Brexit

Acordo para o brexit com pouco impacto para Portugal

(REUTERS/Kevin Coombs)
(REUTERS/Kevin Coombs)

O acordo existe, mas ainda tem que passar pela geometria variável de Westminster que, pela quinta vez na sua história, abre a um sábado.

Os avanços e recuos foram muitos e custaram o lugar a dois primeiros-ministros britânicos, a começar por David Cameron, o “pai” do imbróglio em que a segunda maior economia da União Europeia entrou no dia 24 de junho de 2016, no dia a seguir ao referendo. Depois foi Theresa May que resistiu no cargo 1107 dias, acabando por sucumbir a três derrotas no Parlamento ao não conseguir fazer passar as versões que propôs para o Brexit. E o processo ainda está dependente do que acontecer hoje.
Boris Johnson está otimista, mesmo que não tenha garantido o apoio da maioria dos deputados e pode enfrentar alguns rebeldes dentro da bancado do Partido Conservador. Ontem, intensificou a operação de charme junto dos deputados, tendo em conta o rude golpe do Partido Democrático Unionista da Irlanda do Norte (DUP) que rejeitou em absoluto o acordo conseguido com a União Europeia, deixando incerto o resultado da votação.

Todos os cenários ainda são possíveis e Johnson acredita que pode convencer os 28 eurocéticos Conservadores – conhecidos como os Espartanos – que chumbaram o acordo de Theresa May, nas suas diversas versões e ainda arregimentar alguns Trabalhistas, apesar de o líder Jeremy Corbyn ter rejeitado o acordo. Também pode tentar os 23 independentes.

Westminster é um parlamento com uma formação de geometria variável e tudo pode acontecer. E no pior dos cenários pode acontecer um chumbo, conduzindo a um brexit sem acordo. Neste caso, o primeiro-ministro (ou quem o substituir) é obrigado, por lei, a pedir uma extensão de três meses até 31 de janeiro de 2020.

Infografia: Dinheiro Vivo

Infografia: Dinheiro Vivo

Mas ontem, o presidente francês, Emmanuel Macron, deixou claro que o acordo é para cumprir e que não há lugar a adiamentos. “Julgo que não deve ser concedida uma nova extensão do prazo”, declarou aos jornalistas. “Agora devemos fechar este acordo, prosseguir as negociações sobre as relações futuras e acabar com isto.” E no dia anterior, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker também tinha avisado que era agora ou não havia mais extensão do prazo. Mas há uma porta entreaberta, pelo menos na visão do presidente do Conselho Europeu. Donald Tusk afirmou que “a bola está do lado do Reino Unido. Não sei qual será o resultado do debate da Câmara dos Comuns. Mas se houver um pedido para uma extensão [do prazo], consultarei os Estados-membros para perceber qual é a reação”, afirmou na quinta-feira, depois de selado o acordo.

Efeitos limitados em Portugal
Os efeitos de uma saída ordenada do Reino Unido da União Europeia – o chamado soft brexit – são difíceis de contabilizar, porque não há precedentes. Todas as instituições que trabalharam em cenários apontam para um choque negativo mais profundo no Reino Unido do que do lado de cá do Canal da Mancha. E a proposta negociada por Johnson parece ter um impacto mais devastador do que a proposta da antecessora, Theresa May.

De acordo com a organização independente The UK in a Changing Europe, o impacto negativo nas trocas comerciais entre os dois blocos económicos “rouba” 2,5% ao rendimento per capita dos britânicos, face à proposta de May (1,7%), o que representa menos 900 euros. Todos os quatro cenários traçados por esta organização, apontam para uma situação pior do Reino Unido fora da UE.
Mas também foram desenhados cenários para os países europeus parceiros do Reino Unido, incluindo Portugal. O impacto negativo no rendimento per capita é residual, ficando abaixo de -0,5%. A Irlanda é o país mais castigado, com uma redução do rendimento per capita idêntico ao do Reino Unido.

O que vendemos e o que compramos?
O Reino Unido é o quarto maior cliente das exportações portuguesas, mantendo esta posição desde 2015. Os britânicos ocupam o oitavo lugar como fornecedores da economia nacional, tendo perdido peso nos últimos dois anos.

De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística citados pela AICEP, no ano passado, as vendas ao Reino Unido somaram mais de 3,6 mil milhões de euros. Desde janeiro até agosto deste ano as exportações nacionais acumularam vendas superiores a 2,3 mil milhões de euros, ligeiramente abaixo do valor conseguido nos primeiros oito meses do ano passado.

O mercado britânico representou 6,3% do total das exportações do país, mas tem perdido peso desde 2015.

Portugal já não vende apenas vinho do Porto para os ingleses e importa lã. Já estamos longe dos tempos da vantagem comparativa de David Ricardo. Entre os principais produtos estão as máquinas e aparelhos, os veículos e outro material de transporte, vestuário e metais comuns. Nos primeiros dez principais produtos figuram ainda os têxteis e o calçado.

 

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