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A nova Lisboa marcha pelo ambiente. “Coragem” ou “trapalhada”?

Foto: CML
Foto: CML

A partir de junho Lisboa vai mudar. A nova zona de emissões reduzidas traz menos carros, mais transportes e muitas questões para Fernando Medina.

A liberdade completava pouco mais de uma década quando na vida dos lisboetas irrompeu outra revolução. Em 1986, a Rua Augusta, corredor nobre do comércio da capital, foi cortada ao trânsito. Juntou-se um coro de protestos, conta quem se lembra, e anunciou-se a morte da Baixa. Sem carros, ia cair o Carmo e a Trindade, e o comércio viria atrás.

“Hoje, ninguém imagina a Rua Augusta com carros. As mudanças não nos assustam, temos é de percebê-las”, aponta Vasco Morgado, presidente da Junta de Freguesia de Santo António, uma das três freguesias abrangidas pela nova zona de emissões reduzidas (ZER), o plano da Câmara Municipal de Lisboa (CML) para reduzir a circulação de automóveis na Baixa da capital e aumentar, assim, a qualidade do ar. Para já, o que o projeto deixa no ar são dúvidas.

“Se for implementado tal como está, prevejo alguns problemas. Por um lado acho que protege os moradores, mas não se percebe o estacionamento limitado das visitas. Do lado dos comerciantes a grande questão são as cargas e descargas, que são hoje um enorme problema nesta zona da cidade”, sublinha Vasco Morgado.

Se acabar com as carrinhas estacionadas nos passeios em hora de ponta é urgente, diz o autarca, também é importante assegurar “o descanso dos poucos moradores que resistem” na Baixa. O projeto prevê que as cargas e descargas sejam feitas de madrugada, entre a 00.00 e as 06.30.

“Quem é que vai estar nas lojas para receber as encomendas a essas horas”, questiona Fernanda Igrejas, empresária da Rua do Ouro há 30 anos e membro dos órgãos sociais da Associação de Dinamização da Baixa Pombalina. A organização, com cerca de 200 membros, entre lojas e serviços, reuniu-se nesta semana para debater o plano de Fernando Medina, e redigir uma lista de dúvidas e sugestões para endereçar à autarquia.

“Estamos de acordo com o objetivo subjacente ao plano. Mas não concordo com a forma como se vai realizar, nem com a rapidez com que se vai pôr o projeto em prática. Nos primeiros tempos vai ser penoso para o comércio, são demasiadas restrições”, desabafa a proprietária do número 157 da Rua do Ouro, uma das artérias inseridas na ZER. A partir de junho, só transportes públicos e carros autorizados, como residentes e veículos em emergência, poderão atravessar a Rua Áurea, que vai ganhar ainda uma ciclovia.

Nova Lisboa para turistas?

Além do alargamento do período de cargas e descargas, os comerciantes querem sensibilizar a câmara para “as situações do dia-a-dia”, como “problemas técnicos que têm de ser resolvidos rapidamente” por profissionais que passam a ter acesso condicionado à Baixa.

Na Rua da Conceição, conhecida como a rua das retrosarias, as preocupações dos lojistas são semelhantes. O novo plano prevê reservar “parte significativa” desta artéria ao transporte público, como o elétrico 28. “Estou dividida”, assume Susana Pais, que há 16 anos trabalha na retrosaria Adriano Coelho. “É verdade que aqui há muita poluição e alargar os passeios é importante. Mas sem carros há certamente clientes que vão deixar de vir. Passam a ir aos centros comerciais onde não há restrições nenhumas.”

Entre os restantes funcionários, as opiniões dividem-se. Paula Gaspar defende “a retirada total do trânsito”. Francisco Jerónimo acha que “a Baixa não está preparada para uma mudança tão drástica”.

Sobre o tema “Nova Lisboa” não há na capital, por estes dias, quem não queira dar opinião. Na Rua da Prata, onde trabalha há um ano, Marisa Rodrigues até vê as mudanças com bons olhos. Fica admirada, porém, ao saber que é já no verão que a revolução vai passar por aqui. “Quando ouvi a apresentação do projeto pensei que ia levar uns três anos a implementar.”

Na ourivesaria Lua de Prata, quem compra são “turistas e clientes fiéis e antigos”, pelo que Marisa não está preocupada com a possível perda de clientela. “Se a intenção é transformar a Baixa no local mais turístico possível, estão no bom caminho”, acrescenta a colega Patrícia Almeida.

As duas funcionárias que, tal como todos os comerciantes com quem o Dinheiro Vivo falou, se deslocam para a Baixa de transportes públicos, defendem que para o plano das ZER ter sucesso é preciso aumentar o estacionamento e baixar os preços dos bilhetes comprados a bordo, que hoje custam dois euros nos autocarros e três nos elétricos.

Medina admite mudanças

Durante as próximas semanas, serão estas e muitas outras as questões a que Fernando Medina terá de responder, no périplo que iniciou nesta quinta-feira pelas juntas de freguesia, associações de comerciantes e moradores e outras entidades interessadas nas mudanças, como o ACP.

