Agricultura

20 medidas para relançar a produção de cereais

Estratégia nacional visa reduzir a dependência do país face às importações e elevar a autossuficiência de 25% para 38% no prazo de cinco anos

Apenas três cereais asseguram quase metade das calorias que a Humanidade consome: trigo, arroz e milho. Apesar da sua importância, Portugal é deficitário e tem de importar para abastecer a população. Por esse motivo, o Governo vai apresentar, nesta terça-feira, Dia do Agricultor, 20 medidas para promover a produção de cereais e tornar o país mais autónomo do ponto de vista alimentar.

“O trigo, o arroz e o milho são os alimentos mais importantes no mundo – os três juntos fornecem 42% de todas as calorias que a Humanidade consome (além de servirem para a alimentação animal, produção de açúcar, etc.). Estes três cereais ocupam 31% da área cultivada a nível mundial”, refere Margarida Silva, docente na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica.

Décadas de perdas

Em Portugal, a situação é frágil. O país perdeu, em três décadas e meia, 71% da área cultivada com cereais, e só não viu a produção baixar de forma tão drástica, porque a inovação tecnológica introduzida permitiu multiplicar por 2,5 a produtividade média das culturas cerealíferas, descreve uma nota preparada pelo Grupo de Trabalho dos Cereais, criado pelo ministro da Agricultura, Capoulas Santos.

No final dos anos 80, a superfície cultivada com cereais ocupava cerca de 900 mil hectares, quase 10% do território nacional, mas grande parte foi dando lugar a pastagens. No ano passado, a área circunscrevia-se a 260 mil hectares, ou seja, menos 71%, uma perda de 640 mil hectares.

A produção acompanhou o recuo das culturas: se na década de 80 o país assegurava 1,65 milhões de toneladas, em 2016, não conseguiu mais do que 1,1 milhões de toneladas, motivo pelo qual as importações são significativas.

Autossuficiência “preocupante”

Os cereais representam mais de 10% das importações alimentares e mais de 30% das importações, lê-se na mesma nota. Não é assim de estranhar que o país tenha um dos níveis mais baixos do mundo em matéria de auto aprovisionamento de cereais, na ordem dos 25% – “uma preocupante singularidade” que o Governo quer atacar, tendo definido um horizonte de cinco anos para aumentar a autossuficiência para 38%. Pior do que nós, na União Europeia, só Chipre, Malta e Holanda.

“Com a implementação desta estratégia é objetivo atingir-se até 2022 um grau de auto aprovisionamento em cereais em cerca de 38%, correspondendo 80% ao arroz, 50% ao milho e 20% aos cereais praganosos [trigo, centeio, cevada, aveia]”, explicita o Grupo de Trabalho.

A meta da autossuficiência cerealífera será apresentada nesta terça-feira, em Elvas, a par do anúncio das 20 medidas que farão parte da Estratégia Nacional para a Promoção da Produção dos Cereais, com a qual o Governo quer reduzir as importações e obter um setor “mais forte e mais eficiente, com maior capacidade de resistência à volatilidade dos mercados, disponibilizando aos consumidores um produto de qualidade”, a par do combate ao abandono de zonas rurais.

Os três pilares da estratégia

Coordenado por Luís Souto Barreiros, o grupo que elaborou as medidas contou com o contributo de três associações ligadas à produção de cereais (ANPOC, ANPROMIS e AOP) e pode dizer-se que a estratégia assenta em três pilares: o reforço do papel das Organizações de Produtores, a organização ao longo da fileira da produção e a inovação e transferência de conhecimento.

O objetivo é “reduzir a dependência externa, consolidar e aumentar as áreas de produção”, bem como “melhorar a eficiência produtiva e redução dos custos”, passando por “criar valor na fileira dos cereais”, assente no aumento do valor do produto.

“É preciso produzir mais barato e vender mais caro”, resume Luís Barreiros. A forma de o conseguir será, segundo detalhou ao Dinheiro Vivo, reduzindo custos, por exemplo, com a rega, a energia elétrica, outros fatores de produção e custos de contexto.

Organismo interprofissional

O modo como os produtores se vão organizar será determinante para partilharem conhecimentos, beneficiarem de experiências que tragam ganhos de eficiência e de escala, para melhor se articularem com os restantes membros da fileira, a indústria e a distribuição, daí a proposta para a criação de um Organismo Interprofissional dos Cereais, à semelhança do que já existe no arroz, no leite, no azeite e no vinho.

O recurso ao regadio, nomeadamente através do plano que o Ministério da Agricultura já lançou, será “crítico” e uma oportunidade a ter em conta, para a valorização da qualidade da produção nacional, tendo em conta o maior grau de exigência por parte do consumidor atual, assinala Luís Barreiros.

Voltámos a gostar de pão

A exigência da qualidade reside, desde logo, no facto de o país ter voltado a apreciar o pão e a apurar o gosto por exemplares exóticos, mas muitos deles feitos com farinhas que apenas estavam em desuso. Vêm de grãos resgatados à escuridão dos celeiros, mas ainda insuficientes para satisfazer a recente avidez, visível na proliferação de padarias que reivindicam ser as produtoras do “pão autêntico”.

Autêntico e, de preferência, “100% português”, como o programa lançado, no ano passado, pelo Clube de Produtores de Cereais de Qualidade. Tratou-se de uma iniciativa dirigida ao estímulo da produção nacional, no trilho do que alguma indústria já faz, nomeadamente, a da cerveja, para a compra de cevada e lúpulo portugueses, ou da distribuição, como o Continente, que assinou, em abril, um contrato com seis operadores da fileira dos cereais, investindo dois milhões de euros na compra de três mil toneladas de trigo português. Na próxima quinta-feira, será a vez de o Grupo Auchan estabelecer, em Évora, uma parceria com a Fileira dos Cereais do Alentejo, com o objetivo de promover uma “qualidade sustentável” da produção.

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