A estratégia de Michael Porter ainda resulta? 20 anos depois?

"Está na hora de revisitar" o projeto Porter e de

Portugal "voltar a ter políticas do lado da oferta que retomem

o nosso projeto de convergência real com a Europa", defende

Mira Amaral. Uma visão que nem todos partilham. É o caso da CIP,

que, mais do que ver "relatórios e dados com 20 anos",

prefere "avaliar novas propostas para o futuro". E porque a

realidade "é hoje completamente diferente", a CIP

encomendou à MacKinsey um estudo com "propostas atuais".

Mas o que foi o relatório Porter e que medidas preconizou para o

País? O estudo de Michael Porter sobre a competitividade da economia

portuguesa data de 1994 e foi encomendado pelo então ministro da

Indústria de Cavaco Silva, Mira Amaral. As conclusões surpreenderam

porque o guru norte-americano veio defender a aposta nos sectores

tradicionais, contrariando a versão corrente de que estes estariam

condenados.

Mira Amaral reconhece que "o prestígio" de Porter e "o

facto de se expressar em inglês" deram outro eco e notoriedade

"a ideias e orientações" que o próprio ministro

defendia. O professor de Harvard selecionou 11 clusters

estratégicos, cinco económicos - vinho; turismo; automóvel;

calçado; têxteis; madeira e cortiça - e seis relacionados com

educação; financiamentos; gestão florestal; capacidades de gestão;

ciência e tecnologia.

Quase duas décadas depois, o que foi feito? Mira Amaral não

poupa críticas ao Governo de António Guterres que se seguiu, por

"não ter apoiado financeiramente" o projeto Porter,

condenando-o. O ex-ministro faz a comparação de Portugal em 2000 e

em 2010 para sublinhar que "estamos hoje numa situação muito

mais dramática". E exemplifica: "A dívida das empresas

passou de 100% do PIB para 140%, a dívida das famílias de 80% do

PIB para 130% e a dívida pública é já superior a 100% do PIB,

sendo em 2000 'apenas' de 50,5%. Por outro lado, a nossa dramática

falta de competitividade externa leva-nos a uma dívida externa bruta

que já ultrapassou 240% do PIB, quando em 2000 era 'apenas' de

120%".

Como era Portugal e como está

Em 1994, quando foi pedido o estudo a Porter, qual era a realidade

económica de Portugal? O salário mínimo era então de 245,9 euros

(485 euros hoje) e a taxa de desemprego de 6,7% (14,8%). O PIB havia

crescido 1,49%. As últimas previsões para este ano apontam para uma

quebra de 3,3%.

E se Mira Amaral defende a recuperação de algumas das ideias

estratégicas de Porter, como o agrupamento dos sectores industriais

em clusters, a sua dinamização e pólos de competitividade e

criação de um sistema de incentivos financeiros à inovação e

investigação industrialmente orientada nas empresas, entre muitas

outras, o certo é que, a nível sectorial, muito caminho foi já

percorrido. É o caso do calçado e dos vinhos.

Fortunato Frederico, presidente da associação do calçado, a

APICCAPS, garante que as conclusões de Porter serviram de guia aos

sucessivos planos estratégicos desenhados para o sector, para

construir uma indústria "mais forte, mais robusta e mais

competitiva no plano exterior". Até 2000, diz, a indústria

consolidou a sua base industrial, apostando no aumento de capacidade

e na inovação. Depois, houve que investir fortemente na promoção

comercial externa da indústria, "hoje presente em 133 países,

e aproximando a qualidade percebida da qualidade intrínseca" do

calçado nacional. Fortunato acredita que "se Porter voltasse,

iria provavelmente admirar- -se com o dinamismo do calçado. O

balanço é "muito positivo", diz.

Quanto ao vinho, Porter foi convidado a debruçar-se em pormenor

sobre o sector já que a ViniPortugal encomendou, em 2004, um estudo

específico. Jorge Monteiro, presidente da associação responsável

pela promoção internacional dos vinhos portugueses, garante que "60

a 70% das medidas aí preconizadas foram ou estão a ser

implementadas". Outras há que perderam atualidade devido às

alterações de mercado. O professor norte-americano defendeu a

aposta em dois mercados estratégicos, os EUA e o Reino Unido. "Na

altura, o Reino Unido era um mercado-montra e não se falava sequer

no Brasil e em Angola. Hoje, estes mercados têm um potencial enorme,

tal como a China, enquanto o Reino Unido estabilizou o consumo e tem

uma pressão enorme nos preços", explica.

Por cumprir ficou, também, uma outra estratégia defendida por

Porter. "Os produtores portugueses não abdicaram de privilegiar

as castas autóctones - e temos mais de 250 - e os vinhos de

lotes/blend, em vez de apostar nos monocasta como Porter preconizava

e onde não teríamos qualquer vantagem competitiva", diz Jorge

Monteiro.

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