Davos 2020

Davos. Os negócios, a política, o ambiente e os “do contra”

David Cameron, no Forum Económico Mundial 2020, em Davos. DR.
David Cameron, no Forum Económico Mundial 2020, em Davos. DR.

Executivos de fato e botas de neve circularam pela Promenade de Davos, na Suíça, durante toda a semana. O World Economic Forum é um dos poucos palcos em que podemos encontrar políticos, empresários e gestores que mais mandam e influenciam o mundo.

O que é tão diferente no encontro de Davos face a muitos outros eventos mundiais, perguntam os leitores? É não só o facto de todos os participantes serem de primeiríssima linha mas também estarem disponíveis para falar, reunir, negociar, concordam muitos dos líderes com quem o Dinheiro Vivo falou. Davos não é uma feira, mas um incrível fórum de networking e no qual o Dinheiro Vivo foi o único meio

português presente.
Foi deste palco, por exemplo, que saiu o contacto e a decisão de a gigante portuguesa do retalho Jerónimo Martins investir na Polónia e, mais tarde, noutra edição de Davos, apostar na Colômbia.
As reuniões com investidores decorrem não só no fórum mas também ao longo da Promenade, já que todas as lojas são transformadas em espaços oficiais de grandes empresas, a maioria multinacionais, e de países que ali vendem os seus atrativos aos investidores. Foi o caso da Indonésia, China, Rússia, Ucrânia, entre outros. O próprio presidente da Ucrânia, numa postura muito séria e tentando descolar da sua imagem de ex-comediante, passeou-se na avenida e participou ali numa sessão, rodeado de polícias.

Portugal não investiu em qualquer espaço para se promover, ausência que mereceu críticas dos participantes portugueses. Disseram em coro, que “faria mais sentido estar em Davos do que na Expo Dubai, por ser melhor aposta de longo prazo, com impacto em novos investimentos”.

Neste ano as alterações climáticas foram o grande tema em destaque, enfoque elogiado por António Horta Osório, CEO do Lloyds Bank, em conversa com o Dinheiro Vivo. A banca está atenta às alterações, o próprio Lloyds já segue uma política que tem em conta as metas ambientais. Os grandes players mundiais da banca fizeram-se representar. O HSBC, por exemplo, ocupou muitos metros quadrados na Promenade e o português António Simões, que lidera o negócio global de banca privada do banco, foi um dos participantes.

Um outro grande espaço acolheu o BlackRock que promoveu um jantar com os mais importantes gestores e banqueiros do mundo. António Horta Osório foi um dos convidados.

O futuro do sistema financeiro foi tema de vários encontros. Quem não hesitou em apontar-lhes o dedo e denunciar as suas práticas pouco ambientais foi a ativista Greta Thunberg, umas das oradoras do fórum, no mesmo dia em que discursou Trump, presidente dos Estados Unidos. Greta disse que “os banqueiros não têm feito o suficiente para combater as alterações climáticas”.

Banca em stress com o clima
O Banco Central Europeu está atento aos efeitos do clima e os novos testes de stress climáticos arrancarão em 2021. Apesar da data se aproximar a passos largos, na opinião de alguns gestores o setor ainda está a fazer pouco ou nada.

Do WEF saíram avisos para que os bancos acelerem o passo na forma como trabalham temas do clima com os grandes clientes, que são também grandes poluidores. Alguns banqueiros responderam dizendo o que já fazem, mas outros, sobretudo os americanos – alinhados com Donald Trump -, preferiram dizer o que continuarão alinhados com o passado. Mike Corbat, CEO do Citibank, afirmou não ser missão dos bancos assegurar que as companhias adotem medidas ambientalmente sustentáveis nos seus negócios. David Soloman, CEO da Goldman Sachs, seguiu a mesma linha de pensamento ao referir que a instituição não tem o papel de aconselhar clientes acerca da poluição e que não parará de financiar só porque é uma companhia de carbono ou de combustíveis fósseis. Comentários que deixaram a audiência surpreendida, comentando à boca pequena que “talvez tenham sido estes senhores que encheram as ruas de carros e limusines movidas a gasóleo, em vez de usarem o comboio como faz a maioria”.

De acordo com os participantes mais frequentes, esta edição dedicada às mudanças do clima foi precisamente a que teve mais trânsito, com filas intermináveis para atravessar a pequena cidade alpina. Apenas alguns dos shuttles eram elétricos.

Tecnológicas mais verdes
Também as tecnológicas dominaram. O Facebook e a Google ocuparam os melhores lugares para as suas exposições. Investiram forte e escolheram as localizações mais perto da entrada principal do Fórum e do Hotel Belvedere, onde ficam alojadas as cabeças-de-cartaz. Neste ano o foco não esteve tanto na tecnologia em si, mas na interação com os utilizadores e na divulgação das estratégias para a neutralidade carbónica.

“… O caminho é trabalhar”
O dia mais europeu do WEF aconteceu na quarta-feira. Pedro Sánchez esteve em palco. O primeiro-ministro de Espanha foi ouvido com atenção pelos capitalistas, que receiam uma reviravolta na política económica do país. Por isso, Sánchez fez questão de vir e transmitir estabilidade. Ainda assim, os investidores comentaram que “soube a pouco”. O líder espanhol apresentou-se “tenso e pouco vibrante no discurso”, revelando que ainda está a lamber as feridas de uma dura luta política que culminou no primeiro governo de coligação naquela nação.

No mesmo dia, David Cameron, ex-primeiro-ministro britânico, marcou presença. À conversa com o Dinheiro Vivo, a bordo do comboio entre Klosters e Davos, disse, sem rodeios, que “o brexit foi claramente uma decisão errada, mas agora o caminho é trabalhar, trabalhar, trabalhar. É nisso que temos de estar focados no Reino Unido”.

Afirmou também que é preciso “ter os olhos postos no desemprego, no crescimento económico e no futuro”. Bem-disposto, mostrou-se agradado com o tema escolhido por Davos para a edição que assinala os 50 anos deste fórum.

Num balanço final, nesta sexta-feira, o português Stephan Morais, founder e managing general partner do fundo Indico Capital Partners, destacou “a forma como este fórum ficou marcado por um discurso que junta a necessidade do mundo adotar um capitalismo mais inclusivo que reduza desigualdades insustentáveis e, ao mesmo tempo, todos termos presente a urgência e a necessidade de atuarmos sobre a emergência climática”.

*Em Davos.
A jornalista viajou a convite da Philip Morris International

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