a vida do dinheiro

Adelino Costa Matos. “Ensino tem de ser mais adaptado à realidade das empresas”

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O presidente da ANJE alerta que a falta de recursos e de capital humano tem sido crítica para a indústria portuguesa.

É desde o início do ano presidente da Associação de Jovens Empresários (ANJE). Adelino Costa Matos, de 35 anos, é licenciado em gestão e lidera o setor das energias renováveis num grupo familiar de metalomecânica.

Portugal tem estado em rota ascendente na economia e no turismo e com uma aposta clara do governo no empreendedorismo. Isso nota-se no terreno ou ainda não passou da teoria?

Nota-se no terreno, até pelos dados estatísticos do ano passado em relação à criação de novas empresas. E mesmo os dados da ANJE, com o acompanhamento que temos feito nos últimos anos, mostram uma maior atividade no empreendedorismo e a aposta no setor. Por outro lado, há também muitas startups a terem uma longevidade superior e inclusive a passarem para estágios de scaleups, ou seja, com um crescimento significativo. Eu diria que esta aposta foi muito bem feita e está a trazer bastantes frutos para o país.

Portanto, mais empresas, mais dinheiro a circular e mais casos de sucesso?

Sem dúvida.

A chegada de investidores estrangeiros, apesar de benéfica, também poderá de alguma forma esmagar, ou pelo menos ameaçar, os pequenos empresários portugueses?

O investimento estrangeiro pode até ser complementar aos pequenos empresários portugueses. Primeiro terão, obviamente, perspetivas de negócio e de mercado diferentes. E depois podem ajudar a que os próprios setores e as empresas de menor dimensão possam estar interligados a estes novos investidores de grande potencial, com uma perspetiva global, que é o que as empresas portuguesas também têm que ter. Esta complementaridade pode ser bastante interessante para o tecido empresarial português.

Sente esse investimento a chegar, no dia-a-dia?

Sentimos. Temos visto, por exemplo a norte, uma presença industrial bastante forte. Temos visto também empresas multinacionais a deslocalizarem os seus centros de competência e inovação para Portugal, trazendo muito conhecimento. Estas unidades são o coração de muitas destas empresas, e é obviamente com muito agrado que as vemos a escolher o país para se localizarem. Isto traz outro tipo de dificuldades. A economia tem de se ajustar a estes novos centros de competência, nomeadamente ao nível de qualificações.

Quais são as maiores preocupações que os associados da ANJE costumam trazer-lhe?

Nós temos uma abrangência bastante grande. Tanto temos um associado que quer criar a sua própria empresa e está numa fase bastante inicial desse projeto – portanto tem mais dores de burocracia para como criar a empresa, de apoio jurídico, de apoio administrativo, etc. – como temos outras empresas já com alguma história, já num estágio diferente. Nessas, claramente, temos visto um grande problema nos últimos meses relacionado com a qualificação dos colaboradores portugueses e, por outro lado, a falta de recursos e capital humano. Tem sido crítico para que estas empresas tenham um grau de crescimento agressivo.

Referiu a questão da burocracia. Está melhor ou continua a ser um entrave grande para as empresas portuguesas?

A burocracia está bem melhor do que estava há uns dez ou quinze anos. No entanto, é importante tudo o que puder ser feito para facilitar a criação de empresas. É preciso haver uma perspetiva global. Não basta poder criar uma empresa em 24 horas, se a burocracia e todos os procedimentos não estiverem alinhados com esse objetivo.

Falou também na questão do pessoal qualificado. Há áreas que estão a ter pouco investimento na educação para suprir as necessidades das empresas, é isso?

Eu acho que há duas componentes, interligadas mas distintas. Por um lado, há falta de recursos, sobretudo de engenharia, na geração de novos licenciados, perante o crescimento económico que estamos a ter. Há escassez de licenciados neste setor. Por outro, numa vertente mais industrial, existem falhas graves, ao nível da indústria, de pessoal não tão qualificado. Isto tem muito a ver com a estratégia que temos para o ensino na sua globalidade. Foi dada prioridade ao Ensino superior e, na minha opinião, muito bem, mas com uma grande abrangência de licenciaturas, muitas delas com pouca saída profissional. Isso fez com que os jovens profissionais que saem das escolas técnicas tenham decrescido imenso. E quando a própria indústria está a crescer a um ritmo bastante grande, a necessidade sem resposta por estes recursos profissionais é efetivamente um problema.

