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Armadilha do fraco crescimento. Exportações são a chave para Portugal?

Mário Centeno. Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens
Mário Centeno. Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens

Portugal não passa ao lado do abrandamento e o caminho passa pelas exportações, investimento e controlo da despesa, dizem os economistas.

A economia global está presa numa “armadilha de fraco crescimento”, com as transações comerciais anémicas, produtividade desapontante e salários baixos a levar a uma constante revisão em baixa das previsões de crescimento económico mundial.

O aviso é da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que alerta para um ciclo vicioso que as principais potências mundiais e os bancos centrais não estão a conseguir quebrar. E Portugal – não sendo referido no relatório – é afetado pelo ciclo desfavorável, dizem os economistas contactados pelo Dinheiro Vivo.

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A economia mundial este ano vai crescer apenas 2,9%, muito próximo do limiar da recessão, apenas uma décima abaixo da estimativa de junho e o valor mais baixo desde 2010, segundo as previsões dos técnicos da OCDE.

Não é o primeiro aviso: o Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu o crescimento mundial para 3,1% e o BCE também ajustou em ligeira baixa as suas previsões de crescimento para a Zona Euro.

O abrandamento de crescimento na China, a queda do preço do petróleo, a instabilidade política na Europa, o Brexit, uma política monetária que parece estar esgotada e uma redução das trocas comerciais a nível global são os principais fatores apontados para esta revisão este ano.

Para 2017, a previsão aponta para um crescimento global de 3,2%, devido ao que parece ser um crescimento progressivo dos Estados Unidos, apesar do impacto da saída do Reino Unido da União Europeia só se fazer sentir no próximo ano, com as conversações para a saída a começar em fevereiro.

Até porque o PIB mundial para 2016 está a ser suportado por um comportamento positivo antes do referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia.

As previsões de crescimento do PIB para Portugal são modestas: enquanto o Governo aponta, segundo os últimos dados oficiais, um aumento de 1,8% para 2016 o Conselho de Finanças Públicas reviu em baixa, na passada semana, a sua previsão, de 1,8% para 1%.

O Banco de Portugal e o FMI também vão atualizar as novas previsões de crescimento em outubro, antes do Orçamento do Estado.

“Há implicações diretas para Portugal”, diz Ricardo Paes Mamede, economista e professor do ISCTE. “A procura externa neste momento é um dos motores mais importantes do crescimento português devido às fortes pressões para conter a procura interna por via da despesa pública.” As opções, para o professor do ISCTE, são poucas mas passam pela aposta nas exportações e, na via interna, por um incentivo ao consumo privado. “O que se poderia fazer já está a ser feito, com o aumento do salário mínimo”, procurando criar condições para promover o consumo interno.

João Ferreira do Amaral concorda que “a economia portuguesa é muito afetada porque está muito exposta, ao nível das exportações, à União Europeia. Se a União Europeia não cresce Portugal também não cresce por essa via.”

Assim, para o economista, é preciso “impulsionar as exportações e avançar com uma substituição dos destinos das importações”. De resto, as exportações portuguesas têm sido penalizadas pelo abrandamento do consumo de Angola, lembra o economista.

“Há uma série de fatores endógenos que não estão a correr bem e esta perspetiva vem criar uma dificuldade acrescida”, diz Francisco Veloso.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que as exportações para Angola caíram 43,9% no segundo trimestre deste ano – a nível global as exportações portuguesas caíram 1,9% e as importações recuaram 3,7%. “A nossa evolução económica tem sido bastante medíocre por causa das exportações”, remata Ferreira do Amaral.

Francisco Veloso admite que se está a viver “um ciclo mais desfavorável” a nível global e que “a trajetória de recuperação de Portugal também está a ser mais difícil do que se pensava”. Para o economista “há uma série de fatores endógenos que não estão a correr bem e esta perspetiva vem criar uma dificuldade acrescida”.

Assim, o professor da UCP defende vários caminhos: “um maior controlo da despesa e voltar a fazer uma aposta significativa no investimento e nas exportações”. É necessária, defende, uma “maior moderação interna e uma orientação para o mercado externo”.

Uma visão corroborada por Paulo Soares de Pinho, que lembra os “grandes fatores de incerteza na Europa, como o Brexit e a incerteza política e as fragilidades cada vez mais evidentes na economia chinesa, que ainda vão trazer muitos dissabores à economia mundial”.

Para a OCDE, os governos devem investir em saúde, educação e digitalização para ajudar a quebrar este ciclo vicioso de fraco crescimento e convencer as populações dos benefícios da globalização.

Portugal é arrastado por este contexto adverso. “Não estamos a encontrar, do lado da procura externa, o dinamismo de outrora. Os exportadores talvez tenham aproveitado o excesso de capacidade que tinham com a redução da procura interna e viraram-se para o mercado externo, que está a abrandar”. O professor da Nova diz que “para crescer é preciso encontrar uma nova capacidade exportadora mas Portugal está a ser afetado por uma crise gravíssima de falta de confiança nos agentes económicos”.

Papel dos governos

Para a OCDE, os governos devem investir em saúde, educação e digitalização para ajudar a quebrar este ciclo vicioso de fraco crescimento e convencer as populações dos benefícios da globalização. “Os países devem implementar medidas de política orçamental e estruturais para reduzir a dependência excessiva dos bancos centrais e garantir oportunidades e prosperidade para as gerações futuras”, dizem os técnicos.

O aviso chega numa altura em que as tensões geopolíticas estão cada vez mais latentes e depois do BCE já ter avisado que a política monetária, por si só, não chega: é preciso investimento dos países para promover o crescimento. Aliás, os técnicos da entidade avisam que a política monetária está praticamente esgotada e que as taxas de juro negativas criam riscos de distorções financeiras.

Para os economistas, o foco na saúde, na educação e digitalização faz sentido e está em linha com as orientações já conhecidas da OCDE. João Sousa Andrade, economista da Universidade de Coimbra, diz que “cair na tentação de reduzir estes custos tem consequências graves imediatas”.

Para Paes Mamede “o que está em causa é a aposta em áreas que tenham algum retorno expectável a prazo e existe um consenso muito alargado de apostar nestas áreas para promover a eficiência económica a longo prazo e combater as desigualdades”.

Francisco Veloso refere que, estando no setor da educação, “só posso concordar com a visão da OCDE”. Até porque, em Portugal, “é uma das áreas onde temos sentido que existem grandes oportunidades, tal como no turismo, com uma importância muito grande para o desenvolvimento do país e que pode ser uma indústria de exportação interessante”.

Ferreira do Amaral tem uma visão mais pessimista: “estou de acordo com a importância mas esses investimentos em Portugal de momento não são possíveis por causa do enquadramento em que nos encontramos”.

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