Conferências do Estoril

“A pobreza não é apenas estatística, é um crime contra a humanidade”

Edmund Phelps; Bernard Kouchner; Rigoberta Menchú Tum
( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )
Edmund Phelps; Bernard Kouchner; Rigoberta Menchú Tum ( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )

Três prémios Nobel juntaram-se no auditório da Nova SBE em Carcavelos para uma discussão sobre a pobreza global.

Era um dos pratos fortes da sexta edição das Conferências do Estoril. Dois Nobel da Paz e um Nobel da Economia tentaram encontrar respostas para um dos maiores quebra-cabeças da humanidade: como resolver a pobreza extrema no mundo?

O arranque não foi promissor. “Não tenho resposta à pergunta. É demasiado difícil”, respondeu Bernard Kouchner, laureado com o Nobel da Paz em 1999 pelo trabalho humanitário enquanto cofundador dos Médicos sem Fronteiras e Médicos do Mundo.

Kouchner teve, de resto, uma das intervenções mais pessimistas dos três dias da Conferência. De tal forma que, na hora das perguntas e respostas, uma estudante da plateia se levantou para lhe pedir “um pouco mais de otimismo por favor”. Mas para o francês, “este não é um bom momento para falar da humanidade”.

“Tenho muito orgulho em fazer parte do mundo humanitário há mais de 30 anos. Durante muito tempo fizemos progressos, mas isso já não está a acontecer. Não quando deixamos milhares pessoas morrer no mar às portas da Europa. É isso a humanidade”, questionou.

O Nobel da Paz de 1999 não poupou críticas a “um projeto que me fez sonhar quando era jovem chamado União Europeia”. Segundo Kouchner, a UE falhou na resposta à crise dos migrantes e ao massacre na Síria.

“A Europa foi a única ideia da minha geração. A única capaz de mudar o espetro do mundo, a única capaz de concorrer com os EUA e a China por juntar 500 milhões das pessoas mais ricas do mundo. Foi um sucesso? Duvido. Criámos ideia de União Europeia para abolir fronteiras e agora temos os nacionalismos de volta, a fechar as fronteiras à realidade do mundo e à maior parte da população mundial. Esse não é o caminho para recuperar a humanidade que perdemos. Gostava de estar errado”, afirmou.

Segundo Bernard Kouchner, diminuir os números da pobreza mundial “de forma aceitável” vai demorar uma ou duas gerações, não sendo isso motivo suficiente, no entanto, “para desistirmos de fazê-lo”.

Questionados sobre a responsabilidade dos multimilionários na resolução do problema da pobreza global, os oradores foram unânimes ao afirmar que “doar dinheiro não chega”.

( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )

( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )

“Nao há nenhum milionário que possa manter quatro mil milhões de pobres sozinho. É preciso investir na educação, reinvestir na academia, que tem de ser menos teórica e mais prática. Não percebo o que aconteceu à academia, às universidades, porque hoje a maior parte dos corruptos são pessoas que têm mestrados e doutoramentos”, ressalvou Rigoberta Menchú Tum, ativista da Guatemala e Nobel da Paz em 1992.

Menos pessimista que Kouchner, Rigoberta Menchú Tum arrancou aplausos da plateia quando clamou que “a pobreza não é apenas estatística, é um crime contra a humanidade”.

“Mais de 60% da humanidade vive em condições de pobreza. E 60% da humanidade são mais de quatro mil milhões de pessoas. Cada uma delas tem sentimentos, ilusões, sonhos e tem de comer todos os dias. Querem uma vida digna e isso não é algo sem importancia”.

A Nobel da Paz salientou ainda que a pobreza global não se manifesta apenas por falta de dinheiro mas também “no sentido humano, em atos como o racismo, a discriminação, as intolerâncias, a falta de convivência harmoniosa. São temas que têm de ser discutidos quando se fala de pobreza e está nas nossas mãos acabar com eles”.

No fim, Rigoberta Menchú Tum deixou uma mensagem de esperança, que contrastou com o tom do debate. “Acredito no ser humano, sobretudo na juventude. É ela que pode introduzir mudanças a favor da humanidade. Se existe uma geração insensível ela tem de ser substituída por uma geração sensível e humana”, concluiu a Nobel da Paz da Guatemala.

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