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2016, o ano em que tudo muda (outra vez)

2016, o ano em que tudo volta a mudar
2016, o ano em que tudo volta a mudar

Esqueça a bola de cristal: em 2016, as apostas não vêm nos astros mas são bem palpáveis. Realidade aumentada e fintech são alguns dos sinais do futuro

Agora que meio mundo já experimentou hoverboards e há drones a sobrevoar o quintal do vizinho, a evolução tecnológica que chegará neste ano será mais profunda. Os analistas apontam para uma ebulição que mudará o quotidiano das pessoas a curto prazo, entre óculos de realidade aumentada com hologramas, inteligência artificial em casa e a proliferação das ameaças de cibersegurança. Também a revista norte-americana The Entrepreneur não tem dúvidas: 2016 vai ser o ano da realidade virtual.

Mas o que é isto, afinal, de termos a sensação de estarmos num sítio diferente estando sentados exatamente no mesmo sofá? Gabriel Coimbra, diretor da IDC Portugal, diz que iremos assistir ao “acelerar de uma nova vaga de tecnologias”, entre as quais a internet das coisas, a impressão 3D, a robótica e os sistemas cognitivos. Todas são desenvolvidas no topo daquilo a que a consultora chama “3.ª Plataforma Tecnológica”, assente em tecnologias móveis, nuvem, sociais e big data.

“Para Portugal, a IDC prevê que o tema da Transformação Digital entre definitivamente na agenda dos decisores máximos das organizações portuguesas”, diz o analista ao Dinheiro Vivo.

Alguns dados referentes a 2015 mostram porquê: os portugueses compraram três milhões de smartphones, 800 mil tablets e 730 mil computadores. A nuvem representou 22% do orçamento empresarial de tecnologia no mercado nacional. E prevê-se que a internet das coisas tenha 60 milhões de equipamentos ligados dentro de quatro anos no país. “Além de PC, tablets e smartphones, prevemos que grande parte das coisas ligadas à internet comuniquem com a rede sem intervenção humana, como carros, eletrodomésticos, elevadores, animais, casas, contentores, contadores de eletricidade, gás e água, entre outros.”

A aceleração do processo tem muito que ver com a integração das novidades tecnológicas no sector industrial, que serve de catalizador ao aumento de escala das startups. “A indústria só acompanhará essa revolução digital se integrar todas estas novas tecnologias. E o último fim deste movimento de inovação de startups deve ser a própria indústria. 2016 será ano da indústria 4.0”, assinala João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria. “Arriscar--me-ia a dizer que a maioria das startups portuguesas são B2B e, por isso, desenvolvem tecnologia e serviços que vendem para grandes indústrias”, acrescenta.

Já Ricardo Marvão, cofundador da Beta-i, acredita que, além de novas startups e ideias de negócio, o ano novo vai trazer mais investimento. “Empresas que até agora conseguiram pequenos financiamentos vão anunciar novas rondas e, quem sabe, a primeira aquisição portuguesa?”, questiona, em entrevista ao Dinheiro Vivo, não avançando apostas nesta área. Além de uns quantos gadgets vistosos que serão lançados ao longo do ano, há tendências tecnológicas importantes que vão fazer a diferença. Estes são exemplos de ambos.

Virtual ou aumentada?

Há dois produtos fundamentais que verão a luz do dia neste ano: um é o Oculus Rift, óculos de realidade virtual que se ligam a um PC e serão lançados no primeiro trimestre do ano, ainda sem preço. O outro é o HoloLens, óculos de realidade aumentada com hologramas que a Microsoft lançará por cerca de três mil euros nos próximos três meses.

No primeiro caso há uma imersão total numa “realidade” distinta, virtual, o que prevê aplicações revolucionárias em campos como a formação e o treino interativo com simuladores (por exemplo, na medicina, no exército e na aviação). Tem-se falado muito da sua utilização para videojogos e entretenimento, mas esse é apenas o começo.

O segundo caso é mais impressionante, sendo uma tecnologia distinta.

Os óculos Hololens não tapam nem substituem a visão do utilizador. Têm uma viseira e um projetor que acrescenta elementos ao campo visual (daí dizer-se que é realidade aumentada), permitindo tocar e moldar hologramas. A sua aplicação em áreas profissionais e de investigação é muito promissora, algo que se confirmará com o lançamento deste primeiro kit para programadores. Será um dos produtos mais interessantes do ano.

Impressão de biomateriais

Esqueça os bonecos e os porta-chaves, a nova era da impressão 3D é feita de materiais disruptivos. Empresas como a BioBots e a Organovo estão a trabalhar com biomateriais e tecidos humanos, tendo como objetivo final imprimir órgãos humanos. E não é só aqui que se espera evolução neste ano: a Gartner diz que o surgimento de novos materiais de impressão levará a uma explosão neste mercado, com crescimento anual superior a 60%.

