Emprego

140 mil trabalhadores em falta na indústria, turismo e construção

Só o sector da construção precisa de 70 mil operários. Fotografia: EPA / LUONG THAI LINH
Só o sector da construção precisa de 70 mil operários. Fotografia: EPA / LUONG THAI LINH

Empresários reclamam mais investimento em formação e incentivos para reter quadros sob pena de se travar o crescimento

As empresas portuguesas querem crescer mas continuam a debater-se com a falta de mão-de-obra. Só na construção e imobiliário estão em falta 70 mil operários, número que sobe para os 140 mil se lhe juntarmos as atividades de alojamento e restauração, a metalurgia e metalomecânica e a indústria têxtil e do vestuário. Só o calçado assume não ter grandes necessidades imediatas, a não ser “pontuais” e em “zonas de forte concentração” do sector.

Na construção a situação é preocupante. No último inquérito trimestral da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas à atividade, relativo ao segundo trimestre do ano, 74% das empresas apontaram a falta de mão-de-obra especializada como “um dos maiores constrangimentos ao exercício da sua atividade”. Reis Campos, presidente da AICCOPN, reclama um Regime Especial de Mobilidade Transacional que permita trazer para Portugal profissionais que já estão a trabalhar para as construtoras portuguesas nos mercados externos, mas, também, que se atue na formação profissional, lamentando que esta tenha sido concentrada escolas, que orientam os seus alunos para cursos profissionais sem correspondência com as efetivas necessidades.

“Colocar nos agrupamentos de escolas o que deveria ser atribuição dos Centros de Gestão Direta e de Gestão Participada do Instituto do Emprego e Formação Profissional é desperdiçar os recursos que estes centros dispõem, em particular na área da construção e do imobiliário, problema com reflexos evidentes no mercado de trabalho”, frisa.

O turismo é outra das atividades em grande desenvolvimento, pelo que as necessidades de trabalhadores se agudizam. Só no alojamento e restauração o sector criou mais de 69 mil empregos entre 2015 e 2018, mas a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) estima que a carência de recursos humanos seja da ordem dos 40 mil. Na agenda política que apresentou em setembro, com 100 propostas para melhorar o turismo e as suas empresas, a associação liderada por Mário Pereira Gonçalves pede a criação de uma rede específica para o turismo que analise e comunique todas as ofertas e procuras de emprego, bem como de formação, e a retoma de programas de incentivo, com apoio financeiros, para a manutenção da empregabilidade, nomeadamente através de programas de formação e capacitação empresarial, nas zonas de maior sazonalidade do sector. Quer, também uma campanha de valorização e dignificação das profissões estratégicas da atividade turística.

Com as exportações ainda a crescer, mesmo que a um nível menor do que nos últimos anos, a metalurgia e metalomecânica continua a precisar de reforçar os quadros das empresas para dar resposta à procura e a AIMMAP, a associação do sector, estima que estejam em falta entre 20 a 25 mil trabalhadores, mesmo assim inferior aos 28 mil que apontava no início de 2018. A contratação de imigrantes, nomeadamente da Venezuela e do Brasil, tem ajudado a fazer face às necessidades.

“Temos contratado, nos últimos anos, muitos trabalhadores. O que sucede é que o crescimento das necessidades tem sido superior à capacidade de contratação”, diz Rafael Campos Pereira, vice-presidente da associação. Sobre as medidas a tomar, este responsável pede a agilização dos trâmites de legalização de estrangeiros, investimento “mais criteriosos” em formação e qualificação e investimentos em digitalização. Importante, também, diz, “é que as empresas continuem a comunicar melhor que os salários no sector são superiores à generalidade dos restantes”.

