economia mundial

A Coca-Cola tem razão: o mundo está muito melhor

Natalidade em "alerta super vermelho"
Natalidade em "alerta super vermelho"

O Natal serviu de pretexto à Coca-Cola para lançar um novo
anúncio sobre “Razões para Acreditar” num mundo melhor.
Um minuto e meio de crianças a cantar, recheado de otimistas elogios
à sociedade portuguesa. A campanha foi recebida com críticas nas
redes sociais de quem achou de mau gosto dizer que a vida é
espetacular quando Portugal se prepara para enfrentar um dos anos
mais duros da sua história recente, com números de desemprego
recorde e cortes salariais brutais. No entanto, uma visão global
sobre as últimas décadas torna difícil negar que o mundo se tornou
num sítio melhor para viver.

As expectativas nunca estiveram tão baixas para um ano do que
para 2012. E o pior é que há razões para isso: enquanto Pedro
Passos Coelho diz que os portugueses têm de empobrecer e a zona euro
parece mais perto do colapso, pouco importará à maioria das pessoas
que, por cada tanque de guerra construído, haja 120 mil ursos de
peluche fabricados (como nos diz a Coca-Cola). Mas se lhe disserem
que, só em 2012, 50 milhões de pessoas deverão sair da pobreza,
talvez veja mais argumentos positivos. É como se, num ano, toda a
população espanhola deixasse de viver na miséria. Um português
que nasça em 2012 viverá provavelmente mais dez anos do se a sua
mãe tivesse dado à luz em 1980. Vivemos num mundo em uma em três
pessoas tem acesso à Internet. Em 2000, apenas uma em 20 podia ver
vídeos no YouTube ou ler notícias de graça.

“Há dados que provam que a globalização reduziu a
desigualdade entre Estados, apesar de ter aumentado a desigualdade em
países como os EUA. A globalização teve um impacto muito positivo.
Houve implicações negativas, mas são mais do que compensadas pelas
positivas. A globalização teve o papel importante de tirar mais
pessoas da pobreza”, explica ao Dinheiro Vivo o economista
indiano Pankaj Ghemawat, autor do livro World 3.0.

Os últimos anos trouxeram uma desaceleração para as economias
de-senvolvidas, com perdas de poder de compra significativas para a
classe média, apesar de o rendimento dos mais ricos ter disparado.
Tendências que se deverão agudizar nas próximas décadas. Porém,
uma perspetiva supranacional aponta para conclusões diferentes.
Entre 1990 e 2015, o número de pessoas que ganhe menos de 1,25
dólares por dia deverá ser reduzido para metade (de 1,8 mil milhões
para 900 milhões). “Basta olhar para uma realidade que nos é
próxima: a evolução do Brasil tem sido extraordinária. Também na
China, onde milhões têm saído da pobreza. Olhando para as
estatísticas, não há dúvidas de que vivemos num mundo melhor”,
afirma Francisco Pinto Balsemão, antigo primeiro-ministro.

A socióloga Maria Filomena Mónica concorda. “Às vezes ouço
pessoas dizer que o mundo está cada vez pior. É absurdo. Se
tivermos visão humanista, temos de reconhecer que é bom o número
de camponeses chineses que agora podem comer melhor ou comprar
carros.”

O crescimento da classe média chinesa tem sido impressionante. Um
mercado atrai empresas estrangeiras como traças a uma lâmpada
incandescente. Em 2030, a China deve ter 1,4 mil milhões de
consumidores de classe média, o dobro de EUA e Europa ocidental
juntos. A Índia deverá seguir em segundo lugar, com 1,07 mil
milhões. Entre 1990 e 2005, o número de pessoas nestes dois países
em situação de extrema pobreza foi reduzido 455 milhões e, até
2015, deverá cair mais 320 milhões. No Brasil, os avanços são
semelhantes. A classe média cresceu 62%, representando mais de
metade da sociedade. O número de pobres caiu 49%.

Menos fome Os objetivos de Desenvolvimento do Milénio da ONU mostram que, em
40 anos, a percentagem de pessoas subnutridas caiu de 26% para 13%.

No caso das crianças, há melhorias em todas as regiões. A
percentagem nos países em desenvolvimento que passam fome caiu de
30% para 23%. Também os números da mortalidade infantil desceram
substancialmente. De tal forma que em 2008 morriam por dia menos 10
mil crianças com menos de 5 anos do que em 1990. Desde 1999, o
número de crianças que não vão à escola caiu 35%.

Grande parte das metas das Nações Unidas ficarão por cumprir em
2015. O que não significa que não tenha havido uma evolução
importante. Em 20 anos, o número de habitantes de países em
desenvolvimento com acesso a fontes seguras de água potável cresceu
de 72% para 84% e a percentagem de habitantes das cidades destes
países que vivem em favelas caiu de 46,1% para 32,7%.

