Análise

FMI. Dívida de alto risco faz soar os alarmes

Mercados

Dez anos depois da crise financeira o Fundo Monetário Internacional avisou para o risco de excessos no crédito a empresas em má situação financeira.

“Soa o alarme no crédito alavancado”. É assim que três economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) classificam o que está a acontecer no financiamento a empresas de fraca qualidade. O valor destinado a entidades de alto risco bateu mesmo os recordes que antecederam a grande crise financeira.

Numa publicação no blogue da instituição, Tobias Adrian, Fabio Natalucci e Thomas Piontek referem que “basta olhar para o mercado de 1,3 biliões de dólares dos chamados empréstimos alavancados, que levaram alguns analistas e académicos a soar o alarme sobre a deterioração dos critérios dos empréstimos”.

No ciclo atual da economia, os responsáveis do FMI dizem que “com sinais reminiscentes do passado é vital perguntar” se no pior cenário este tipo de empréstimos de alto risco ameaça a estabilidade financeira. E concluem que existem razões de preocupação.

“Empresas com ratings especulativos têm sido ávidas em aproveitar a dívida barata. A nível global, as novas emissões de empréstimos alavancados bateu um recorde de 788 mil milhões de dólares em 2017, ultrapassando o recorde de 762 mil milhões de dólares de 2007”, referem os economistas do FMI. Só este ano foram já concedidos 745 mil milhões de dólares.

Valor, em milhares de milhões de dólares, da dívida de alto risco emitida nos EUA (barra azul) e no resto do mundo (barra vermelha). Fonte: FMI

Valor, em milhares de milhões de dólares, da dívida de alto risco emitida nos EUA (barra azul) e no resto do mundo (barra vermelha). Fonte: FMI

Crédito em tempos especulativos

E não é só o ritmo do crédito concedido a empresas frágeis que assusta. Os economistas do Fundo realçam que “mais de metade do valor deste ano envolve dinheiro emprestado para financiar fusões e aquisições e compras alavancadas, pagar dividendos e fazer recompra de ações. Por outras palavras para a tomada de risco financeiro em vez de simples investimentos produtivos”.

Mais de metade do valor deste ano envolve dinheiro emprestado para financiar fusões e aquisições e compras alavancadas, pagar dividendos e fazer recompra de ações. Por outras palavras para a tomada de risco financeiro em vez de simples investimentos produtivos

A alimentar o apetite por dívida especulativa estão as baixas taxas de juro e a elevada liquidez que ainda existem, um reflexo da resposta dos maiores bancos centrais mundiais à crise financeira e económica.

“Com as taxas de juro extremamente baixas há anos e com o amplo fluxo de dinheiro para o sistema financeiro, os investidores com fome de rendimento toleram níveis cada vez mais elevado de risco e apostam em instrumentos financeiros que, em tempos menos especulativos, poderiam descartar”, explicam os economistas do Fundo.

A forte procura por dívida de alto risco deu mais condições aos emitentes para não cumprirem com requisitos para proteger os seus financiadores. “Com o aumento destes empréstimos, o enfraquecimento das proteções dos investidores e a erosão das almofadas para a dívida, as taxas médias de recuperação [da dívida de empresas falidas] caiu de uma média de 82% antes da crise para 69%”.

O regresso das siglas da crise

O FMI até considera que os reguladores fizeram um bom trabalho em prevenir os excessos dos bancos neste mercado de dívida de alto risco. Mas adverte que a banca foi substituída por outro tipo de instituições neste mercado. E que tem exposições bem superiores ao que se verificava antes da crise financeira. Aliás, algumas das siglas que assustaram o mercado durante a crise financeira estão de volta. E em força.

A titularização de dívida, como as obrigações sintéticas garantidas por títulos (CLO na sigla em inglês), está a alimentar o mercado de alto risco. “As CLO, que empacotam empréstimos para os revender a outros investidores, compram mais de metade do total de dívida alavancada emitida nos Estados Unidos”, observa o FMI. Foram instrumentos com estruturas semelhantes, mas construídos com base em empréstimos de alto risco concedidos a famílias, que potenciaram a crise financeira de 2008.

Tendo aprendido uma dolorosa lição há uma década sobre as ameaças não previstas no setor financeiro, as autoridades não devem negligenciar esta outra potencial ameaça.

Os fundos de investimento, de pensões e as seguradoras têm sido as entidades a substituir os bancos na compra destes títulos especulativos. E isso faz com que “seja mais difícil para os reguladores bancários lidarem com o risco potencial para o sistema financeiro se as coisas correrem mal”, concluem os economistas do FMI. E avisam: “Tendo aprendido uma dolorosa lição há uma década sobre as ameaças não previstas no setor financeiro, as autoridades não devem negligenciar esta outra potencial ameaça”.

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