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Portugueses não compram sapatos. Falta dinheiro ou a culpa é da instabilidade?

Fortunato Frederico, fundador da Kyaia e da Fly London. Fotografia: Pedro Correia / Global Imagens
Fortunato Frederico, fundador da Kyaia e da Fly London. Fotografia: Pedro Correia / Global Imagens

Último trimestre do ano foi o pior de que Fortunato Frederico tem memória. Arruinou a perfomance do ano inteiro

Os portugueses estão a comprar menos sapatos. Muito menos. A culpa é da crise, das condições meteorológicas que não ajudam… e da política.

Fortunato Frederico, proprietário da rede de sapatarias Foreva e Fly London, garante que a instabilidade política lhe arruinou as vendas. “Os últimos três meses do ano foram os piores que eu tive no mercado interno a vender sapatos”, frisa. Resultado? Um prejuízo na ordem de um milhão de euros num ano que, até setembro, ia “relativamente equilibrado”.

A Kyaia, o maior grupo português de calçado e que inclui as marcas Fly London e a rede Foreva, fechou 2015 com uma faturação da ordem dos 63 milhões de euros. Destes, 40 milhões referem-se exclusivamente ao segmento industrial, que cresceu 6,5%. “O ano nem foi mau. Crescemos cerca de 14,6% nas exportações, mas a crise no mercado interno não ajudou”, diz Fortunato Frederico. O mercado europeu caiu 2% e as vendas da Fly London em Portugal, que têm registado “quebras brutais desde 2011”, baixaram no ano passado 50%.

“Até setembro, tínhamos as contas nas sapatarias mais ou menos equilibradas. Estávamos satisfeitos porque, para nós, perder pouco já é muito bom. Mas o último trimestre deu-nos uma pancada enorme. As pessoas deixaram de comprar sapatos. Não porque o produto estivesse mais caro ou fosse pior, era uma instabilidade permanente que havia todos os dias e isso afastou as pessoas das compras”, defende o empresário.

E este ano? “Na exportação estamos a crescer. No mercado interno, janeiro foi ligeiramente positivo face ao ano passado e fevereiro esteve ela por ela”, diz Fortunato Frederico, que pede estabilidade política para que os consumidores reganhem confiança. O volume de negócios, que inclui as vendas das lojas Fly London em território nacional, ronda os 12 milhões.

A operar num segmento completamente distinto está Luís Onofre, que conta com uma loja própria na avenida da Liberdade, e na qual sofre, sobretudo, os efeitos da crise angolana e da menor procura de consumidores deste país. Em compensação, garante, aumentou muito o número de clientes franceses, fruto do crescimento da atividade turística.

A Eureka Shoes, que conta com uma rede de 30 sapatarias no mercado nacional, também aponta o dedo à meteorologia. Filipe Sousa assegura que as vendas em Portugal têm vindo a crescer “mais de 10% ao ano”, num universo comparável de lojas, mas admite que o ano passado se sentiu uma ligeira retração nas vendas no segundo semestre de 2015.

“Tivemos pouquíssima chuva no último trimestre e novembro e dezembro foram meses verdadeiramente primaveris. Claro que as vendas se ressentiram. Eu, enquanto consumidor, também não senti grande necessidade de comprar sapatos de inverno”, diz. As lojas Eureka representam 9 milhões de euros na faturação da Alberto Sousa, Lda, que em 2015 atingiu os 28 milhões. O grupo pretende, ainda este ano, abrir mais três ou quatro lojas Eureka, designadamente em Lisboa e Porto.

Também a Lemon Jelly, da Procalçado, assume que 2015 correu “bastante bem” no mercado nacional, embora admita que já não tem muito mais espaço para crescer em Portugal. “Apesar da crise, continuamos a ser uma marca muito procurada pelas lojas e pelo consumidor. E mesmo com a instabilidade política e as dificuldades causadas pela tempo, conseguimos atingir os objetivos”, afirmou ao Dinheiro Vivo José Pinto, responsável da marca.

Portugal vale já menos de 10% das vendas da Lemon Jelly, criada em 2013, mas nem por isso a Procalçado dá menor atenção ao mercado. “Temos um consumidor muito fiel à marca”, sublinha José Pinto. Com uma faturação anual de 23 milhões de euros, a Procalçado tem nas suas marcas próprias – a Lemon Jelly, mas também a Wock, vocacionada para o calçado profissional – 20% das vendas. Espera que, em menos de cinco anos, esse peso possa ser já de 50%.

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