entrevista

“A PSA produz 400 mil veículos e nós andamos com a Autoeuropa ao colo”

Luís Ceia está a trabalhar na criação de uma associação empresarial que reúna o Minho, o Cávado e o Ave para substituir a AIMinho. Fotografia: Igor Martins/Global Imagens
Luís Ceia está a trabalhar na criação de uma associação empresarial que reúna o Minho, o Cávado e o Ave para substituir a AIMinho. Fotografia: Igor Martins/Global Imagens

Presidente da Confederação Empresarial do Alto Minho defende a diversificação da economia da região, muito dependente da PSA de Vigo

Luís Ceia, presidente da Confederação Empresarial do Alto Minho, defende – em entrevista ao Dinheiro Vivo – a diversificação da economia da região, muito baseada na produção de componentes para automóveis. Seria um escudo de defesa para a eventualidade de a PSA de Vigo deslocalizar produção.

A economia do Alto Minho está muito assente na produção de componentes para o setor automóvel. É sustentável?
Nós temos de estar atentos. Há algum receio. Já alertei alguns presidentes de câmara ao nível da CIM [Comunidade Intermunicipal do Alto Minho] no sentido de terem algum cuidado. Não são os donos da bola, mas podem condicionar. A deslocalização já está a acontecer no têxtil. A Zara começou a deslocalizar para o Magreb e para a Turquia. Isto começa também a acontecer no setor automóvel. Estivemos agora em Marrocos, vimos uma zona franca fantástica, apoios descomunais à instalação de fábricas automóveis, uma rede de infraestruturas nova, com mão-de-obra mais barata. A única mais-valia que ainda temos é a formação e a qualificação. Aqui, o setor pesa 70% a 80% no emprego.

A maioria da produção é para a PSA de Vigo. A região está muito dependente de um único cliente… Há receio de uma deslocalização?
A maioria da produção vai para a PSA, mas alguma coisa vai também para França – onde o grupo tem fábricas -, para a Autoeuropa, mas eu diria que a PSA vale 60% a 70%. A PSA tem uma produção de 400 mil veículos por ano e nós fazemos uma festa com a Autoeuropa, andamos com eles ao colo. Se a Autoeuropa, que é o segundo maior exportador português, tossir é um grande problema. Agora imagine o que é termos aqui uma fábrica como a PSA. O governo agora percebe este contexto, mas não queria perceber esta realidade transfronteiriça. Uma realidade muito própria. Deixámos de ser uma região periférica, temos uma relação muito privilegiada com a Galiza, quer pela língua quer pela cultura, e temos 3,5 milhões de habitantes a cerca de duas horas de distância. Há um movimento diário transfronteiriço muito importante. A província de Pontevedra, muito por força da PSA, é a quarta maior exportadora de Espanha. E claro que há essa sombra. É um grande problema. Os chineses são acionistas.

É possível uma deslocalização para a China?
Os chineses estão cada vez mais preparados, já não têm só dinheiro, dominam as tecnologias. Têm capacidade para produzir com qualidade. Depois é preciso saber qual é o paradigma do novo automóvel. Vai ser elétrico? Vai ser com baterias? Vai ser a hidrogénio? Isto tudo vai mudar nos próximos anos. Não sabemos o que vai acontecer ao automóvel. A solução é a diversificação da economia. E aqueles que têm capacidade de decisão que beneficiem a diversificação. E se for possível diversificar aproveitando os produtos endógenos, muito melhor, o valor acrescentado aumenta substancialmente.

Recentemente foi inaugurada uma nova fase do parque empresarial de Lanheses. Há espaço para novas empresas?
Viana tem quatro parques e a região cerca de 30. Neste momento, estão praticamente todos cheios. Nós tempos um problema: há escassez de parques e já mandamos a nossa reflexão sobre o próximo Quadro Comunitário. Na nossa opinião, deve pegar-se nos planos estratégicos da região, neste caso do norte, e depois das sub-regiões – Alto Minho, Cávado… – e perceber quais as especializações, as carências, que caminhos estão a seguir. O ideal era contratualizar um envelope financeiro para cada região, de acordo com a estratégica definida para a região no global e de cada sub-região na especialidade. Neste momento, qualquer projeto de candidatura que apareça de parques industriais, seja na CCDRN [Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte] seja no Compete, é riscado. Mais? Vocês já lá têm muita coisa. Isso não tem que ver com o alinhamento estratégico da região.

