Imobiliário

Acesso à praia sem carros será “o maior desafio” da Comporta

Foto: Vanguard Properties
Foto: Vanguard Properties

O maior projeto imobiliário do país deverá começar a ganhar forma já este ano, com o arranque da construção do primeiro de cinco hotéis.

No telefone dobrável, José Cardoso Botelho exibe as últimas fotografias que tirou na terra que agora divide com Paula Amorim. Aos investidores estrangeiros, a Comporta está a ser vendida como um oásis azul e verde, salpicado com areia branca, e é assim que o diretor-geral da Vanguard Properties quer que se mantenha.

O “maior desafio” daquele que é o projeto imobiliário mais ambicioso da década será, nas palavras do dono, o acesso às praias de milhares de pessoas, que terá de ser feito sem carros. A nova Comporta, que o consórcio Vanguard/ Amorim comprou por 157 milhões de euros, terá “uma grande preocupação com a paisagem e a menor intervenção possível no meio ambiente”.

A questão do acesso às praias “está agora a entrar numa fase nova de avaliação”. Envolve os municípios e as entidades como a Associação Portuguesa do Ambiente (APA), mas os proprietários querem que mais organizações “fortes se associem à resolução de um problema que é de todos, tanto de quem visita como dos investidores”, aponta José Cardoso Botelho em entrevista ao Dinheiro Vivo. O líder da Vanguard explica que a solução passará por criar zonas de estacionamento longe das praias, e transportar os visitantes até ao areal em veículos elétricos.

“Já hoje há muita gente que não vai à Comporta pela dificuldade em estacionar. Com a nossa capacidade de investimento, vamos criar infraestruturas para que a Comporta se possa desenvolver bem, com muita qualidade. A Comporta é cada vez mais falada lá fora”, assegura o responsável, que juntamente com a Amorim Luxury vai investir 1,5 mil milhões de euros nos terrenos outrora detidos pelo Grupo Espírito Santo.

O plano dos novos donos para as rebatizadas Terras da Comporta está traçado. Vão nascer cinco hotéis na área conhecida como Comporta Links, que vai mudar de nome para uma designação em português. Estão ainda previstos três aparthotéis, 11 aldeamentos turísticos e residenciais com cerca de mil casas e dois campos de golfe, um dos quais terá condições para ser “o melhor da Europa continental”.

O primeiro hotel terá o monograma JNcQUOI, a marca de luxo de Paula Amorim. Deverá começar a ser construído já neste ano, para que possa abrir portas em 2022, tal como um dos campos de golfe. Para as restantes unidades hoteleiras “o objetivo é atrair duas ou três marcas de grande nível”, o que “não será difícil”, acredita José Botelho.

Na calha para os dois anos seguintes está a abertura de branded hotels, associados a marcas de luxo do mundo da moda, por exemplo. “Na semana passada reunimos com uma marca e temos quatro ou cinco que já manifestaram interesse.” Uma delas é a Armani, com a qual os responsáveis mantiveram “várias conversas”.

Ainda no segmento do luxo, os donos da Comporta estão a finalizar as negociações com “um campeão mundial de golfe”, que dará o nome a uma academia. No imediato, as obras que se seguem são sobretudo de infraestruturas, como arruamentos, redes pluviais e esgotos, seguindo “o bom exemplo da Quinta do Lago”. Segue-se a construção de uma clubhouse e o desenvolvimento da zona comercial, que terá lojas e restaurantes mas também uma componente cultural. “Temos um lote só para isso. É provável que nos primeiros tempos tenha pouca procura, tal como o campo de golfe, mas vamos assumir a responsabilidade.”

O Ronaldo dos imóveis

A par dos trabalhos na Comporta, a Vanguard está em vias de avançar para outro mega investimento, de 250 milhões de euros. O projeto fica próximo de Lisboa e prevê a construção de casas e escritórios. “Estamos bastante avançados. Pedimos estudos específicos a várias consultoras sobre cada um dos segmentos, que já foram entregues e estão agora a ser avaliados”. A concretizar-se, será o maior investimento da promotora a seguir à Comporta.

A crescer em Lisboa está também a torre Infinity que é, de acordo com a promotora, o maior edifício residencial em construção no país. Dos 195 apartamentos que estão a nascer em Campolide, 95 estão reservados, incluindo o imóvel mais caro do edifício, um T6 duplex com sete casas de banho, que custa mais de quatro milhões de euros. Segundo José Botelho, 90% dos compradores são portugueses, e há inclusive “casos de famílias inteiras que se vão mudar para a Infinity”.

Os apartamentos da Infinity não vão, no entanto, bater o recorde que a Vanguard estabeleceu com a venda do apartamento mais caro de sempre em Portugal a Cristiano Ronaldo, por quase 8 milhões de euros. O edifício Castilho 203, “o melhor alguma fez feito na cidade”, ainda tem apartamentos à venda, que os promotores querem apenas pôr no mercado quando o prédio estiver destapado, de forma a valorizar ainda mais o metro quadrado.

Na zona de Lisboa, a Vanguard está ainda a desenvolver o projeto Foz do Tejo, um investimento de 220 milhões que vai dar origem a 450 casas no concelho de Oeiras. O projeto faz parte da carteira de um fundo imobiliário controlado pela empresa de José Botelho e Claude Berda, e gerido pela Insula Capital, que também é detida a 30% pela Vanguard. “Há muitas famílias, nomeadamente brasileiras, que demonstraram interesse em participar no desenvolvimento do projeto comprando ações do fundo. Este tipo de investimento interessa às famílias porque corrermos todos o mesmo risco e há uma estrutura profissional que gere os negócios”.

A sul, os donos da Comporta preparam-se para abrir, na primeira semana de março, as pré-vendas no projeto Bayline, um complexo de 256 apartamentos em Armação de Pêra que já conta com 600 potenciais interessados. “Até ao fim do ano deveremos ter tudo vendido”.

O otimismo do diretor da Vanguard contrasta com o retrato que traça sobre o setor imobiliário em Portugal. Apesar de não estar preocupado com o limite aos vistos gold, pela “pequena expressão que têm no mercado”, o responsável critica a “perceção errada” que existe sobre o contributo do setor para a economia. “É dos setores que mais impostos paga em Portugal. Na Grécia, por exemplo, as obras de reabilitação não pagam IVA. Nós não vemos as empresas de construção com grandes margens de lucro. A soma da taxação altíssima com o custo dos terrenos e a burocracia faz com que as casas sejam caras”, e que os portugueses tenham dificuldade em pagá-las.

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