Energia

Galp rejeita novos investimentos na rede de gás natural. Pode agravar os preços

Carlos Gomes Silva, Presidente Executivo GALP
( Filipa Bernardo/ Global Imagens )
Carlos Gomes Silva, Presidente Executivo GALP ( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

Gomes da Silva garante que "veria sempre com prudência qualquer investimento que vai agravar os preços ao consumidor com uma infraestrutura ociosa".

Depois da presidente da ERSE, Maria Cristina Portugal, ter apelado à “moderação nos investimentos” e à “ponderação na expansão da rede” de gás natural, também o CEO da Galp, Carlos Gomes da Silva defendeu que Portugal não precisa de mais infraestruturas para o gás natural chegar a mais pessoas. Isto apesar de apenas 1,3 milhões de pessoas terem gás natural em casa e 2,6 milhões ainda dependerem do gás de garrafa, que custa o dobro, de acordo com a Deco.

“A resposta é não, quer no transporte de alta pressão, quer nos pontos de entrada em Portugal e também na península ibérica: no total são sete portas de entrada por via marítima e duas por via terrestre. Chega a todo o lado, mesmo nas zonas remotas. Em Évora e Beja, por exemplo, segue o gás veicular que depois é posto ao serviços das populações. O mesmo na Madeira, para onde vai em contentor. Não é um problema de infraestruturas nem de redes”, garantiu.

Em declarações exclusivas ao Dinheiro Vivo, à margem da conferência da Associação Portuguesa de Empresas de Gás Natural (AGN), o CEO da Galp lembrou que o país “tem uma rede de mais de 12 mil quilómetros e que a população está muito centrada no litoral, onde está mais de 80% do consumo e uma zona que está infraestruturada. Mas o resto do país também. Onde não chegam os pipelines há unidades móveis de gaseificação”.

Gomes da Silva garante assim que “veria sempre com cuidado e prudência qualquer investimento que vai depois agravar os preços ao consumidor com uma infraestrutura ociosa. É importante que sejamos eficientes e prudentes naquilo que são os investimentos globais em infraestruturas. Se não estiverem ao serviço da sociedade vão encarecer os preços”, avisou.

Além do mais, o responsável da petrolífera lembra que rede de distribuição de gás é um ponto importante da cadeia de abastecimento, responsável por mais de um terço dos custos de operação (cerca de 40%). De acordo com o Eurostat, na primeira metade de 2018 a fatura do gás das famílias portuguesas foi a quarta mais elevada da União Europeia. A ERSE faz uma leitura diferente e à luz da realidade portuguesa garante que o país ocupa o 8º lugar da lista nos preços de gás mais caros da UE.

O regulador sublinhou que “Portugal é um país com consumos unitários reduzidos comparativamente com os restantes países da Europa, uma vez que não existe uma grande penetração do gás natural para aquecimento, o que justificaria em parte a existência de preços médios mais elevados face a países com maiores consumos per capita e consequentemente com uma maior utilização das redes de distribuição com custos por unidade de energia consumida mais reduzidos”.

Ou seja, por não serem tão utilizadas como noutros países, as redes portuguesas de distribuição tornam-se mais caras, transferindo esse custo também para o preço da energia. Na conferência da AGN, e em declarações ao Dinheiro Vivo, Maria Cristina Portugal frisou que “cabe ao regulador apelar à prudência e moderação na expansão da rede de gás natural, sobretudo num setor que tem alguma incerteza, com todo este contexto da transição energética, em que é preciso avançar com passos seguros”. No entanto, a responsável da ERSE não tem dúvidas que “2019 será o ano do gás natural”.

“Gás natural não é energia de transição. mas de destino”

Na visão de Carlos Gomes da Silva, o mundo vai precisar de mais energia e existirá uma concorrência cada vez maior entre as várias fontes de energia, com o carvão a descer e as renováveis a aumentar. Já o gás natural, garante, registará na próxima década um aumento da procura em todos os cenários, que poderá não ser acompanhado ao mesmo ritmo pelo aumento da oferta.

“O gás natural liquefeito (GNL) irá duplicar o seu peso (de 10 para 20%) na oferta global de gás natural”, disse o CEO, mostrando na sua apresentação que esta fonte de energia cresceu 11% entre 2016 e 2017 e 7% entre 2017 e 2018. No entanto, Gomes da Silva diz que o desafio não é tanto a oferta e a procura mas sim o abastecimento e a armazenamento. “O gás natural tem um peso relevante na matriz energética futura e terá um papel na descarbonização da economia”, garantiu o CEO da Galp

Com o GNL a representar mais de metade do crescimento de todo de gás natural à escala global, a Galp está já em campo com dois projetos em Moçambique que são a joia da coroa do investimento da petrolífera. “Moçambique é equivalente a um Qatar, em termos de potencial. A diferença é que está a começar, de raiz. Todo o desenvolvimento que está a ser feito levará a que Moçambique possa posicionar-se como um dos grandes produtores mundiais, que atingirá todas as plataformas de consumo, no Sudeste Asiático, América Latina ou mercados europeus. Tem uma posição geoestratégica extraordinária”, disse Gomes da Silva ao Dinheiro Vivo.

A Galp vai investir mil milhões de euros por ano até 2020, dos quais 70% são para a exploração e produção de petróleo e gás natural. O Brasil absorverá metade deste valor e Moçambique um terço. Em 2022 será feita a primeira extração de gás no país.

No ano passado a Galp tomou uma decisão de investimento em Moçambique para a produção de cerca de 3,4 milhões de toneladas de gás natural, pouco mais de uma vez e meia o consumo total português.

“Essa unidade de produção flutuante no offshore marítimo já está a ser construída na Coreia do Sul e deverá estar em produção em 2022. É o projeto Coral Sul. O projeto Mamba, que tratará o gás até uma unidade que o liquefará em terra e depois o exportará para os mercados internacionais, está em desenvolvimento e terá a decisão final sobre o seu investimento durante o próximo ano. É um mega projeto. São dois trens dos maiores que existem à escala global, cada um com 7,5 milhões de toneladas por ano, quase quatro vezes o consumo de Portugal, cada um. É a primeira fase de uma sequência de pelo menos três rondas de investimento. No final da próxima década, Moçambique será um dos maiores players mais importante à escala global no GNL”, garante Gomes da Silva.

Mantendo a sua identidade, a Galp está no entanto a levar a cabo um “reposicionamento num setor onde está tudo a acontecer”. “Temos enormes desafios pela frente. Toda esta recomposição do mix energético de base mais sustentável é onde a Galp está a fazer o seu caminho. O projeto do gás natural é um exemplo que vai rebalancear o nosso portfólio de base energética mais mineral”, explica o CEO da petrolífera.

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