"A Banca tem de apoiar a mudança das empresas a caminho da sustentabilidade"

Produzir de forma ambiental e socialmente sustentável é um negócio "difícil e não muito lucrativo" no imediato, mas é uma aposta que tem de ser encarada no "longo prazo" e que tem de contar com o apoio do sistema financeiro, defendeu Marco Galinha, CEO do grupo Bel, no Planetiers World Gathering 2020

O caminho da transformação das empresas e dos negócios para a sustentabilidade é um jogo "muito difícil" e "não é muito lucrativo". Pelo menos no imediato. O líder e fundador do grupo Bel admite que perdeu "muito dinheiro" a implementar estratégias de sustentabilidade em alguns dos seus negócios, mas nem por isso desiste. "Esta é uma aposta de longo prazo e nós, no grupo Bel, gostamos de maratonas", garante Marco Galinha. Mas, lembra, o sistema bancário tem de ajudar as empresas nessa transformação.

Marco Galinha é um dos oradores do Planetiers World Gathering 2020, o maior evento global de inovação sustentável que está a decorrer no Altice Arena, em Lisboa, e pode ser acompanhado por vídeo-conferência em qualquer parte do mundo. Participou no painel sobre lideranças com propósito, que contou, ainda, com os contributos de João Roquette, CEO do Esporão, Christopher Davis, diretor internacional de sustentabilidade na Bodyshop, e John Elkington, um dos fundadores do movimento global de sustentabilidade, no qual deu a conhecer a sua visão sobre a urgência da ação em prol de um futuro mais amigo do ambiente. Marco Galinha acredita que o planeta caminha para uma sexta extinção em massa e que a pandemia é um "claro sinal" de que a natureza "está a tomar medidas para se proteger". O que não significa que estejamos condenados, porque, com os investimentos certos, "podemos ter uma sociedade melhor".

Para o CEO do grupo Bel, "há que agir já" e não se pode ficar à espera que sejam os políticos a tomar a liderança da mudança, porque estes, embora sejam agentes importantes, "cometem demasiados erros", designadamente no apoio aos "combustíveis fósseis" e a "bancos maus". Tem de ser, defende, a nova geração "a fazer mais barulho", até porque, sublinha, "alguém vos hipotecou o vosso futuro". O empresário admite que gostaria que, tal como Portugal foi pioneira na abolição da escravatura, estivesse, também, na linha da frente da sustentabilidade mundial, manifestando-se otimista na capacidade das novas gerações para mudarem o rumo atual.

"CEO não é só para fazer dinheiro"

Sobre o mundo dos negócios, Galinha lembra que os relatórios de sustentabilidade de empresas como a Apple ou a Tesla são hoje duas ou três vezes maiores do que os relatórios financeiros. O que não significa descurar o aspeto financeiro das empresas. "Os relatórios de sustentabilidade são mais importantes do que os financeiros, mas temos que ter balanços equilibrados", defende. O que não significa olhar apenas para o dinheiro. "Ninguém me obrigou a fazer um relatório de sustentabilidade no grupo, mas é uma questão de cultura, de fazer as coisas certas", diz, sublinhando que "não faz sentido se somos CEO só para fazer dinheiro".

Marco Galinha não poupou, ainda, críticas ao sistema financeiro, que precisa de apoiar as empresas na sua transformação a caminho da sustentabilidade, e apontou o Crédito Agrícola como um "bom exemplo", sendo uma instituição que "compreende a mudança" que é necessário empreender.

Pouco ou nada confiante nos políticos assumiu-se, também, Christopher Davis. No próximo ano, a Bodyshop promete lançar a sua nova estratégia de sustentabilidade para a próxima década, assente numa visão de "negócio regenerativo", o que contempla questões como fim das emissões ou o pagamento de salários condignos, entre outras matérias. "Não vão ser os políticos a salvar o mundo, temos de ser nós a fazê-lo", defende o diretor internacional de sustentabilidade da marca.

"Pandemia agravou pressão pelo lucro imediato"

Aliás, Christopher Davis defende mesmo que a pandemia mostrou que o mundo não tem os líderes de que precisa para enfrentar esta crise sem precedentes, o que não significa que os líderes empresariais estejam à altura, já que a maioria deles "estão pressionados pela obrigação de obter lucros imediatos", uma pressão que a pandemia não veio mudar. "Pelo contrário, agravou-a", garante.

"A minha esperança está no público, nos consumidores. Temos visto que, se conseguirmos mobilizar os consumidores, conseguimos promover a mudança", diz, sublinhando acreditar sobretudo nas novas gerações. "A nossa responsabilidade, como geração mais velha, não é só apoiá-los, é mesmo sair do caminho e deixá-los fazerem-se ouvir", sustenta.

Já o Esporão é uma empresa com trabalho na área da sustentabilidade através da agricultura biológica, da produção tradicional e integrada de castas autóctones e da gestão otimizada de recursos e João Roquette falou dos impactos das alterações climáticas na agricultura. "O clima é muito importante para o que fazemos, porque é isso dá identidade ao vinho", lembrou. E o efeito do aquecimento global faz-se sentir de várias formas, não só por eventos extremos, como ondas de calor e uma diminuição da precipitação, mas, também, pelo antecipar contínuo das vindimas. "Cada vez começamos a vindimar mais cedo. Desde os anos 80 que a data das vindimas foi antecipada em, pelo menos, 30 dias o que mostra que o ciclo da videira está a evoluir de uma forma que não é normal", sustenta.