“Estes avanços requerem um repensar das linhas de montagem e processos de cadeia de fornecimento para explorar a impressão 3D”, diz a consultora. Vidro, fibra de carbono, níquel e outros materiais estão a alargar as fronteiras do imaginável e a alargar as aplicações práticas da impressão 3D para sectores como aeronáutica, medicina, automóvel, energia e exército. Com o surgimento de máquinas mais baratas (a da BioBots custa 10 mil dólares) e empresas como a HP a investigarem o 4D, em que os materiais são inteligentes e as suas propriedades podem ser alteradas conforme as necessidades, a interligação entre realidade e tecnologia será cada vez mais palpável.

Elétricos e autónomos

Na próxima semana haverá uma parada de novos carros elétricos na feira de eletrónica CES, em Las Vegas, com várias construtoras a prepararem lançamentos arrojados. A BlackBerry vai entrar nas tecnologias de carros autónomos e a Volkswagen lançará um modelo elétrico “completamente novo.” A Kia tem novidades nos carros conectados e autónomos, enquanto a CEO da General Motors, Mary Barra, vai fazer uma das apresentações principais.

Mas a grande expectativa do ano é relativa ao Model 3 da Tesla, que será revelado em março e abre as pré-reservas nessa altura. Será o primeiro modelo da fabricante californiana com um preço razoável – 35 mil euros – numa altura em que a marca de luxo se bate taco a taco com a Nissan pela liderança do mercado de carros elétricos. Porque é que isto é tão importante?

Estamos num ponto de viragem no que toca às alterações climáticas, no rescaldo da cimeira do clima de Paris.

Carros com zero emissões, eficientes e possíveis de carregar com energia mais limpa são um passo fundamental para minimizar o impacto da poluição atmosférica nas cidades. Mas não só. Os carros autónomos e semiautónomos também serão importantes para a redução de sinistralidade e melhoria do fluxo de tráfego nas estradas. A chegada da Tesla ao mercado de massas pode ser o ponto de inflexão, a partir do qual os carros elétricos se tornarão sexy.

Cibersegurança

Até onde estamos dispostos a ser vigiados em troca de uma maior noção de segurança? Nunca como agora esta questão foi tão importante. Há um conflito entre as agências governamentais e as empresas que fornecem serviços aos consumidores, e em 2016 haverá maior pressão para o acesso às “portas dos fundos” – linhas de código que permitem entrar de forma subreptícia nas bases de dados de sites como Facebook, Google, agências de viagens, hotéis, até bancos. Onde houver dados pessoais de clientes haverá interesse das autoridades na era do ciberterrorismo e do fundamentalismo.

A verdade é que a internet das coisas, a explosão dos wearables e da nuvem serão terreno fértil para ataques constantes – desde os sistemas de pagamentos de cadeias hoteleiras como o Hyatt às Barbies Hello. A Gartner fala de uma evolução para aplicações que se autoprotegem, num ambiente de arquiteturas de segurança adaptativas. “As complexidades dos negócios digitais e da economia algorítmica, combinadas com uma ‘indústria hacker’ emergente, aumentam significativamente as áreas vulneráveis a ameaças”, diz a consultora. Os consumidores terão de decidir qual a sua zona de conforto com a cedência de privacidade e ser mais proativos na defesa dos seus dados.

Inteligência artificial

Os avanços em inteligência artificial nunca tiveram tanto impacto no quotidiano dos utilizadores, e é aqui que muitos esperam avanços significativos em 2016. Assistentes digitais como a Siri (Apple), a Now (Google) e a Cortana (Microsoft) vão tornar-se mais competentes, com níveis inéditos de aprendizagem autónoma. O Facebook, que tem investido num servidor dedicado (Big Sur) já começou a traduzir em serviços para o consumidor a sua aposta na inteligência artificial – está a testar o assistente virtual M, que funciona no Messenger e entre outras coisas pode encomendar-lhe o jantar ou pedir um Uber com uma simples mensagem. Os carros que se conduzem sozinhos estão cada vez mais próximos; o supercomputador Watson da IBM está a ser usado em projetos de investigação médica e tem um centro em Munique só para internet das coisas; o Kasist oferece um assistente financeiro no smartphone que rivaliza com qualquer especialista humano.

