de metade dos trabalhadores do turno da noite dormem seis horas ou menos por dia. Outras exigências não convencionais, como o múltiplo emprego ou o trabalho independente, também contribuíram para a privação de sono que afeta grande parte da força de trabalho.

Infelizmente, uma tradição cultural americana profundamente enraizada desdenha o sono como uma perda de tempo.

Se somarmos tudo, verificamos que cerca de 30% dos trabalhadores americanos sobrevivem com menos de seis horas de sono por dia – existem no lado “grogue” da divisória do sono, a uma distância doentia e desconfortável da maioria relativamente bem descansada dos trabalhadores.

Sono perdido diminui a capacidade de tomada de decisão e a produtividade, contribuindo também para efeitos adversos e dispendiosos na saúde, incluindo um risco elevado de doenças cardiovasculares e gastro-intestinais.

Leia também: Tem mais de 50 anos? 5 regras simples para se reinventar profissionalmente

Infelizmente, uma tradição cultural americana profundamente enraizada desdenha o sono como uma perda de tempo. Pelo menos desde que, há um século, o fundador da General Electric, Thomas Edison, declarou o sono “um absurdo, um mau hábito”, muitos líderes empresariais de sucesso têm vindo a promover uma espécie de culto do excesso de horas acordado, frequentemente amplificado pela atenção considerável que a comunicação social dá ao seu comportamento e aos seus comentários.

Desde os dínamos de Wall Street, que supervisionam e comandam os mercados financeiros globais a todas as horas do dia e da noite, até aos treinadores da Liga Nacional de Futebol Americano, que vivem a época toda nos seus escritórios, um imenso contingente de profissionais disciplinados e com posições de autoridade continuam a perpetuar padrões pouco saudáveis, forçando-se a eles e aos seus subalternos a transformar o trabalho numa maratona sem descanso.

Fotografia: Michaela Rehle/Reuters

Fotografia: Michaela Rehle/Reuters

A mensagem principal, por vezes implícita, mas também com frequência alardeada, é a de que dormir pouco representa uma forma de força máscula, atribuindo aos que descansam moderadamente uma debilidade efeminada, destinada a torná-los falhados num mercado de competição feroz.

Como exprimiu um executivo há pouco tempo “Dormir é para meninas”. Os sócios mais antigos de um poderoso escritório de advogados perguntam aos jovens empenhados que se preparam para um caso importante se preferem dormir ou ganhar.

Esta atitude perigosa tem provocado cada vez mais críticas. Edward Helmore, um jornalista, captou a mudança de opiniões na alvorada do novo milénio, apelidando Donald Trump (talvez demasiado apressadamente) de “último cheerleader da falta de sono” e apresentando como modelo substituto Albert Einstein, que dormia dez horas por dia.

Uma abundância de descobertas científicas, muitas resultado de pesquisas patrocinadas pelo exército e pela NASA, levou muitos executivos a abandonarem a cruzada para diminuir as horas de sono além do razoável. Algumas figuras proeminentes, como Jeff Bezos, da Amazon, são claramente a favor de uma alternativa moderada. Além disso, as fileiras crescentes de proponentes do equilíbrio trabalho-vida pessoal associaram os defensores do heroísmo das poucas horas de sono a padrões antiquados que ignoram tarefas domésticas muito consumidoras de tempo.

Conduza a sua carreira para o sucesso

Conduza a sua carreira para o sucesso

O resultado animador é que existe um apreço crescente pelo valor de políticas e práticas promotoras do sono no seio da comunidade empresarial. Arianna Huffington é um modelo neste aspeto. Além de aumentar a visibilidade dos problemas que derivam da privação crónica de sono e de dar forma ao discurso público acerca da questão, instituiu reformas práticas na sua própria empresa. As modernas salas de sesta nos escritórios de Nova Iorque do Huffington Post permitem aos empregados um descanso que melhora a produtividade. Outras empresas grandes permitem e incentivam as sestas nas suas instalações, incluindo a Nike, a Google e a Time Warner.

Outros esforços habituais de promoção da saúde no local de trabalho prometem pagar dividendos a um sono saudável, ao mesmo tempo que cortam nas despesas de saúde. A apneia obstrutiva do sono atingiu proporções epidémicas, fazendo incontáveis homens e mulheres chegarem ao trabalho cansados ou não totalmente descansados.

A obesidade encontra-se no topo da lista de fatores de risco para esta desordem do sono. Gestores de recursos humanos e outros decisores empresariais têm aproveitado numerosas oportunidades para promoverem a perda de peso dos empregados. A disponibilização de ginásios nas instalações ou de subsídios para frequentarem centros de fitness fora do trabalho já são comuns em muitas empresas. Muitas das máquinas de venda instaladas em locais de trabalho disponibilizam agora produtos mais saudáveis que antes. Um melhor reconhecimento da ligação entre excesso de peso e perturbações do sono pode ajudar a difundir ainda mais estas iniciativas de promoção da saúde.

Existe outra mudança importante, contudo, que mais empresas deviam estar a realizar e que dependem sobretudo de decisões próprias. Reorganizar os horários de trabalho quase sempre é uma decisão da gestão. Alguns empregadores esclarecidos deixaram de recorrer aos horários mais anti-naturais do ponto de vista psicológico, como a rotação rápida de turnos. Outros permitiram variedades de horas de trabalho flexíveis, o que dá ao empregado uma considerável disponibilidade de tempo para dormir. Possibilidades mais radicais poderão expandir-se para reavaliar os verdadeiros custos do trabalho noturno e de outros horários menos convencionais.

Que as empresas limitem ou eliminem totalmente horários de trabalho perturbadores do sono é uma atitude improvável – vai certamente contra a corrente no nosso mundo nonstop, 24 horas por dia, sete dias por semana. Mas essas medidas serão uma ajuda significativa para reduzir as diferenças quanto à possibilidade de descanso dos trabalhadores americanos.

Alan Derickson é professor de história e das relações laborais e de emprego na Universidade de Penn State

Artigo originalmente publicado no Dinheiro Vivo em dezembro de 2013.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
precários jovens licenciados

Jovens, precários e licenciados pagam ajustamento laboral da pandemia

Mealhada, 3/7/2020 -  O complexo Turístico Três Pinheiros, um espaço emblemático da Bairrada, apresentou um pedido de insolvência  na sequência das quebras provocadas pela pandemia de Covid-19.
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Mais insolvências e menos novas empresas em julho

Uma funcionária transporta máscaras de proteção individual na fábrica de confeções Petratex, em Carvalhosa, Paços de Ferreira, 27 de abril de 2020. HUGO DELGADO/LUSA

Mais de 60% dos “ausentes” do trabalho são mulheres

Trabalha horas a mais? Homens a sério vão dormir