Conferência

A poupança em Portugal (ou a falta dela) vista pelo painel ‘triple A’

Ligeira quebra nas poupanças

Alberto de Castro, Ângelo Paupério e António Pires de Lima em debate sobre o sobreendividamento das empresas, das famílias e do Estado

O modelo de indemnização às nacionalizações em Portugal, no final dos anos 80, a criação da moeda e a redução das taxas de juro, no fim da década seguinte, e a “enorme promiscuidade” entre os interesses privados e os interesses públicos no novo milénio, “em que o empreendedorismo foi feito à custa do Estado”, são as razões que explicam, para António Pires de Lima, o défice de poupança das empresas em Portugal e a sua elevada dependência do financiamento bancário. Alberto de Castro, da Universidade Católica, considera que Portugal padece de dois problemas distintos – uma “dívida excessiva” e um “crescimento anémico” – que obrigam o país a fazer a “quadratura do círculo”, investindo mais sem aumentar a dívida pública. Como? Fazendo um “esforço insano” para a captação de investimento estrangeiro e assegurando uma “melhor utilização dos fundos estruturais. Ângelo Paupério apela a uma política de transparência, mas também de previsibilidade e de estabilidade que favoreça o sistema de poupança e de investimento.

Alberto de Castro, Ângelo Paupério e António Pires de Lima – um painel triple A como destacou o professor da Universidade Católica e chairman do chamado Banco de Fomento – foram os convidados da Associação Portuguesa de Seguradores para o painel de debate na conferência “Poupança e Financiamento da Economia Portuguesa” que este terça-feira decorreu no Porto e cuja moderação esteve a cargo de Miguel Cadilhe.

Pires de Lima começou por abordar a alteração de cultura no país face ao endividamento nas últimas décadas, de uma altura em que o financiamento bancário era visto como “uma dependência que se procurava evitar”, à fase do “facilitismo e da permissividade” que levou ao excesso de endividamento das famílias, das empresas e do próprio Estado “Passou-se do 8 para o 80”, diz.

Encarregue de abordar a questão do endividamento das empresas, Pires de Lima lembrou o modelo de indemnização aos ex-proprietários das empresas nacionalizadas, que obrigou a que a recompra destas empresas fosse feito, fundamentalmente, à custa de dívida. Seguiu-se o aparecimento do euro e a redução das taxas de juro, que torno o endividamento “cada vez mais fácil”, a que se juntou, já neste século, “uma enorme confusão, para não dizer promiscuidade”, entre o público e o privado. “Confundiu-se a noção de empreendedor com a ligação ao Estado, gerando um empreendedorismo feito à custa do estado e sem a entrega de garantias adequadas”.

O ex-ministro reconhece, em média, “as empresas portuguesas estão, ainda hoje, excessivamente endividadas e com balanços que não são especialmente sólidos”, apesar do “percurso heroico” que muitas fizeram, desde o início da crise financeira de 2008, para corrigirem estes desequilíbrios. Pires de Lima não resistiu a reconhecer que o anterior governo, liderado por Pedro Passos Coelho, foi “pioneiro” no lançamento de alguns instrumentos de capitalização e lembrou que “só empresas solidamente capitalizadas estão preparadas para fazer face ao desafios com que a economia portuguesa se defronta”.

Sobre o investimento estrangeiro em Portugal, Pires de Lima é claro: “Não me assusta nada. É sinal que há empresas nacionais atrativas e que há investidores internacionais que acreditam nelas e no país”.

Já Alberto de Castro considera que o fundamental para o desenvolvimento da economia nacional está do lado do investimento. “Precisamos de aumentar o investimento e não tenho certo que o tempo permita que a poupança o financie”, defende, considerando que é preciso fazer um “esforço insano” no sentido de uma maior captação de investimento estrangeiro, ao mesmo tempo que se faz uma “melhor utilização” dos fundos estruturais que são, lembra, “uma espécie de poupança que nos cai do céu”. A própria IFD – Instituição Financeira de Desenvolvimento, mais conhecida por Banco de Fomento, está a desenhar instrumentos de financiamento com base nos fundos estruturais, disse. A instituição já terá intermediado mais de 30 mil milhões de euros em financiamentos às empresas.

Por fim, Ângelo Paupério, co-CEO do grupo Sonae, dedicou-se ao tema da poupança nas famílias, sublinhando que não é aí, mas nas empresas e no Estado, que está o “grande problema”. As famílias têm “comportamentos muito racionais” face aos estímulos externos, garante, sendo que a diminuição das poupanças tem a ver, na sua opinião, com o desenvolvimento do Estado social e o aumento da confiança no futuro, fatores que têm um “impacto negativo” na perceção da importância da poupança.

Paupério aponta ainda o dedo à instabilidade no sistema financeiro, que levas as famílias a “não sentirem que as suas poupanças estão seguras” e, sobretudo, “a sentirem-se parvas por poupar”, correndo o risco de terem de contribuir com o seu esforço “para compensar os desvarios de outros”.

O co-CEO da Sonae pede aos dirigentes políticos uma “discurso de verdade” porque, diz, as expectativas otimistas levam a “um maior consumo e à capacidade de se pensar menos no futuro”. E reclama “previsibilidade e estabilidade”, fatores críticos para as decisões de investimento das empresas.

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