Estado da Nação

77% dos apoios do Estado são moratórias e prorrogações

António Saraiva, Presidente da CIP.
(PAULO SPRANGER/Global Imagens)
António Saraiva, Presidente da CIP. (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Líder da CIP diz que apoios estão a ser cumpridos pela metade. Investimento público (ferrovia, portos e aeroporto) é a mola para recuperar a economia.

António Saraiva apresenta números que cortam pela metade os apoios anunciados pelo governo ao tecido empresarial, e é secundado por João Duque quanto à correlação de forças internas no executivo de António Costa – vai prevalecer a economia de Pedro Siza Vieira, que o professor diz ser o caminho, ou as finanças de Mário Centeno? Na edição desta semana do Estado da Nação, programa do DV e TSF em parceria com o Santander, o investimento público na ferrovia, portos e aeroportos é apontado como solução para reaquecer ou aquecer a economia.

“Quando 77% dos 25 mil milhões que o Estado diz que está a dar de apoio são apenas moratórias e prorrogações, onde é que está o apoio?”, atira o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP). E aponta para o quinhão de PIB empregue nesta luta.
“Estamos a comparar mal com outros países. Sabemos que os Estados Unidos afetam 10% do seu PIB, o Reino Unido e a França, 15%, a Espanha 20%, a Alemanha 30%. Portugal fica-se por uns meros 7 ou 8%, não chega lá”.

O presidente da CIP explica que “se olharmos para o Programa de Estabilidade que nos foi apresentado e ao qual o Conselho Económico e Social irá dar o seu parecer, na sua página 55, o governo identifica um total de apoios de 25 mil milhões de euros, 11,8% do PIB. Mas conforme se pode concluir no quadro que lá está, cerca de 77% destas medidas correspondem a prorrogações e a moratórias. Aquilo que se espera no tecido empresarial é que o governo olhe para o estado da economia, faça a avaliação e tome medidas reais e efetivas”.

Quanto à discrepância entre números anunciados e números efetivos, “quer o senhor primeiro-ministro, quer o senhor ministro da Economia têm dito que o lay-off envolve qualquer coisa como mil milhões de euros e atingirá para cima de um milhão de pessoas”. “Viemos a constatar mais uma vez nestes inquéritos [semanais da CIP] que não são estes números que estão a ser pagos. Estão a ser pagos metade e nalguns casos até ligeiramente menos”, disparou, ressalvando que tem de se ser sincero “e perceber que há outros apoios, apoios aos pais, pai ou mãe que ficam em casa em assistência às crianças por causa das escolas estarem fechadas e que isso soma um pouco mais do que aos valores do lay-off”. Mas sentencia: “Mesmo assim, estamos muito longe dos valores que o Estado, o governo, apregoa que está a contribuir”.

O dirigente da CIP sublinha que a única certeza é que o consumo e a confiança não vão ser retomados rapidamente. “Sabemos por sensibilidade e pela razoabilidade que nos caracteriza que assim não vai ser, isto vai ser lento, gradual e assimétrico. O turismo, por muitas iniciativas, e boas iniciativas que se estão a desenvolver (o selo da garantia, da higienização dos espaços), vai ser o último a retomar. Era um dos maiores motores ”.

Economia vs finanças

“Bem sei que estamos à espera das medidas de Bruxelas, além das que já foram faladas, o famoso Plano de Recuperação Económica. A questão do Tribunal Constitucional alemão vem atrasar, não sei se prejudicar, a decisão que já deveria ter sido tomada. E depois resta saber que montantes, o que é que é subvenção, o que é que é empréstimo”, diz António Saraiva, abrindo a porta a um raciocínio de João Duque.

“Estou muito curioso para ver como vai jogar este novo orçamento retificativo, ou suplementar, com a relação dos poderes que existe dentro do governo. Precisamos claramente de um governo de economia e o anterior governo tem sido de finanças. Neste momento, temos duas pressões enormes sobre o orçamento. E vamos ver qual é a visão que impera”, analisa o economista e professor do ISEG.