A consultora Advanced 365 prevê que este seja o ano em que a inteligência artificial se tornará mainstream. Também espera que as apps desapareçam dentro de quatro anos, precisamente devido aos assistentes digitais. As interações passarão a ser principalmente com estes “cérebros” digitais, de forma natural, sem ser preciso entrar em aplicações individuais para cada tarefa ou pesquisa.

iPhone 7 vs. Galaxy S7

Fala-se do fim do smartphone dentro de cinco anos, substituído por interfaces holográficas, mas enquanto isso não acontece a Apple e a Samsung vão continuar a dominar o mercado. A fabricante norte-americana prepara três novos modelos neste ano: um mais barato e a apresentar em março, o 6C, e os dois topos de gama a lançar em setembro, 7 e 7 Plus. Um dos rumores que circulam é de que a Apple vai acabar com a entrada para auscultadores, o que permitirá modelos ultrafinos (o áudio passará a ser suportado através do conetor Lightening). Outro é de que será resistente à água e terá carregamento wireless da bateria.

“São negócios que não mudam muito há anos. Investir em ideias disruptivas nesta área é uma tendência e há já fundos exclusivamente dedicados a estes investimentos, sobretudo em seedstage”, assinala Ricardo Marvão.

Pelo lado da rival sul-coreana, o topo de gama S7 deverá ser introduzido já em fevereiro, durante o Mobile World Congress de Barcelona. Há uma pilha de rumores a circular, que apontam para um corpo de magnésio, três tamanhos e leitor de íris, entre outras novidades. Ambas tentarão surpreender um mercado que já é difícil de entusiasmar, defendendo as suas posições – não há ainda números para 2015, mas dados preliminares da consultora Flurry indicam que a Apple foi responsável por 49,1% das ativações de novos aparelhos no Natal (entre 19 e 25 de dezembro), seguida da Samsung, com 19,8%. A competição continuará a ser essencialmente entre estas duas gigantes.

Fintech

Se há segmento em que vale a pena apostar neste momento é na tecnologia para a indústria financeira, ou fintech. Para os consumidores, isto reflete-se no surgimento de aplicações que tornam mais fácil pagar com o telemóvel, substituir ou eliminar intermediários, fazer transferências de dinheiro, aplicá-lo e geri-lo através do dispositivo móvel ou ainda pagar com moeda digital Bitcoin. A portuguesa ebankIT é um desses casos: em 2015 foi considerada uma das 50 fintech a não perder de vista, de acordo com um relatório da KMPG em parceria com a empresa de investimento H2 Ventures. “A ebankIT tem apostado na inovação no mercado financeiro, com soluções que simplifiquem a utilização bancária pelos cidadãos e melhorem a presença dos bancos para os clientes”, explicava, na altura, João Lima Pinto, presidente executivo da ebankIT, ao Dinheiro Vivo.

Só no ano passado foram investidos 7,3 mil milhões de euros em startups de tecnologia financeira, de acordo com a Pitchbook, quase o dobro em relação a 2014. E a CB Insights regista dezassete startups unicórnio, com valorizações acima de mil milhões de dólares, precisamente neste segmento. Metade delas entraram no clube mágico durante os últimos meses.

Vários aceleradores dedicados à fintech estão a surgir em várias partes do globo, como o Barclay’s Accelerator em Nova Iorque, Londres, Cabo e Tel Aviv, ou o Level39 em Londres. A China está a produzir algumas startups interessantes, como a Lufax e a China Rapid Finance. E os investidores também começam a organizar-se e a investir cada vez mais de forma vertical, especializando-se em financiar empresas ligadas à banca e aos seguros.

“São negócios que não mudam muito há anos. Investir em ideias disruptivas nesta área é uma tendência e há já fundos exclusivamente dedicados a estes investimentos, sobretudo em seedstage”, assinala Ricardo Marvão. Os bancos também investem cada vez mais, preocupados com o potencial disruptivo das empresas novas. Neste ano haverá mais opções, e quem beneficia é o consumidor.

As tribos sociais

Diz-me com quem andas, dir-te-ei em que discussões te metes no Facebook. Se no ano passado houve um aumento de neoluddites (pessoas que se consideram antitecnologia), neste ano haverá uma redefinição dos espaços online. Esta “reemergência da tribo”, como lhe chama a especialista Mary Meehan, na Forbes, é o resultado de um desencanto com a partilha indiscriminada nas redes sociais.
Ao invés de partilharem com todos o que comeram, onde passaram férias e o que acham do presidente da República, os utilizadores querem aprofundar a discussão com grupos mais restritos de amigos e pessoas que partilham dos mesmos interesses. Preferem grupos no WhatsApp e no SnapChat, ou outras plataformas, onde não está um futuro patrão nem a tia da vizinha a mandar vir com um meme.
Chegámos a um ponto de exaustão e queremos reclamar a pouca privacidade que ainda controlamos. O que é que isto significa? Uma redistribuição da “riqueza” de opiniões e influências nas redes sociais. E marketeers, empresas e políticos a tentarem entrar nessas conversas tribais.

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