Consumo

Há pecados de verão que apetecem mesmo nos dias de chuva

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O junho deste ano foi o mais frio dos últimos 19 anos; junho de 2017 foi o terceiro mais quente de sempre. O clima mudou e os consumidores e as empresas vão atrás.

As mãos de Carlos Cipriano não chegam para as 12 mil bolas-de-berlim que todos os dias faz sair da fábrica. O clima incerto não afeta a tradição e em Moncarapacho, no Algarve, o verão continua a rimar com muito trabalho. Nos meses quentes, as Bolinhas do Carlos seguem para 70 clientes diferentes, que asseguram a distribuição pelas praias de Olhão e Fuseta, mas também pastelarias, supermercados e até hotéis de cinco estrelas.

“Não podemos ignorar que há um esbatimento daquilo que são os consumos sazonais, também por causa das alterações climáticas, mas alguns ainda se mantêm, especialmente os consumos que associamos às férias”, explica Mafalda Ferreira, especialista do IPAM.
Quem diz bolas-de-berlim, diz gelados. O pregão é “frutochocolaaaate!” e já não ecoa pelas praias portuguesas – as bolas com creme ou sem creme são as rainhas do areal -, mas o calor continua a ser o melhor amigo dos gelados.

Ilustração: Vítor Higgs/Animação: Nuno Santos

Na Artisani, de Luísa Lampreia, os meses de calor representam 70% do volume de negócios da empresa, que conta com o laboratório de produção, sete lojas próprias e dez em regime de franchising, tudo na região de Lisboa. Por esta altura sai da unidade de produção uma tonelada de gelado por dia, o que significa qualquer coisa como dez mil bolas de gelado.

“O verão, por ser uma altura de férias e de maior descontração, é propício a este tipo de consumos de impulso”, reforça Mafalda Ferreira. “Não é por acaso que um estudo recente mostra que um número importante de pessoas come gelados regularmente ao longo do ano, mas a maioria continua a assumir que os come sobretudo no verão.”

Luísa Lampreia entende bem este comportamento: “A ida à geladaria é uma prática de verão, uma ação feita em família, com os miúdos a puxarem os pais, mas o gelado é um produto que é consumido durante todo o ano. No inverno, mais em casa.” Um bom verão é, por isso, essencial até porque “no inverno, apesar de mantermos a maioria das lojas abertas, perdemos dinheiro. O consumo de gelados não tem tanto que ver com as estações, mas tem tudo que ver com calor”, diz a gestora.

Se nos doces, o verão ainda tem os seus senhores, há atividades em que a incerteza da meteorologia está a obrigar a mudanças. “Nos últimos anos, as alterações climáticas têm sido muito mais visíveis, com os verões a prolongarem-se até final de outubro ou início de novembro, e isto tem um impacto direto no negócio da indústria da moda”, diz Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), que admite “o abandono de materiais mais pesados de inverno” e a manutenção ao longo de todo o ano de tecidos finos. “Já não se vendem fatos de inverno, eu, pessoalmente, também já não tenho nenhum”, assume.

Nas lojas de fast fashion, as coleções primavera-verão e outono-inveno já deram lugar a várias coleções ao longo do ano, mais “uma reação a estas mudanças climáticas”, diz. E, como “a moda hoje em dia é uma compra emocional, os empresários sabem que precisam de premir o gatilho da compra. Antes, a mudança da estação ajudava, agora precisamos de pensar como vamos reconquistar a emoção”. Mas se na venda é preciso fazer mais ginástica, na produção nem tanto. “Se trabalhamos com a matéria prima X também trabalhamos com a Y”, realça.

José Pinto, CEO da Lemon Jelly, também reconhece que a produção própria permite controlar fenómenos de chuvas repentinas ou calores anormais. A marca portuguesa de calçado que entrou na boca do mundo por causa das galochas de borracha, tem outro trunfo para equilibrar a produção: a venda para 35 países da Europa, América e Ásia.

“Como dizia um amigo há muitos anos, o nosso melhor cliente é o tempo. Conforme fui crescendo neste negócio, percebi que este é o fator para que corra tudo bem”, refere o empresário ao Dinheiro Vivo. “Se caímos no erro de lançar produtos fora do tempo, é certo que vai correr mal.”
Mafalda Ferreira repete: “Não vale a pena ter coleções de verão antes do calor, e é preciso olhar para as promoções de outra forma. Quem vai de férias em agosto, se quiser, já compra tudo com descontos. As marcas deviam fazer essa adaptação.”

Na Lemon Jelly já não se trabalham seis meses para o verão e seis meses para o inverno, e os produtos steady over, constantes ao longo dos 12 meses, são fortemente procurados. A aposta no online, e na proximidade com o cliente, também ajuda a produzir de acordo com a necessidade. “É lógico que isso traz custos, mas não há alternativa. Temos de assumir mais riscos nisto. Temos de responder mais rapidamente às mudanças, ao imprevisto. Montar uma logística e um serviço adaptáveis – se vai chover durante três semanas na Europa, no meio do verão, eu tenho de ter oferta para isso”, diz o responsável. Quem “tem produção na China e é obrigado a grandes quantidades não tem a flexibilidade que a indústria portuguesa tem”, defende.

Essa também é uma palavra que José Manuel Silvestre conhece bem. O fundador da Sol de Algés, empresa especializada na produção e venda de chapéus-de-sol, toldos e coberturas, assume que a concorrência – especialmente a vinda da China – obrigou a indústria a reinventar-se criando produtos de qualidade a que os preços baixos não fazem sombra. “Cada vez que alguém vem mordiscar o nosso mercado, nós reinventamo-nos e subimos um patamar”, diz o responsável, que hoje em dia vende tanto para Portugal como para o estrangeiro, especialmente os países de língua portuguesa.

As estações, neste caso, também estão a mudar a produção. “Em vez de o verão valer 90% do volume de negócios, agora representa 60%, e os restantes 40% são diluídos ao longo do ano”, diz o empresário, que admite vantagens de uma produção mais espalhada pelos doze meses, e que ajuda a retirar a pressão dos prazos que o verão trazia. “Há três anos para cá que sentimos essa diferença, o que até é positivo, porque não precisamos de andar tão aflitos. Não nos afeta; redistribuímos”, diz.
Redistribuição é a grande máxima da indústria do turismo. O verão ainda é sinónimo de maior taxa de ocupação e preços mais elevados, mas também a atividade turística está mais diluída no tempo e no espaço. “Os meses mais fortes continuam a ser os de verão e a previsão é que neste ano também seja, mas há um crescimento importante ao longo do ano”, diz Cristina Siza Vieira. A presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal esclarece que no que toca a férias “ainda não podemos dizer que há uma alteração de paradigma”, até porque as férias escolares determinam as pausas de muitos trabalhadores, mas “como conseguimos captar turistas para outros segmentos, e outros mercados, isso permite-nos esbater a sazonalidade”. Os números mostram isso mesmo: em janeiro de 2018, a taxa de ocupação dos hotéis foi de 45% em janeiro; em junho já era 81%; agosto 87%.

“O que se pretende é que a relação preço versus taxa de ocupação seja elevada ao longo de todo o ano. O que se alcança ainda é diferente”, diz a responsável. Mas há nuances que se devem realçar: a Lisboa vazia de agosto ficou no passado. “Curiosamente agosto tinha uma ocupação baixa, mas nos últimos anos a taxa de ocupação já está na casa dos 75% a 80%”.

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