E passa o olhar pelo plano da União Europeia. “É evidente que há imensa liquidez e é evidente também que o Banco Central Europeu (BCE) decidiu avançar com um pacote adicional de compra da dívida pública. Mas esta dívida pública é feita em mercado. Esta compra do BCE não é uma compra feita na fonte e isso significa que a República ao emitir está sempre a pedir e a sofrer o escrutínio do mercado”, continua João Duque.

O professor do ISEG está preocupado com o custo que poderá ter o financiamento para as empresas no futuro. “Esse é que é o problema. E não é só o custo. É a disponibilidade. Vai haver muita dívida a competir no mercado e não há segurança que nós consigamos com facilidade investidores que queiram comprar dívida pública portuguesa”, projeta.

Rui Constantino deu-lhe uma face concreta. “Ao financiamento da República hoje em mercado estamos a fazer taxas de 0,87%. Sendo superiores às que tínhamos antes da pandemia, não deixam de ser níveis bastante baixos”, fixou o economista-chefe do Santander. “Faltam temas importantes, quer do Eurogrupo, quer da posição da Comissão Europeia, uma resposta mais concertada no programa de estímulos que deve existir para apoiar o choque que se faz transmitir de forma idêntica, ou quase idêntica, em todos os países. Precisamos ainda de medidas de estímulo para alavancar o que vai ser o crescimento, porque o crescimento vai ser desigual entre os diferentes setores de atividade”, juntou.
O economista do Santander sublinhou que “basta não ter a discussão da sustentabilidade da Zona Euro, como em 2011 e 2012”. “Não falar dela não significa que o problema não esteja lá, mas não é mais um fator de entropia e de ruído”.

Ferrovia, portos e aeroporto

A saída é “o investimento público” “Não pode deixar de se fazer. Se há uma mola que pode projetar muito a atividade em Portugal é investimento público. E nós temos investimento público bom para fazer. Basta perguntar aos meus colegas de painel. Deram já dois ou três grandes projetos nacionais que são bons para a economia portuguesa e que fazem aquecer ou reaquecer. Estou a pensar na ferrovia, estou a pensar nos portos, até no aeroporto. Agora vamos ver é quem é que manda. Se manda o dono do cheque, se manda o dono da ideia, o projeto que é a economia”, elencou João Duque.

O convidado desta semana do Estado da Nação foi João de Castro Guimarães. O diretor executivo da GS1 disse que “a transformação digital neste momento é uma revolução digital. E agora aparece como uma grande solução para as empresas e sentimos também isso nos inquéritos que fizemos. Temos um grande apelo das empresas – ‘ajudem-nos, ajudem-nos’. É completamente crítica se for precisa e rigorosa. Se replicarmos dados incorretos, não serve para nada”, defendeu.

O responsável sublinhou o “trabalho notável por parte dos retalhistas que operam em Portugal, e os seus fornecedores, que redefiniram estratégias para se ajustarem a uma realidade totalmente imprevisível conseguindo que o mercado ficasse abastecido”.

“As empresas mais pequenas, sinto que é aqui que devemos fazer mais e onde o governo, enfim, as solicitações são muitas, deveria ter um papel mais ativo naquilo que já existe e existe de bom”, apreciou João de Castro Guimarães.

Sobre o processo de digitalização em curso, Rui Constantino congratulou-se pelas adaptações da banca. “Passámos para a desmaterialização dos processos. Aquilo que vai acontecer é a necessidade de substituir o papel, o contrato assinado por uma certificação digital em que obviamente, cumprindo com as regras existentes e com os mecanismos de segurança, se possa desmaterializar muito e que os contratos possam ser lidos de forma muito mais automática e a resposta seja muito mais rápida”, disse.
António Saraiva analisou ainda a evolução do contrato de lay-off com o Estado e destaca “o facto de muitas das empresas ainda estarem com dificuldades de acesso” e que “84%, apesar de não ter ainda recebido, no fim do mês passado garantiu o salário aos seus trabalhadores”.

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