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Lisboa. A Liberdade não é para quem quer, é para quem pode

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Lojas de luxo, hotéis de cinco estrelas e casas que valem milhões. Um retrato da Avenida da Liberdade, a mais cara do país.

A Liberdade já passava por aqui mas naquela noite a polícia mandou-o parar. No início dos anos 80, Eric van Leuven tinha vindo da Holanda para estudar em Lisboa e caminhava na Avenida que liga o Marquês de Pombal à Baixa. “Passava das 21.00 quando dois polícias vieram ter comigo e perguntaram o que andava ali a fazer àquela hora”, conta o atual responsável da consultora imobiliária Cushman & Wakefield em Portugal. Na altura, Lisboa ainda não vivia a Liberdade em pleno.

Hoje, a Avenida não tem hora para fechar. A artéria mais cara do país encheu-se de lojas, hotéis e escritórios, que trouxeram emprego, turistas e movimento. Segundo dados disponibilizados pela Cushman ao Dinheiro Vivo, quem quiser dormir na Avenida da Liberdade tem hoje 13 hotéis à escolha, a maior parte de quatro ou cinco estrelas, num total de 1290 quartos. Até 2021 deverá abrir mais um, o Turim Boulevard Hotel, que vai criar mais cem quartos de primeira classe no quilómetro mais exclusivo da capital.

“É uma hotelaria que se diferencia do resto da cidade não só pelo preço mas por ser mais tranquila do que outras zonas da cidade, como o Chiado, onde a pressão está a atingir níveis dificilmente comportáveis. Gostávamos que a Avenida se destacasse por ser uma zona turística de qualidade, exclusiva, se assim quisermos dizer”. O desejo é manifestado por Pedro Mendes Leal, proprietário do Valverde Hotel, um hotel de charme com 25 quartos que abriu em 2014.

Além dos hotéis, é nos escritórios que estão os maiores empregadores da Avenida. São 45 edifícios, com rendas que oscilam entre os 18 e os 21 euros por metro quadrado. Tranquilidade, Havas ou Novo Banco são alguns dos maiores. “Os edifícios são relativamente pequenos, não atraem grandes empresas”, destaca Eric van Leuven.

Até há cinco anos, lembra o responsável da Cushman, os pisos superiores dos edifícios da Avenida eram quase exclusivamente ocupados por escritórios. “Entretanto a habitação aumentou e hoje vale o dobro, senão mais, do que os escritórios”.

Foto: DR

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Quem preferir escolher a Avenida para fazer compras tem 104 lojas à disposição. Algumas das melhores marcas do mundo estão lá, como Prada, Cartier ou Louis Vuitton. “As marcas pagam o que for preciso para terem uma loja na Avenida. Os preços das rendas oscilam entre os 95 e os 120 euros por metro quadrado”, afirma Francisco Quintela, managing partner da Quintela & Penalva. Uma loja de 100 m2 terá, portanto, uma renda de 12 mil euros por mês.

Pedro Castro é um dos inquilinos da Avenida, e um dos poucos portugueses. “As principais lojas da cidade sempre estiveram aqui, desde os anos 50 ou 60, mas eram comércio local, ao contrário do que acontece hoje, em que há poucas lojas para as massas”, explica o administrador da Rosa & Teixeira. Não é só o preço que distingue as marcas da Avenida das “lojas para as massas”. Na Rosa & Teixeira e nas portas ao lado, “é normal” fechar-se a loja a pedido de alguns clientes, que querem fazer compras em exclusivo, por exemplo. “Faz parte do serviço de luxo.”

Hoje só não abrem mais lojas por falta de espaço. Ainda assim, “é expectável” que surjam novas marcas na Avenida nos próximos anos. “É normal que haja alguma rotatividade”, afirma Pedro Castro.

O “luxo” que só se tornou sinónimo de Avenida da Liberdade há cerca de 15 anos. “A zona teve crises muito grandes, esteve muito degradada. No fim dos anos 80 era um desastre”, lembra Pedro Mendes Leal, que além de empresário é também presidente da Associação Passeio Público, que nasceu da união de lojistas, hoteleiros e empresários da Avenida numa altura em que faltava limpeza e segurança.

