Inovação

Academia falha na formação de jovens criativos

Espaço de cowork. Fotografia: Rui Oliveira/Global Imagens
Espaço de cowork. Fotografia: Rui Oliveira/Global Imagens

Trabalhadores independentes das indústrias criativas fazem o seu primeiro encontro nacional para debater problemas limitativos da atividade

Apesar de haver cada vez mais indústrias criativas, os trabalhadores independentes a elas associados consideram que o resultado da sua atividade é “precário”, do ponto de vista da rentabilidade. Falta de formação específica é uma das causas que vai ser debatida no Porto Indie Workers Bootcamp, nos próximos dias 18 a 20.

Quem estiver ligado à publicidade, arquitetura, arte e antiguidades, artesanato, design, moda, cinema e vídeo, música, artes performativas, software, artesanato e videojogos poderá ter interesse no primeiro encontro dos trabalhadores independentes das indústrias criativas, a realizar no Palácio dos Correio.

Um dos motivos do encontro tem a ver com a oportunidade para se abordar constrangimentos à atividade e uma das “lacunas” é identificada ao nível do sistema de ensino, por “não dar bagagem aos estudantes” das áreas acima descritas, “que lhes permitam uma carreira profissional”, critica Tânia Santos, organizadora do evento.

“Há um choque de linguagem, porque a formação académica não tem a compreensão nem sensibilidade do que são as indústrias criativas e os empreendedores destas áreas, por seu lado, não se identificam com os conceitos económicos e desistem da atividade. Quase têm pudor em chamar ‘negócio’ ao seu ‘projeto’”, evidencia Tânia Santos, justificando assim a aposta no encontro para ajudar a superar bloqueios no setor.

Mais profissionais
Apesar das falhas na formação direcionadas para o desenvolvimento do negócio, a emergência de analisar questões como esta prende-se com o fenómeno de crescimento do número de trabalhadores independentes nas indústrias criativas, em Portugal, como no resto do Mundo, com as projeções a apontarem para a continuidade dessa trajetória. A nível nacional, indica a organizadora do encontro, há quase 59 mil empresas das indústrias culturais e criativas, que correspondem a 5% do total nacional, empregando quase 124 mil trabalhadores (dependentes).

“O setor é constituído maioritariamente por indivíduos, micro empresas e PME, com pessoas que operam, sobretudo, em nome individual ou como freelancers”, esclarece Tânia Santos, que é também presidente da associação Thinking Spoon e fundadora do CRU Cowork, um dos primeiros espaços de trabalho partilhado no Porto, vocacionado para as indústrias criativas.

Trabalhar em casa é que bom?
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado esta semana corrobora estes números, revelando que “pequenas empresas e trabalho por conta própria são responsáveis pela maioria dos empregos no mundo: sete em cada 10 trabalhadores operam por conta própria em pequenas empresas. As chamadas pequenas unidades representam mais de 70% do total do emprego no mundo”.

Já em 2016, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) referia que, em Portugal, 17,6% da totalidade dos trabalhadores eram empreendedores, acima da média europeia, de 15,8%, concentrados sobretudo na Área Metropolitana de Lisboa (46,3%), seguindo-se a região Norte (25,6%) e o Centro (15,8%).

Tânia Santos ressalva que estes profissionais optam por trabalhar em regime de coworking, ou noutros espaço coletivos, estimando haver 173 desses espaços no país, com 33 registos no Porto e 79 em Lisboa. Isto, porque “trabalhar em casa dá uma chama de liberdade e independência, mas, depois, as pessoas começam a sentir necessidade de disciplina nos horários e de socializar”, denota a organizadora, lembrando um inquérito da CRU Cowork, de 2018, no qual foram inquiridos trabalhadores independentes que assumiram que o resultado das suas atividades profissionais era “precário” do ponto de vista da rentabilidade. “Apenas 24% da amostra considerava a sua atividade rentável ou muito rentável”.

Ter viabilidade financeira
Foi o resultado do estudo que, em parte, levou a organizadora do evento a admitir a tal “lacuna” de instrumentos, ao nível do ensino, que capacitem os jovens empreendedores para criarem o seu negócio e saberem geri-lo, para terem viabilidade financeira.

Por esse motivo, o Porto Indie Workers Bootcamp terá uma componente prática onde se falará da gestão do tempo, dos empregos, do estabelecimento dos preços, do planeamento, por exemplo, e outra mais teórica, onde criativos estabelecidos vão falar sobre a sua experiência profissional e pessoal, devendo abordar-se ainda a importância do networking. Estão também previstos momentos para colocação de dúvidas, que irão funcionar quase como “sessões feitas à medida”.

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