Indústria Têxtil Vestuário

A moda portuguesa é cada vez mais amiga do ambiente

ZONA INDUSTRIAL foi o nome do evento que levou as fábricas portuguesas à Semana da Moda em Paris. O evento, na Galerie Nikki Diana Marquardt, no bairro de Marias, incluiu uma instalação, sob a direção artística do curador Miguel Flor, que convida à imersão digital num ambiente industrial. Fotografia: DR
ZONA INDUSTRIAL foi o nome do evento que levou as fábricas portuguesas à Semana da Moda em Paris. O evento, na Galerie Nikki Diana Marquardt, no bairro de Marias, incluiu uma instalação, sob a direção artística do curador Miguel Flor, que convida à imersão digital num ambiente industrial. Fotografia: DR

Calvelex, Paulo de Oliveira, Polopique, Riopele e Twintex foram a Paris mostrar a sofisticação das suas fábricas e os investimentos na área da sustentabilidade

A indústria têxtil e do vestuário é a segunda mais poluente do mundo, só ultrapassada pela indústria do petróleo. Conscientes disso, as empresas procuram alterar a sua forma de produzir para reduzirem a sua pegada ambiental. Na Semana da Moda de Paris, cinco das mais conceituadas empresas portuguesas de tecidos e de confeção foram à capital francesa, numa iniciativa promovida pelo CENIT – Centro de Inteligência Têxtil em parceria com a ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário, Confeção e Moda, dar a conhecer a “excelência do saber fazer” da indústria nacional, mas também o interior das suas fábricas, dando destaque a temas como a tecnologia e a sustentabilidade. Painéis solares, reaproveitamento de águas, uso de matérias-primas recicladas, de tudo um pouco se faz em Portugal.

O evento de Paris assinalou o 'momento zero' da campanha de promoção internacional da moda portuguesa centrada na capacidade dos seus principais agentes industriais. Fotografia: DR

O evento de Paris assinalou o ‘momento zero’ da campanha de promoção internacional da moda portuguesa centrada na capacidade dos seus principais agentes industriais. Fotografia: DR

Polopique investe no algodão orgânico
Com mais de 80 anos de experiência na indústria têxtil, a Polopique produz desde a fibra à peça acabada. É das poucas no mundo que ainda o fazem. E acaba de criar uma joint-venture com um parceiro inglês no Uganda para a plantação de algodão orgânico. O objetivo é que, em 2021, todo o algodão usado pela empresa de Caldas de Vizela seja 100% orgânico. O investimento imediato é de dois milhões de euros, mas chegará aos seis milhões no prazo de dois anos, garante Luís Guimarães, CEO da Polopique.

Ainda ao nível das matérias-primas sustentáveis, a empresa está a preparar a instalação de uma fiação de linho, a única na Europa. “Deixou de se produzir fio de linho na Europa há mais de 40 anos e toda a tecnologia desapareceu”, diz Luís Guimarães. O linho cultivado em países como a Bélgica, França e Holanda segue depois para a Ásia para ser fiado. E é depois importado pela indústria têxtil.
O projeto, desenvolvido com um parceiro belga, passa por trazer a tecnologia para Portugal. O investimento está calculado em 10 milhões de euros e permitirá criar mais 150 postos de trabalho, em 2020, a juntar aos mil que a Polopique já tem. Faturou, em 2018, 110 milhões de euros consolidados.

Painéis fotovoltaicos da Twintex. Fotografia: DR.

Painéis fotovoltaicos da Twintex. Fotografia: DR.

Twintex reduziu em 60% as emissões de CO2
Em dez anos, a Twintex reduziu em 60% as emissões de gases poluentes da sua fábrica, graças aos quatro milhões de euros que aplicou, designadamente, na instalações de painéis fotovoltaicos – hoje produz 55% da sua energia elétrica por esta via – e na reconversão das caldeiras para uso de gás natural. Um investimento que se mostrou “economicamente viável” ao permitir manter “os custos fixos controlados”, diz Bruno Mineiro, diretor da têxtil de Castelo Branco, que fatura 30 milhões e dá emprego a 400 pessoas. Agora vai investir mais 1,5 milhões de euros na aquisição de novos equipamentos, sobretudo na área da automação. A compra de um novo centro logístico no Fundão – tem, também, outro no Porto – permitiu reorganizar o layout da fábrica, ganhando nova eficiência, além da criação de 40 novos postos de trabalho.

