BCE

BCE pode ter de mudar regras para alargar programa de compra de ativos

Analistas acreditam no alargamento do programa por pelo menos mais seis meses mas escassez de ativos disponíveis para comprar obriga a mudar regras.

O Banco Central Europeu (BCE) pode ser obrigado a mudar as regras de compra de ativos se quiser alargar o programa de quantitative easing (QE) depois de março de 2017, devido a uma cada vez menor disponibilidade no mercado de ativos elegíveis para o programa de compra implementado pelo banco central, acreditam os analistas contactados pelo Dinheiro Vivo.

O presidente do BCE, Mario Draghi, revelou ontem em conferência de imprensa que os comités do banco central estavam a estudar outras opções de ativos que o BCE poderá comprar caso se alargasse o quantitative easing – na última revisão o banco central passou a poder comprar também dívida de algumas empresas.

Para os analistas este é um dos temas que merece maior destaque numa conferência de imprensa muito parca em novidades, com a manutenção das taxas de juro e a reafirmação de que o programa de compra de ativos de 80 mil milhões de euros estaria em vigor até março de 2017 e poderia ser alargado – embora Draghi tenha garantido que esse alargamento não tinha sido discutido na reunião de governadores.

Leia mais: Rescaldo. Analistas desiludidos com falta de ação do BCE

“O principal destaque foi a atribuição por parte do Conselho do BCE a comissões competentes a responsabilidade de avaliação das opções que garantam a boa execução do programa de compra de activos, tendo as mesmas um ‘full mandate’ para redesenhar o QE”, refere José Lagarto, analista da Orey Financial. Albino Oliveira, da Patris Investimento, concorda, lembrando que esta avaliação mostra que o BCE reconhece que “as taxas de juro baixas colocam entraves ao universo de possíveis compras do programa de QE”.

Em causa está a obrigatoriedade do BCE comprar obrigações tendo em conta o peso de cada país no capital do BCE. Ou seja, o BCE nao pode ter mais de 33% em cada emissão nem comprar ativos que tenham uma taxa de juro inferior a -0,4%. E é este limite que os analistas acreditam que terá de ser alterado para que o banco central possa continuar a injetar dinheiro na economia.

“A escassez de activos disponíveis caso decida prolongar o programa obriga o BCE a mudar as regras. Neste cenário ganha força a redução do limite inferior das yields dos -0.4%, factor que aumentaria a exposição dos bancos superiores a perdas com o programa”, diz Eduardo Silva, gestor de ativos da XTB. Para José Lagarto, um alargamento dos ativos elegíveis pode levar a que sejam “abrangidos mais activos dos países periféricos”. O analista defende que pode ser alterada a taxa de juro mas também o limite de capital que o BCE pode comprar.

Para Albino Oliveira o BCE poderá passar a comprar “dívida sénior do setor bancário” e Rui Bárbara, economista do Banco Carregosa, admite que se possam passar a incluir ações.

A equipa de research do BiG, contudo, é menos optimista. “Achamos difícil o BCE alargar muito mais os ativos abrangidos pelos QE. Comprar ativos como acções implica que o BCE detenha participações em empresas dos vários membros da Zona Euro, algo que pode ser difícil de aceitar de forma generalizada pelos diferentes membros”.

Apesar da divulgação de alguns indicadores a falta de informação sobre o programa de compra de ativos desiludiu o mercado, que esperava o anúncio do alargamento do programa. Os analistas da Capital Economics dizem que “alguns analistas, tal como nós, esperavam que o banco estendesse a compra de ativos por mais seis meses, até setembro de 2017, e o BCE não entregou isso. Além disso, Draghi não deu qualquer garantia forte de que um reforço da política monetária estava prevista para breve”. “Esperamos que o BCE estenda o plano de compra de ativos até setembro de 2017 e que isso seja anunciado em dezembro ou até antes”, segundo uma nota.

Os analistas contactados referem que as previsões de inflação e crescimento são semelhantes às anteriormente divulgadas e, para Eduardo Silva, “podem obrigar ao prolongamento do programa, bem como questionar a eficácia do plano atual, que não tem servido de catalisador de crescimento ou inflação até ao momento”.

O BCE estima um crescimento de 1,7% em 2016 e 1,6% em 2017 e 2018, uma “ligeira revisão em baixa” face às últimas projeções, divulgadas em junho. Para a inflação os valores mantiveram-se praticamente inalterados, com uma previsão de 0,2% em 2016, 1,2% em 2017 e 1,6% em 2018, valores que já incluiem os efeitos do estimulo do banco central (0,6% no crescimento e 0,4% na inflação).

Para Rui Bárbara, os dados confirmam que “vamos continuar com baixo crescimento na Europa”. Já a equipa de research do BiG diz que “a revisão das estimativas de crescimento da inflação e crescimento acabam por não ser muito surpreendentes, em função da sua magnitude. Parece-nos que as diferenças em causa são relativamente subtis, ainda que acabem por espelhar um conjunto de riscos (tanto endógenos como exógenos) que pairam sobre a atividade económica da Zona Euro”.

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