No têxtil e vestuário, Paulo Vaz, da ATP, calcula que a fileira poderia, facilmente, absorver cinco mil pessoas. Defende mais investimento na formação, “de modo a aumentar a produtividade dos trabalhadores atuais”, e maior automação dos processos produtivos e melhoria na gestão industrial, para “fazer mais com menos”. Considera, ainda, que há que apostar na servitização, ou seja, “ganhar competências para fazer sourcing e deslocalizar a indústria, de modo a nunca perder o cliente e a manter o centro de decisão e a geração de valor em Portugal”. César Araújo, da ANIVEC, reclama um estudo alargado das reais necessidades de importação de mão-de-obra do país, convicto de que, sem isso, Portugal “não poderá continuar a crescer”. Pede, ainda, que os investimentos de capital estrangeiro sejam direcionados para o interior, para que “não constituam uma pressão adicional” sobre as empresas já existentes.

Na última década, o emprego no calçado cresceu 11,9% e as exportações aumentaram 47,3%. Mas, desde o ano passado que estão a cair, levando a uma menor necessidade de pessoal. A APICCAPS, a associação da indústria, defende uma aposta na atração de jovens: “É preciso mostrar-lhes que o sector industrial como uma todo proporciona oportunidades muito interessantes de carreira”, diz Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICCAPS, e que recentemente fez o lançamento, em Portugal, do projeto Open your mind, uma iniciativa da Comissão Europeia que pretende, precisamente, divulgar as oportunidades de emprego na fileira da moda junto dos mais jovens, desafiando-os a “esquecer os preconceitos” e a “olhar de outra forma” para a indústria que precisará de, pelo menos, 400 mil trabalhadores na Europa, só na área produtiva, na próxima década.

“O que se ganha em Portugal não dá para nada”
António Loureiro é operário da construção e está em França desde 2012

Condutor manobrador de gruas, António Loureiro trabalhou em algumas das maiores obras realizadas em Portugal nas últimas décadas, desde a nova igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, ao Terminal de Cruzeiros de Leixões, passando pelo reforço de potência da Barragem da Bemposta ou o Túnel do Marão. Todas ao serviço da Somague, a última grande construtora para que trabalhou. Hoje está em França, depois de já ter passado pela Alemanha, pela Bélgica e até pela Venezuela, e não conta voltar. “Estive dois ou três meses em Portugal mas o dinheiro que se ganha não dá para nada”, lamenta.

António Loureiro tem 55 anos e mulher e filho em Penafiel. Em Portugal “tirava, mais ou menos, mil euros por mês”, em França, “a trabalhar as mesmas horas”, ganha “duas vezes e meia mais”. O custo de vida em França não leva a diferença? “Nem por isso. As compras no supermercado são relativamente iguais. Aliás, até conseguimos comprar artigos portugueses mais baratos aqui, não entendo”.
Está a 50 quilómetros de Paris, numa obra com mais 150 portugueses, ao serviço de uma construtora nacional, que lhes garante alojamento e transportes, bem como quatro viagens por ano a casa.

Big Maq quer engenheiros e fresadores
Sócio-gerente da empresa de moldes não consegue contratar

Líder de mercado na maquinação de peças de grande dimensão, em especial para a indústria automóvel e aeroespacial, a Big Maq – Serviços de Maquinação de Moldes fatura cerca de três milhões de euros e exporta, direta e indiretamente, cerca de 90% do que produz. Alemanha, República Checa, Polónia, Espanha, França e Portugal são os principais mercados. Está à procura de engenheiros mecânicos e de programadores e operadores de fresadoras CNC (equipamentos de Controlo Numérico Computadorizado).

Com sede em Arouca, a Big Maq dá emprego a 40 pessoas e teria condições para integrar, no imediato, mais meia dúzia, se os arranjasse. Com ou sem formação. “Investimos 15 milhões de euros, nos últimos anos, ao abrigo do Portugal 2020, designadamente em inovação, na renovação do parque de máquinas e na melhoria dos processos produtivos e não estamos a conseguir dar resposta às necessidades de crescimento ao nível da mão-de-obra”, explica Vítor Mendes, sócio-gerente da empresa. A Big Maq oferece um prémio aos seus funcionários que tragam alguém para trabalhar na empresa, bem como dá um seguro de saúde a todos os seus colaboradores, entre outras regalias.

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