Lisbon Summit 2018

Maria Luís Albuquerque. “Se crescer 2,7% é o melhor, acho francamente pouco”

(Diana Quintela/ Global Imagens)
(Diana Quintela/ Global Imagens)

A ex-ministra das Finanças foi uma das intervenientes no painel "The Economy: Looking for an Upgrade", do evento que decorre em Cascais

Conseguirá Portugal manter o ritmo de crescimento económico a longo prazo? Foi a questão lançada a ex-ministros, empresários e académicos durante o primeiro painel de debate desta quarta-feira da Lisbon Summit. No evento da revista The Economist, que decorre em Cascais, não faltaram críticas, conselhos e muitas dúvidas sobre o país que quer ser a “Califórnia da Europa”.

“As coisas estão hoje muito melhores quando comparamos com os últimos anos, mas não há razões para celebrar, é preciso olhar para o futuro com muita cautela”. Coube a Maria Luís Albuquerque pôr o pé no travão da euforia, no mesmo dia, praticamente à mesma hora, que em Bruxelas António Costa anunciava que o défice de 2017 terá sido de 1,1%.

Para a ex-ministra das Finanças, a economia portuguesa ainda corre riscos porque “parece que não conseguimos manter o espírito reformista após a crise. Assim que vemos bons resultados relaxamos”.

A antecessora de Mário Centeno olha para os números do crescimento económico com ceticismo. “Como é que 2,7% é o melhor que conseguimos fazer em 17 anos? Acho francamente pouco. Na Europa, países da nossa dimensão, tendo passado pelas mesmas dificuldades estão a crescer mais. Não acho que estejamos a convergir com a Europa”, sublinhou, lançando um apelo para que sejam dados “sinais positivos aos investidores”, ao nível da reforma fiscal.

Para a ex-ministra, é necessário “prosseguir com as reformas que foram interrompidas”, além de que “a discussão sobre o que mais pode ser revertido já está a causar danos” ao país.

“Há uma enorme carência de pessoal qualificado”

No mesmo painel, António Saraiva insistiu na ideia de que “o sistema bancário tem de estar preparado para ser parceiro de risco” das empresas, porque nos últimos anos “não tem sabido sê-lo”. O acesso ao crédito, porque “a capacidade instalada das empresas está tomada”, e a estabilidade fiscal são os principais ingredientes que as empresas precisam para crescer e investir, salientou.

Segundo o presidente da CIP, é preciso “promover condições de financiamento e criar novos mecanismos para que as empresas possam vencer desafio da inovação”. O facto de o IRC em Portugal “estar no caminho de ser um dos mais altos da UE”, não ajuda à competitividade do país, sublinhou António Saraiva.

Outro dos desafios que as empresas “em todos os setores de atividade” têm de ultrapassar, na visão de António Saraiva, é a “enorme carência de pessoal qualificado”, que só pode ser ultrapassada com a aposta na qualificação profissional.

“A falta de vontade de criar riqueza é o que mais preocupa”

Já para António Neto da Silva, ex-secretário de Estado e presidente do Instituto de Formação Bancária, os problemas de crescimento da economia portuguesa resumem-se a uma causa: o peso excessivo do Estado da Economia.

“Para que Portugal se desenvolva é preciso apostar na liberdade económica. É preciso reduzir de forma significativa o peso de Estado na economia e o nível de impostos, para que o Estado não consuma recursos que poderiam ser aplicados de forma produtiva na criação de riqueza. A iniciativa privada tem se ser libertada para haver investimento”, concluiu o ex-governante que liderou as negociações que culminaram com a vinda da Autoeuropa para Portugal.

O tom pessimista do debate não desapareceu na intervenção do líder de uma das maiores empresas privadas do país. Pedro Soares dos Santos, CEO da Jerónimo Martins, que este ano deverá investir 100 milhões de euros em Portugal, criticou a “falta de visão estratégica” que esteve em vigor nos últimos anos.

“Essa falta de visão tem sido uma falha no crescimento. Queremos distribuir riqueza mas não a criamos. Com a criação de impostos começamos a destruir as empresas. Portugal pode ser a Califórnia da Europa, mas temos de estar de acordo sobre as áreas a investir e sobre o que temos de fazer nessas áreas. A falta de vontade de criar riqueza, de criar estruturas fortes, é o que mais me preocupa em Portugal”, declarou Soares dos Santos.

O líder da Jerónimo Martins revelou ainda que “todas as grandes oportunidades da retalhista” estão neste momento fora da Europa.

Tirar partido do cool factor

Para Daniel Traça, o cerne do problema da economia portuguesa tem um nome: produtividade. Ou neste caso, a falta dela. O Dean da Nova School of Business and Economics considera que o atual crescimento da economia “está a ser sustentado pelo aumento do emprego e pelo ambiente de confiança que se criou. Mas só será sustentável se a produtividade aumentar”.

Em linha com as palavras de Maria Luís Albuquerque, o académico afirmou que “crescer abaixo de 2% não é sinal de sucesso económico”, e que “2% é o mínimo a que devemos almejar”.

Admitindo o “excelente trabalho” que tem sido feito, Daniel Traça tem, no entanto, “dúvidas de que vá continuar, porque estamos a achar que o sucesso de curto prazo é sustentável”.

O professor da Nova SBE diz que é preciso “tirar partido do cool factor” que Portugal tem neste momento e que “nos tornou visíveis para o resto do mundo”, mas que ao mesmo tempo “seria um erro trágico” pensar que este pode resolver problemas a longo prazo.

“As futuras gerações olhariam para nós e pensariam, ‘como é que vocês perderam a oportunidade dos fundos europeus e agora perdem a oportunidade do cool factor do país'”.

Segundo Daniel Traça, as PME, que compõem a maior fatia do setor empresarial em Portugal, têm de ser trazidas para o século XXI, ou seja, “empurradas” para a digitalização e para exportar para mercados que estão a crescer.

“Isto vai exigir muito investimento e aqui está outro problema. Acho que vai ser difícil que os bancos portugueses sejam parceiros de risco”. A solução pode passar por “atores de financiamento” alternativos como private equity ou venture capital.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Ricardo Mourinho Félix, Secretário de Estado Adjunto e das Finanças. 
( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

“Cidadãos não vão tolerar situações que ponham estabilidade financeira em risco”

Ricardo Mourinho Félix, Secretário de Estado Adjunto e das Finanças. 
( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

“Cidadãos não vão tolerar situações que ponham estabilidade financeira em risco”

Lisboa, 22/11/2019 - Money Conference, Governance 2020 – Transparência e Boas Práticas no Olissippo Lapa Palace Hotel.  António Horta Osório, CEO do Lloyds Bank

( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

Horta Osório: O malparado na banca portuguesa ainda é “muito alto”

Outros conteúdos GMG
Maria Luís Albuquerque. “Se crescer 2,7% é o melhor, acho francamente pouco”