desigualdade

1% da população mundial ficou com 27% da fortuna criada em 35 anos

(Fotografia: REUTERS/Isaiah J. Downing)
(Fotografia: REUTERS/Isaiah J. Downing)

Os 7 milhões mais afortunados - apenas 0,1% da população mundial - viram os seus ativos crescer tanto como na metade da população mundial mais pobre

76 milhões de pessoas, o equivalente a 1% da população mundial, ficaram com mais de um quarto da fortuna (27%) criada entre 1980 e 2016. Este é um dos destaques do primeiro relatório mundial da desigualdade – World Inequality Report – tornado público esta quinta-feira. O documento coordenado por cinco economistas, entre os quais Thomas Piketty e Gabriel Zucman, alerta que a desigualdade escalou para “níveis extremos” em alguns países e diz que o problema só vai piorar a não ser que os governos tomem uma ação concertada para aumentar os impostos e prevenir a fuga ao fisco.

Os números são ainda mais expressivos quanto menor for a escala da riqueza. Os cerca de 7 milhões mais afortunados – apenas 0,1% da população mundial – viram os seus ativos crescer tanto como na metade da população mundial mais pobre. “Pelo contrário”, aponta o relatório, “o aumento da riqueza foi lento ou praticamente nulo para a população entre os 50% mais pobres e os 1% mais ricos”, referem os autores, citados pelo jornal The Guardian.

Os Estados Unidos são apontados como o país onde a riqueza está pior distribuída: 1% da população norte-americana mais rica tinha 39% de toda a fortuna do país em 2014 – último ano com dados disponíveis -, o que compara com os 22% verificados em 1980. A culpa, diz o relatório, é dos 0,1% mais ricos, das “enormes desigualdades na Educação” e com um sistema fiscal “menos progressivo”.

Por regiões, o cenário mais grave verifica-se no Médio Oriente, onde 61% das receitas vão parar a apenas 10% dos mais ricos. Não muito atrás estão Índia e Brasil, com 55% das receitas a acabar nos bolsos dos 10% mais afortunados dos respetivos países.

A Rússia foi o país em que a desigualdade mais acelerou nos últimos 35 anos. Em 1980, ainda no tempo da União Soviética, 20% dos rendimentos iam parar a 10% da população, em 2016, mais de 45% dos rendimentos acabam nas carteiras dos 10% mais afortunados. A mudança aconteceu sobretudo no início da década de 1990, com o fim da União Soviética, como mostra o gráfico abaixo.

Fonte: World Inequality Report

Fonte: World Inequality Report

Propostas

Os autores do relatório deixam quatro propostas para reduzir a desigualdade em todo o mundo:

  • 1. Um sistema fiscal progressivo é visto como uma “ferramenta eficaz para combater a desigualdade”. Não só “reduzem a desigualdade depois de impostos como antes de impostos ao dar menos incentivos aos que mais ganham para obter maiores percentagens de crescimento através de uma negociação agressiva para os aumentos salariais e aumento da riqueza”.

2. O registo financeiro global de ativos pode causar “bastantes estragos” à evasão fiscal, lavagem de dinheiro e aumento da desigualdade”. Os autores do estudo lembram o caso dos “Paradise Papers”, que revelou operações financeiras feitas através dos paraísos fiscais, que “representam mais de 10% do PIB mundial”. Num mundo globalizado, o aumento destes paraísos “diminui a avaliação da fortuna”. O registo financeiro global “pode ser usado pelas autoridades fiscais nacionais para combater a fraude”.

3. Mais acesso à educação serve tanto para os países desenvolvidos e em desenvolvimento, que precisam de estabelecer “objetivos transparentes e verificáveis”. Deve haver ainda mudanças no financiamento e sistemas de admissão.

4. É necessário mais investimento público em áreas como a educação, saúde e proteção ambiental para “reduzir a atual desigualdade assim como prevenir mais aumentos”. Os autores do estudo admitem que isto é “particularmente difícil” em países desenvolvidos que tornaram-se pobres e muito endividados. Para reduzir a dívida pública deve-se “taxar os mais ricos, pedir alívio da dívida e recorrer à inflação”, o que “já foi feito ao longo da história” e “permitiu dar mais poder às gerações mais novas.

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