Também na saúde os avanços são assinaláveis. O número de
novas infeções por VIH caiu de 3,5 milhões, em 1996, para 2,7
milhões em 2008, ao mesmo tempo que devido aos avanços no
tratamento as mortes por doenças relacionadas com sida desceram de
2,2 para 2 milhões. O combate à malária foi reforçado. Entre 2004
e 2009, a produção de redes contra mosquitos – uma das principais
formas de prevenção da doença – cresceu de 30 para 150 milhões
por ano. Entre 2008 e 2010 foram distribuídos 290 milhões de redes
na África subsariana, o que protege 76% das pessoas em risco de
serem infetadas.

A era da Internet

2011 foi ano em que Francis Fukuyama foi obrigado a rever as
notas. As inesperadas revoltas populares no mundo árabe mostraram
que as notícias do fim da História foram exageradas. O fósforo da
insurgência foi aceso pelo descontentamento, mas foi a Internet e as
redes sociais, como o Facebook e o Twitter, a darem gás ao protesto.
No Norte de África, a percentagem de pessoas online aumentou de 0,7%
para 25,2% desde 2000. No mesmo período, o número de pessoas com
telemóvel nos países em desenvolvimento aumentou de 5,4% para
58,2%, enquanto para os 50 países menos desenvolvidos do mundo
saltou de 0,3% para 26,2%. Em 2010, 90% da população mundial tinha
acesso a cobertura de rede.

37 anos de abril

Os avanços não foram só para quem vivia na miséria. Os países
desenvolvidos alcançaram níveis muito mais elevados de bem-estar,
em grande parte devido a um fácil acesso a crédito. É possível
transportar mil CD em 100 gramas de iPod e ver em direto uma
manifestação gravada pelo telemóvel de um egípcio na Praça
Tahrir. Um voo para Paris custa quase o mesmo que uma viagem de
comboio de Lisboa para o Porto e uma mesa do IKEA representa 0,4% do
salário médio nacional. “Atravessamos um período com
problemas sociais gravíssimos, um desemprego assustador. Mas
Portugal atingiu um nível económico superior”, refere Luís
Campos e Cunha, antigo ministro das Finanças. “O país e o
mundo estão melhores do que há 20 anos.”

A Revolução de 1974 permitiu acelerar o desenvolvimento de
Portugal. Em 1980, morriam 27 crianças por cada mil partos. O número
caiu drasticamente para quatro, um dos valores mais baixos do mundo.
Há 30 anos, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) português era
0,639, muito longe da média da OCDE de 0,749. Esta diferença de
0,110 pontos caiu para 0,064. Uma criança nascida em 1980 passaria
menos de 11 anos a estudar. Hoje fica 16, em média.

Mas sendo os avanços positivos, por que existe esta perceção
que vivemos pior? “Como em tudo, até nas relações pessoais o
problema são as expectativas. Quando eu nasci, em 1943, os pobres
não esperavam sair da pobreza. O filho do sapateiro era sapateiro.
Com o 25 de abril, as pessoas alimentaram expectativas e passaram, de
facto, a viver muito melhor do que no época do salazarismo. Agora,
estão a sentir-se dececionadas e aterrorizadas”, sublinha
Filomena Mónica.

Nem todas as evoluções foram obviamente positivas, como os
movimentos Indignados e Occupy fizeram questão de nos lembrar no ano
passado e continuarão a fazê-lo. Pelo menos enquanto o rendimento
dos 1% mais ricos continuar a crescer 20 vezes mais rápido do que a
classe média. Dominique Strauss-Kahn, o ex-secretário-geral do
Fundo Monetário Internacional (FMI) caído em desgraça, avisava no
ano passado que “o esquema antigo da globalização trouxe
muitos benefícios, como a saída de centenas de milhões de pessoas
da pobreza, mas tem um lado obscuro, que é o fosso grande e
crescente entre ricos e pobres”. É inegável.

O mundo é justo e o progresso beneficiou todos por igual? Não.
Uma minúscula fatia da população mundial ganhou e continua a
ganhar muito mais que todos os outros. Mas isso não anula as
conquistas de que quase todos beneficiámos. Não é preciso ir mais
longe do que os dedos que escrevem este artigo. Em 1969, a minha mãe
saiu de casa aos 11 anos para ir trabalhar a 200 quilómetros da
aldeia da Beira Alta onde nasceu. Nunca mais parou. Aos 11 anos eu
tinha um computador na secretária e dois anos depois um Nokia 3310
nas mãos. Pude estudar mais uma década.

Não sei se, como diz a Coca-Cola, há razões para acreditar num
mundo melhor, mas as últimas décadas tornaram o mundo um sítio
melhor.

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