Comissão Europeia

Bruxelas. Portugal com recessão de 6,8%, défice de 6,5% e a sombra do turismo

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Paolo Gentiloni, comissário europeu da Economia. Fotografia: EPA/ORESTIS PANAGIOTOU

Comissão Europeia avisa que a recuperação em Portugal pode ser difícil porque o País depende muito do turismo estrangeiro.

Portugal, que estava a crescer 2,2% no ano passado, vai afundar numa das piores recessões da sua História, com a economia a recuar 6,8% este ano, prevê a Comissão Europeia (CE), nas novas projeções da primavera, divulgadas esta quarta-feira.

Bruxelas frisa várias vezes que a recuperação pode ser difícil e complicada nos próximos anos porque o País depende demasiado do turismo estrangeiro. Em fevereiro, a CE dizia que Portugal iria crescer 1,7% este ano, mas apareceu o vírus e a economia teve de encerrar, estando agora a mergulhar numa recessão que pode chegar a quase 7% em termos anuais (2020).

Em todo o caso, aquele valor de recessão é mais leve que o do FMI, que recentemente apontou para uma quebra de 8% na atividade anual de 2020.

O comissário da Economia, Paolo Gentiloni, explicou na conferência de imprensa, que está menos pessimista que o FMI (que prevê uma quebra de 8% este ano) porque o fecho deste exercício de projeções (data de cut-off) foi a 23 de abril, ao passo que o FMI fechou o seu modelo antes, “quando as curvas da pandemia ainda não eram claras em muitos países”.

“Para nós, que fechamos mais tarde, a curva pandémica já era mais clara e vimos que o pico tinha sido atingido em vários países”, o que reduzirá um pouco a incerteza quanto ao futuro próximo.

No entanto, Gentiloni avisou logo que a situação pode piorar a sério, basta que haja uma segunda onda ou vaga da pandemia mais tarde, neste ano. Se assim for, regressam as medidas de confinamento e de encerramento das atividades económicas. “Podemos voltar a viver o que vivemos nos últimos meses”, deixou cair o comissário.

Mas voltando ao estudo sobre Portugal, que assume que a economia vai abrindo aos poucos e o confinamento gradualmente levantado.

Como seria de esperar, por causa do lock-down imposto em meados de março, a taxa de desemprego deve subir em flecha, atingindo uma média de 9,7% da população ativa em 2020.

Apoios públicos por causa da pandemia valem 2,5% do PIB

O apoio do governo à economia, aos rendimentos, à liquidez das empresas e ao sistema de saúde deverá ter um custo direto no erário público equivalente a 2,5% do produto interno bruto (PIB), o que elevará o défice para 6,5%.

A dívida também está a caminho de um dos maiores valores de sempre. A Comissão diz 131,6% do PIB.

A retoma vai acontecer em 2021, mas será muito desigual e há setores que ficarão para trás: turismo e atividades de apoio e paralelas deverão viver uma retoma lenta ou tempos difíceis nos próximos anos.

“Espera-se que a economia portuguesa recupere fortemente após este choque inicial [Bruxelas estima 5,8% em 2021], mas em alguns setores, particularmente no turismo, espera-se que os choques persistam”, diz a CE.

Portanto, os riscos para a retoma portuguesa “são negativos, dada a dependência de Portugal do turismo estrangeiro”.

“As exportações devem diminuir significativamente, tendo em conta as receitas consideráveis que Portugal obtém normalmente do turismo estrangeiro (cerca de 8,7% do PIB em 2019) e também algumas medidas de distanciamento social que vão continuar a afetar os serviços ao longo do segundo semestre de 2020”, alerta a entidade presidida por Ursula von der Leyen.

Bruxelas refere ainda que “a queda abrupta da atividade económica em março de 2020 levou a um aumento significativo nos registos de desemprego, apesar das medidas de apoio ao emprego que foram adotadas [como o apoio ao lay-off]”.

“Muitas das reduções no emprego são provavelmente temporárias, mas a lenta recuperação que se espera para o turismo e os serviços relacionados deverá ter um impacto negativo na procura por mão-de-obra e por um período mais longo”, refere o novo estudo das previsões da primavera.

Se a pandemia acalmar, Portugal ainda tem bancos para resolver

Também nas contas públicas se levanta esse problema de uma recuperação que pode ser bem mais lenta do se diz agora.

Para já, a Comissão projeta um défice de 1,8% no ano que vem, com o fardo da dívida a cair para, ainda assim, uns enormes 124,4% do PIB.

A CE repara que o défice “deve diminuir rapidamente em 2021, apoiado na recuperação económica que é esperada e na eliminação gradual das medidas de política orçamental adotadas para combater a pandemia”. Ou seja, num cenário em que não há uma nova vaga pandémica e que não se terá de voltar a fechar setores da economia.

No entanto, “os riscos para esta previsão orçamental são negativos e estão relacionados com as incertezas sobre como vai ser a curva epidémica do país e com a persistência dos seus efeitos económicos e sociais”.

Além disso, Bruxelas receia que haja um “aumento não negligenciável dos passivos públicos contingentes parcialmente relacionado com potenciais impactos orçamentais adicionais por causa de novas medidas de apoio aos bancos”.

Fonte: Comissão Europeia

Fonte: Comissão Europeia

(atualizado às 12h00 com declarações do comissário Paolo Gentiloni)

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