Riopele será 100% sustentável em 2024
As preocupações com a sustentabilidade não são novas na Riopele, mas têm vindo a ganhar terreno. Começou com a poupança na água, que vai sendo reutilizada sucessivamente em várias operações, e chegou à energia, com a instalação de uma central fotovoltaica com 1 MW, um investimento de 800 mil euros e que vai permitir reduzir a fatura elétrica da empresa em 14%, mas, sobretudo, reduzir a emissão de 689 toneladas de CO2 ao ano.

“Eu dizia que queria a empresa toda sustentável em 2024, mas passamos muitas metas nos últimos dois ou três meses. Não contava poder garantir já hoje que tudo o que estou hoje a fiar na empresa é proveniente de matérias-primas recicladas. Tudo evoluiu muito depressa”, admite José Alexandre Oliveira. Em causa está a unidade de fiação da empresa de Vila Nova de Famalicão, com uma capacidade produtiva de 180 toneladas ao mês, e que faz fio de poliéster a partir de plástico recolhido nos oceanos e viscose a partir da madeira.

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Com 1100 trabalhadores e vendas de 75 milhões, que espera este ano reforçar “ligeiramente”, a Riopele é das poucas empresas verticais em Portugal, assegurando desde a fiação à confeção. Lançou, em 2017, uma gama de tecidos produzidos a partir de resíduos têxteis e ganham propriedades funcionais com recurso a resíduos alimentares. E que vende sob a marca Tenowa.

Paulo de Oliveira: 35% da energia é solar
Desde 2014 que a Paulo de Oliveira, o maior fabricante de tecidos de lã da Península Ibérica e um dos maiores da Europa, vem investindo em painéis fotovoltaicos. Hoje já tem 2,4 MW de potência instalada, que lhe asseguram 35% da energia elétrica consumida pela fábrica. E só não tem mais porque a legislação não o permite, diz Luís Miguel Oliveira.

A empresa da Covilhã lançou este ano a sua linha sustentável, a Oliveira Green, produzida “exclusivamente com materiais reciclados”. “Estamos na vanguarda, mas é preciso perceber que há limites para isto porque a qualidade do produto não é necessariamente a mesma”, diz Luís Oliveira, que se mostra convicto que a tecnologia “vai evoluir e comandar esta mudança”. A empresa de lanifícios dá emprego a 1200 pessoas e faturou, o ano passado, 75 milhões. Este será um ano de “estabilização”.

Calvelex investe na digitalização de peças
Com mais de 30 anos de experiência na alfaiataria de luxo para senhora, a Calvelex dispõe hoje do maior arquivo de tecidos do mundo, com mais de 20 mil referências já catalogadas. E está a passar essas referências para a sua plataforma online, onde tem digitalizados todos os modelos já produzidos na empresa.

calvelex Em marcha está já a criação de um avatar que permitirá desenvolver e visualizar os vários modelos, com os respetivos tecidos, em diversos tamanhos, tudo em ambiente virtual e em 3D. Uma medida que permitirá fazer menos amostras e, consequentemente, reduzir o desperdício, diz César Araújo, administrador da empresa. Com 700 trabalhadores, divididos por três fábricas e dois centros logísticos, a empresa de Lousada tem os centros logísticos com painéis solares, projeto que pretende alargar às fábricas nos próximos três anos. O investimento ainda não está estabelecido, porque dependerá do estudo comparativo dos gastos energéticos do grupo com a iluminação a LED que implementada no início deste ano.

E ao contrário da maior parte das empresas industriais, que estão a apostar crescentemente na automação, a Calvelex está a fazer o percurso inverso. César Araújo mostra-se convicto que, em breve, os produtos manufaturados serão crescentemente valorizados e admite mesmo vir a ostentar nas etiquetas dos seus produtos a referência made by people.

* A jornalista viajou a convite do CENIT

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