70% dos patrões portugueses querem regresso total ao trabalho presencial nos próximos meses

Empregadores nacionais estão cada vez menos interessados em modelos mistos, que combinem teletrabalho com presencial, indica um novo estudo. Isto pode implicar o regresso de quase um milhão de pessoas aos escritórios. Se o coronavírus deixar, claro.

Cerca de 74% dos empregadores baseados em Portugal inquiridos para um estudo global do grupo Manpower, uma consultora de recursos humanos, querem o regresso total dos trabalhadores ao modo presencial dentro de seis meses a um ano, abandonando assim gradualmente a ideia de um modelo híbrido, por exemplo.

A proporção de gestores que admite regressar, mas num modelo misto (trabalho presencial combinado com teletrabalho) caiu a pique face ao inquérito conduzido há três meses. Apenas 18% dos empregadores afirmam desejar um modelo combinado.

De acordo com esta nova análise que incide sobre as perspetivas dos empresários até um ano, Portugal aparece como um dos países mais renitentes e/ou com maiores dificuldades em manter os trabalhadores de forma remota (pela natureza das funções desempenhadas, por exemplo).

As atividades relacionadas com o turismo ou a construção são disso exemplo. Exigem que a maior parte das pessoas esteja presente. Mas o inquérito da Manpower sinaliza que há uma vontade cada vez maior e generalizada dos chefes em trazer os empregados de volta ao escritório. Assim, a pandemia deixe, claro.

Para já o teletrabalho continua a ser obrigatório em 28 concelhos de Portugal e recomendado nos restantes porque a situação pandémica tornou a degradar-se.

Segundo este novo estudo, em Portugal, a percentagem de empregadores que desejam o regresso definitivo dos seus trabalhadores ao local físico da empresa quase que duplicou face há três meses. No inquérito relativo ao segundo trimestre, a Manpower contou 45% dos empregadores abordados a favor do trabalho 100% presencial; agora está nos referidos 74%. Foram inquiridos cerca de 300 decisores no território português.

Dados facultados ao Dinheiro Vivo, mostram que o maior favoritismo quanto ao regresso a 100% às instalações das empresas acontece em Itália (81% dos empregadores inquiridos), França (80%) e Espanha (78%). Num grupo de dez países analisados, Portugal está em quinto e claramente acima da média de 67% de toda a região EMEA (Europa, Médio Oriente e África) a favor do trabalho 100% presencial.

Rui Teixeira, diretor executivo de operações na Manpower Portugal, explica o início de 2021 desastroso em termos sanitários devido a uma terceira vaga de covid-19 altamente hostil deixou muitos empresários na dúvida, indecisos sobre o que fazer.

"Apesar das projeções de contratação serem positivas para o terceiro trimestre, o impacto da terceira vaga da pandemia é notório no sentimento dos empregadores portugueses, que mostram agora menor confiança na capacidade de recuperar os níveis de contratação pré-covid", afirma o responsável.

"Por outro lado, uma realidade que se torna interessante analisar é que esses mesmos empregadores encaram como cada vez mais positivo o regresso aos locais de trabalho, apresentando-o como necessário para a maioria da sua força de trabalho."

Para Rui Teixeira, "no futuro do trabalho que estamos a construir, esta posição terá sem dúvida de ser equilibrada com as expectativas dos trabalhadores, que claramente nos dizem que não querem perder a flexibilidade alcançada nos últimos meses".

"Vivemos um contexto onde se agrava a escassez de talento, e as opções de flexibilidade e equilíbrio entre vida pessoa e profissional ganham por isso ainda maior relevância na construção de propostas de valor que possam atrair e comprometer os melhores profissionais", remata o gestor.

No inquérito agora divulgado, Portugal aparece também como um dos países mais avessos ao modelo híbrido, que combina trabalho remoto com presencial. Apenas 18% dos empregadores disse ser esse o modelo desejado nos próximos seis a 12 meses. Uma vontade que contrasta com os 46% registados na Bélgica ou os 36% do inquérito alemão.

"Para o período que se refere aos próximos seis a 12 meses, 74% dos empregadores portugueses pretendem privilegiar os modelos de trabalho presenciais, o que traduz um crescimento acentuado sobre os 45% registados no trimestre anterior", diz o estudo.

"A preferência pelo modelo 100% físico está, contudo, relacionada com um outro dado também recolhido no presente estudo, que indica que 68% dos empregadores afirmam que a maioria da sua força de trabalho - entre 76% e 100% - assume funções que só podem ser desempenhadas no local de trabalho", referem os autores.

Como referido, os modelos de trabalho híbridos serão a opção a adotar por 18% dos empregadores portugueses, mas este valor está "em forte quebra face ao trimestre anterior, altura em que eram a preferência de 38% dos inquiridos".

Já os modelos totalmente remotos [teletrabalho a 100%] "mantêm-se estáveis, sendo adotados por somente 2% dos empregadores".

O Instituto Nacional de Estatística (INE) recorda que "no segundo trimestre de 2020, registou-se a maior proporção (22,6%) da população empregada sempre ou quase sempre em teletrabalho".

Depois, "no terceiro e quarto trimestre de 2020, com o abrandamento das medidas de contenção da pandemia e o crescente desconfinamento, esta proporção diminuiu", mas "voltou a aumentar no primeiro trimestre de 2021, com novas medidas restritivas e novo confinamento".

O último inquérito oficial do INE indica que havia quase um milhão de pessoas em teletrabalho em Portugal. "Um quinto da população empregada (20,7% ou 967,7 mil pessoas) trabalhou sempre ou quase sempre a partir de casa com recurso a tecnologias de informação e comunicação. Dito de outro modo, estiveram em teletrabalho."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de