Desde então as coisas melhoraram mas ainda há “muito por fazer”, lamenta Pedro Mendes Leal. “Ainda falta melhorar passeios e jardinagem, por exemplo, que não condizem com o luxo que se quer ter na zona”.

Foto: DR

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Problemas que não têm impedido a subida do preço das casas, que nos últimos anos atingiram níveis estratosféricos. Segundo Miguel Poisson, diretor-geral da Sotheby’s, uma das imobiliárias com mais atividade na Avenida, o valor médio do metro quadrado está nos 6266 euros, mas pode chegar, “em casos excecionais”, a dez mil euros, se as casas forem novas.

“Desde 2014 que temos assistido a um aumento significativo do preço do metro quadrado. Deve-se essencialmente à melhoria da economia nacional e internacional e à maior exposição de Lisboa do ponto de vista turístico, que torna a cidade num ótimo local de investimento quando comparado com outras cidades europeias. Por fim, contribuem também os programas do Golden Visa e do Regime de Residentes não Habituais que visam atrair investimento estrangeiro para Portugal”, detalha o responsável da Sotheby’s.

A curto prazo, os preços devem continuar a subir, “apesar de ser expectável que o crescimento seja menos forte do que nos últimos 2 anos, sendo positivas as recentes notícias que afirmam que o BCE irá manter as taxas de juro estáveis e sem grandes incrementos, facilitando o acesso ao crédito para a aquisição de imóveis”, diz Miguel Poisson.

Quem quiser juntar-se a Cristiano Ronaldo como um dos proprietários da Avenida tem atualmente 129 opções disponíveis: 127 apartamentos, uma moradia e um “edifício habitacional”. Os números são avançados ao Dinheiro Vivo pela Casafari, uma plataforma de imobiliário que faz o levantamento de todas as casas à venda em Lisboa. Segundo os dados recolhidos pelo portal liderado por Mila Sukhareva e Nils Henning, o preço médio do metro quadrado destes imóveis é superior a seis mil euros.

O apartamento mais barato é um T0+1 “para obras totais”, que custa 130 mil euros. O mais caro é um T4 com 248 m2 e cinco casas de banho, à venda por 4,5 milhões de euros. Há 22 casas à venda por mais de um milhão de euros.

“A Avenida da Liberdade tem uma história engraçada. Nos últimos 50 anos tem contado com imóveis para habitação de um segmento social sempre alto. A primeira reabilitação, feita em 2014, deu um boom brutal à Avenida na vertente habitacional. A habitação mudou. Antigamente tínhamos tipologias grandes e hoje em dia são bastante mais reduzidas e viradas para o turismo ou rendimento. Hoje já não existem praticamente prédios inteiros para reabilitar e vender como se fosse um empreendimento, as últimas reabilitações foram feitas nos últimos anos”, aponta Francisco Quintela. Uma das grandes obras que ainda há por fazer deve arrancar este ano: é no antigo edifício do Diário de Notícias, onde vão nascer 34 apartamentos.

(Orlando Almeida /Global Imagens)

(Orlando Almeida /Global Imagens)

Salvo algumas exceções, acrescenta Eric van Leuven, a maior parte dos proprietários da Avenida não vive lá, só passa temporadas.

O líder da Cushman, que é um dos milhares de trabalhadores da Avenida da Liberdade, e também faz parte da Associação Passeio Público, tem um sonho quase impossível” para a rua mais exclusiva do país.

“Gostava que um dia se conseguisse gerir a Avenida como se fosse um imóvel, um centro comercial. Ou seja, ter uma entidade, pública ou privada, que faça uma gestão central e consiga aumentar a atividade da Avenida e garantir a complementaridade das lojas, por exemplo, que é um dos segredos dos centros comerciais. É quase impossível porque há muitos proprietários diferentes que têm interesses diferentes”, conclui Eric van Leuven.

A ideia tem origem em Londres, onde a Cushman gere a Regent Street. “Até gerimos os bancos de jardim, mas aí há um único proprietário, que é a Coroa”. Por cá, a Liberdade é de todos, mas a Avenida é de quem dá mais.

Avenida da Liberdade
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