Na Junta de Freguesia da Misericórdia, a primeira que o autarca enfrentou, Medina ouviu aplausos pela “coragem” e apupos pela “trapalhada”. O presidente admitiu “abertura” para mudar algumas das medidas, antes de o plano avançar para a consulta pública e ser submetido à aprovação da CML. Há, no entanto, linhas vermelhas das quais o presidente não abdica. Eliminar a circulação automóvel na Rua de São Pedro de Alcântara é uma delas. “É uma vergonha o que ali existe há anos.”

Na Misericórdia, o objetivo do plano é acabar com a “função de atravessamento” de artérias como a Calçada do Combro ou a Rua de São Bento. Segundo Fernando Medina, o objetivo do plano é desviar os carros para a Avenida Infante Santo, a Calçada da Estrela e a Avenida D. Carlos I, artérias “com mais capacidade” para absorver o trânsito.

Num plano que tem como meta limpar o ar de Lisboa, também estes desvios ativam alertas. “Tenho receio de que a poluição se afaste da Baixa para outros sítios. Quando se mexeu na Avenida da Liberdade, os níveis de poluição aumentaram na Rua de São José e na Rua do Telhal”, lembra Vasco Morgado.

Já a presidente da Junta da Misericórdia, Carla Madeira, acredita que a freguesia só tem a ganhar com as propostas. “Estas zonas sofreram uma grande pressão, com a especulação imobiliária e com o aumento desenfreado do turismo. Uma padaria local ou uma esplanada são mais apelativas numa zona nobre, com um passeio largo e sem poluição, do que com o caos que existe atualmente.”

A autarca espera que, nos próximos anos, as ruas da Misericórdia, que compete com Santo António pelo título de metro quadrado mais caro do país, acima dos 4500 euros, estejam repletas de lojas novas. “É uma zona atrativa, independentemente da forma como lá podemos chegar. Se, em tempos, a zona da Baixa da cidade era tida como abandonada, hoje é novamente um dos epicentros da nova e moderna Lisboa. Jamais perderá a procura, seja por ser das mais nobres para se viver e trabalhar, seja porque turisticamente é das mais atrativas”, ressalva Patrícia Araújo, responsável da divisão de retalho da imobiliária JLL.

A meta da ZER é tirar 40 mil carros da Baixa, para que em 2050 Lisboa cheire a neutralidade carbónica, a flores e a mar.

Uber, tuk tuks e 10 visitas. As polémicas da Lisboa de Medina

Todos os dias entram na Baixa de Lisboa 100 mil carros. Na Avenida da Liberdade, a poluição ultrapassa em 50% o limite recomendado pela União Europeia. A CML quer que Lisboa seja uma capital verde, e propõe aplicar algumas medidas polémicas.

Uber podem circular?
É uma das propostas que mais questões tem suscitado. Com os novos limites, os táxis a gasolina produzidos após 2000 e os táxis a a gasóleo com motor posterior a 2005 vão poder circular na ZER. A regra não se aplica às plataformas de transporte como a Uber ou a Bolt (TVDE), que só poderão entrar na Baixa se forem elétricos. Fernando Medina justifica a opção: “oOs TVDE não são transportes públicos nem têm um contingente, ao contrário dos táxis”. O presidente da CML considera que deixar as plataformas circular livremente “iria criar congestionamento”. Contactada pelo Dinheiro Vivo, a Uber remeteu comentários à proposta para quando ela for aprovada pela Câmara. Já a Bolt afirma que a medida “está em linha com a proposta de valor e com os objetivos de negócio” da empresa, que tem vindo a aumentar a frota de carros elétricos, chegando já às “centenas”.

Há limites aos tuk tuks?
Os quadriciclos e triciclos afetos à animação turística, ou tuk tuks, poderão circular e estacionar na ZER se forem elétricos, mas com limites. A proposta original do executivo de Fernando Medina prevê a realização de um sorteio para 104 tuk tuks. Atualmente existem em Lisboa mais de 700. Este é, no entanto, um dos pontos que o presidente da Câmara admite rever. Na sessão de esclarecimento que teve lugar na Misericórdia, Medina foi acusado de “discriminar” este veículos. “Se cada tuk tuk ocupar 2,5 metros, 100 tuk tuks representam 250 metros de congestionamento. Estou diposto a discutir o contingente porque sei que houve investimentos e expectativas geradas, mas quero que percebam que há atividades que não podem continuar a crescer como até agora”, respondeu o autarca.

Limite de 10 visitas?
Os lisboetas que moram na ZER terão direito a circular e a estacionar de forma gratuita. No entanto, “os residentes registados, mesmo que não sejam proprietários de automóvel, podem beneficiar de 10 autorizações por mês de acesso para visitantes, mediante pedido autorizado pela EMEL, podendo os seus convidados estacionar em parque”. Em resposta às críticas dos moradores, Fernando Medina deu o exemplo das Zonas de Acesso Condicionado (ZAAC), que existem no Bairro Alto ou em Alfama, onde a entrada a visitantes é proibida. “Com tantas críticas ao limite de dez, se calhar o melhor é ser zero em tudo”, atirou o autarca. Fernando Medina deu ainda o exemplo de Madrid, onde é aplicada a mesma restrição.

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