Vê essa questão a ser resolvida?

O atual governo tem noção de que este problema existe e que esta terá que ser uma prioridade futura. Eu próprio já transmiti isso. Acho que tem que existir uma estratégia clara para o futuro do ensino nacional e que seja mais adaptado à realidade das empresas e da indústria e às necessidades que efetivamente temos. Acho que é isso que tem de ser trabalhado.

Falando no governo, João Vasconcelos foi um acérrimo defensor do empreendedorismo. Acha que a nova secretária de estado, Ana Lehmann, vai ter prioridades diferentes?

Eu julgo que não. Acho que a secretária de Estado Ana Teresa Lehmann, apesar de só ter entrado agora como secretária de estado, já tem um track record e um conhecimento bastante profundo da economia, das empresas, dos empresários, das startups. E sei que tem um carinho especial por esta vertente, portanto eu diria que vai continuar a fazer um excelente trabalho.

Como é que tem assistido a esta transição? Tem sido pacífica?

Sim. Até pela postura que tinha o secretário de estado João Vasconcelos, que obviamente deu bastante a este setor e a esta área. Mas também a própria Ana Teresa Lehmann sabe aproveitar o que de melhor foi feito, e por isso que está a seguir essa mesma linha. Acho que tem toda a condição para continuar a suceder e a apoiar os jovens empresários e as empresas.

Temos a Web Summit à porta pela segunda vez em Portugal. Passado um ano viu resultados concretos da primeira edição?

Vi, no aspeto em que Portugal, para além de estar na moda, está também no radar dos investidores. E a Web Summit claramente foi um marco importante para que isto acontecesse. Não só despoletou uma série de atividades internas ao nível do nosso país e uma atratividade bastante interessante ao nível dos investidores. A própria ANJE tem desenvolvido alguns programas, muito focados nas empresas – startups e scalups – não só tecnológicos como da componente industrial. O tecido empresarial nacional ainda é muito industrial e é importante interligar as startups tecnológicas com as industriais e nós fazemos esta interligação, através do nosso projeto “Scaleup Growth Champions”, em que trazemos vários investidores estrangeiros. E com todo este ambiente da Web Summit, há um contexto e uma substância bastante superior àquilo que existia anteriormente.

E qual é a sua expetativa em relação a esta edição? O que é que pode trazer?

Esta edição tem que complementar aquilo que foi feito no ano passado. Em 2016 foi uma espécie de surpresa, um primeiro evento no nosso país para potenciar todo este setor. Acho que este ano tem de ser de mais consolidação, no aspeto em que já todos entendemos o que é o evento, que tipo de investidores traz, qual é o melhor formato inclusive para os atrair e para as empresas portuguesas se conseguirem mostrar. Acho que este segundo evento agora claramente vai complementar aquilo que se fez no ano passado e também consolidar a mesma postura de atratividade do nosso país para os investidores.

Disse que o tecido empresarial e o empreendedorismo português é muito industrial, e não tanto tecnológico. A Web Summit é mais tecnológica. Acha que faltam eventos em Portugal mais virados para as novas empresas do setor da indústria?

Diria que sim. É um pouco também essa a missão da ANJE . Nós temos programas de aceleração e incubação muito dedicados a empresas tecnológicas, mas também com este “Scaleup Growth Champions”, tentámos juntar transversalmente o que de melhor se faz no nosso país, com empresas já com uma vertente de crescimento significativa. Efetivamente existe uma lacuna de objetividade no aspeto das startups e scaleups nacionais e a ANJE, através deste programa, tentou juntar dez empresas tecnológicas com dez empresas tradicionais, com ambas a fazerem o mesmo programa e transmitir conhecimento entre si. É muito importante focarmo-nos na realidade do nosso tecido empresarial e como é que, com esta realidade, a conseguimos interligar a uma nova tecnologia e a um novo pensamento tecnológico. Acho que é isto o mais importante e o que estamos a tentar fazer na ANJE.

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