"A sustentabilidade tem de ser integrada nos balanços das empresas"

Com presença em três regiões vitivinícolas nacionais - o Alentejo, o Douro e os Vinhos Verdes -, o Esporão tem procurado "arranjar alternativas" ao aquecimento global, designadamente, procurando instalar as suas vinhas em propriedades localizadas em regiões de maior altitude.

Já John Elkington, um dos fundadores do movimento global de sustentabilidade e com cerca de uma vintena de livros publicados sobre a matéria, mostrou-se inspirado pelo discurso dos três empresários. "Quem me dera que pudéssemos cloná-los e espalhá-los pelo mundo", disse, sublinhando que é preciso "envolver cada vez mais líderes empresariais" nesta mudança a caminho de um mundo melhor. Mais do que relatórios de sustentabilidade, as empresas terão de cada vez mais "integrar a sustentabilidade nos seus balanços económicos e financeiros", defende.

A conferência Planetiers World Gathering decorre hoje e amanhã e receber, em modelo híbrido, mais de 10 mil participantes de mais de 50 países. Além dos 100 oradores, nos quais se incluem nomes como Mohan Munasinghe, laureado com o Prémio Nobel da Paz em 2007, Daymond John, o conhecido "tubarão" do "Shark Thank", Mathis Wackernagel, fundador da Global Footprint Network e criador do conceito de Pegada Ecológica, David Orban, investidor e advisor da Singularity University, ou Gustavo Carona, dos Médicos Sem Fronteiras, entre muitos outros, o evento conta com mais de 70 expositores e start-ups e 100 investidores, já que, na maior sala de espetáculos do país foram criados quatro palcos e várias áreas de exposição. Ecologia, alterações climáticas, pobreza, educação e fome são alguns dos temas que estarão em debate, "com o objetivo de sensibilizar e provocar uma transformação de comportamentos de consumo", estimulando uma "maior consciência e responsabilidade em geral".

Lançado em 2017 como marketplace, o Planetiers visava então ajudar os consumidores a "encontrarem facilmente os produtos e serviços ecologicamente mais responsáveis", numa altura em que "todos os dias aparecem novos projetos" e em que o tempo "´um ativo fundamental", explicou, esta manhã, em conferência de imprensa, o CEO e cofundador do projeto, Sérgio Ribeiro. O sucesso desta one stop shop para consumidores ecologicamente responsáveis levou a que o projeto será, em breve, alargado a outros países, mas também a que fosse organizado o Planetiers World Gathering, iniciativa que deveria ter acontecido em abril, com o objetivo de juntar os empreedendores a potenciais investidores e parceiros estratégicos, que os possam ajudar a escalar os seus negócios. A pandemia obrigou ao adiamento do evento, que agora acontece em formato híbidro, designadamente com recurso a tecnologias 3D.

"A Mãe Natureza está a mostrar-nos que é preciso parar"

Mohan Munasinghe, laureado com o Prémio Nobel da Paz em 2007, abriu a agenda dos dois dias de trabalho, à distância. Aos jornalistas, na conferência de imprensa realizada por videoconferência, Mohan Munasinghe assumiu-se como um "forte apoiante" do Planetiers "desde o primeiro momento" e mostrou-se disponível para ajudar a transformar Portugal num hub global de sistentabilidade. Para o professor, cujo trabalho de investigação serviu de base para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e o Acordo de Paris, "não há nada para inventar", as soluções para ultrapassar os problemas existentes são já conhecidas. "Temos de agir todos em conjunto, não há espaço para ficarmos parados", frisa.

E a pandemia, garante, só veio revelar a urgência da temática. "Não estamos a inventar o desenvolvimento sustentável, a pandemia só lhe deu uma nova prioridade, mostrando como o Ambiente é crítico. Não estamos a falar de alterações climáticas, algo que vai acontecer daqui por 30 ou 40 anos, estamos a falar de como os sistemas económicos e sociais são fundamentais para o desenvolvimento sustentável e da necessidade de soluções interligadas e de futuro", frisou.

Para Mohan Munasinghe, a pandemia veio mostrar o poder do indivíduo para agir. "As soluções para a covid-19 não são as vacinas, são as máscaras, o lavar as mãos, o distanciamento social. Ou seja, é o aja você, não espere que os líderes mundiais lhe digam o que fazer". O especialista sublinhou, ainda, a importância da inclusão social, lembrando que este é um aspeto "muitas vezes negligenciado" e que, num mundo com milhares de milhões de pobres e de gente que passa fome, é necessário "muito cuidado para que a covid-19 não cause, ainda, mais instabilidade social".

Por outro lado, lembra, há que "reinventar as cidades", em especial as de maior densidade populacional, que são "extremamente frágeis" aos desastres naturais. Para Mohan Munasinghe, há que tirar partido das novas tecnologias, por exemplo, promovendo mais o teletrabalho e colocando menor pressão sobre o ambiente. "A Mãe Natureza está a mostrar-nos que estamos a seguir pelo caminho errado e que temos de parar. A covid-19 e os confinamentos são como que uma antro-pausa. Veja-se como a qualidade ambiental melhorou"", refere.

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