Mas há projetos de investimentos para a região?
Falta ter um parque de dimensões elevadas, com uns cem hectares, que fosse intermunicipal. Um dia, mais cedo ou mais tarde, vai cair um grande investimento em Portugal, pode cair uma segunda Autoeuropa, uma Tesla… E depois quem tem o espaço, tem. Um parque empresarial não se faz de um dia para o outro. É preciso comprar terrenos, há litigâncias, negociações… Se envolver mais do que um município mais problemático, e se não forem da mesma natureza política, é ainda mais problemático. Quem o tiver é quem vai receber o investimento. A região tem boas capacidades ao nível do ensino superior, bons laboratórios de investigação, falta ter essa dimensão – cem hectares. Podem chamar-nos loucos, mas o tempo pode dar-nos razão. De repente aparece um investimento enorme e ele vai para onde há espaço.

A região está numa situação de pleno emprego. As empresas têm sentido dificuldades em contratar?
Temos os estaleiros, e pelo que sei vai crescer muito, a única fábrica que existe em Portugal de geradores eólicos, que movimenta muita gente, tem três unidades a funcionar em Viana do Castelo, os componentes para a indústria automóvel e a metalomecânica – que tem aqui um fator de competitividade grande e que também trabalha para o automóvel, temos uma fábrica de armas e, claro, as PME. Estamos numa situação de pleno emprego e começa a haver esse problema, essencialmente na metalomecânica. Há áreas que requerem especialistas: soldadores, operadores de máquinas numéricas, que não se formam de um dia para o outro. Temos de nos ajustar à realidade das empresas. Para formar um serralheiro no centro de emprego demora dois anos, porque ele vai ter inglês, geografia… se for para uma fábrica aprende em quatro meses porque só vai ter serralharia. Se calhar temos de pensar no curto prazo e depois dar as soft skills às pessoas.

O Minho tem sentido o crescimento do turismo no país?
Houve uma má gestão das expectativas quando a sede do Porto e do norte de Portugal ficou em Viana. Ficou aqui como podia ter ficado noutro sítio. Não percebemos isso e pensámos que Viana iria ser beneficiada. Espero que a nova direção tenha a sensibilidade de perceber o caráter diferenciado das sub-regiões, que percebam a nossa estratégia e a acompanhem. Até porque o turista é o que pernoita. A nossa realidade é outra. O espanhol vem ao sábado de manhã, faz as compras, come o bacalhau e vai embora. Temos de fazer uma campanha muito forte do outro lado da fronteira e oferecer um produto integrado.

O boom do turismo no Porto não chegou aqui?
Não, de maneira nenhuma. Os municípios perderam alguma individualidade no que respeita à promoção. Não é no Porto que se direcionam as pessoas, as pessoas já sabem para onde vão. A promoção tem de ser feita no local de origem.

Com a extinção da AIMinho a região perdeu um organismo associativo de cúpula. Vai ser criada outra associação?
A região ficou um bocado manca. Temos estado a trabalhar com o Cávado e o Ave com vista a criar uma associação que envolva as três NUT. A região não é assim tão grande. Fomos pioneiros ao criar a Confederação Empresarial do Alto Minho, há mais de 20 anos. Os conselhos empresariais não atrapalham as associações. O CEVAL está para as associações como o CIM está para as câmaras. O objetivo é ganhar grandes projetos para a região. É preciso reformular o movimento associativo no sentido de certificar o que as associações podem ou não fazer. É preciso prestar serviços de qualidade. Queremos ser parceiros, mas para isso temos de ter competências. E, doa a quem doer, algumas terão de fechar. As associações não deviam precisar de apoios, deviam viver das suas quotas, para garantir autonomia.

Perfil

Um homem da terra ao serviço das empresas
O presidente da Confederação Empresarial do Alto Minho (CEVAL) e da Associação Empresarial de Viana do Castelo (AEVC), Luís Ceia, é um homem da terra. Apesar de ter passado a juventude em Lisboa, onde se licenciou em Engenharia Química, voltou ao Minho e foi na região que construiu a sua carreira profissional e académica. Geriu várias empresas na região (curiosamente iniciou a sua vida laboral numa unidade de componentes de automóveis) e, já neste milénio, abraçou projetos regionais, como a recuperação de centros históricos ou a revitalização do comércio local, e enveredou pela vida associativa. É docente no Instituto Superior Politécnico de Viana.

 

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