Banco de Portugal

Adiamento de grandes obras até 2019 penaliza economia este ano

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal. Fotografia: João Manuel Ribeiro/Global Imagens
Carlos Costa, governador do Banco de Portugal. Fotografia: João Manuel Ribeiro/Global Imagens

Expansão esperada do investimento cede de 5,8% para apenas 3,9%. Investimento público fica muito aquém do prometido, diz Banco de Portugal.

O adiamento de “grandes obras de infraestruturas” — algumas barragens que foram suspensas até 2019, pelo menos — vai penalizar fortemente a evolução do investimento previsto para este ano. Isto vai condicionar o crescimento económico de 2018, que assim se mantém nos 2,3%, avançou esta quinta-feira o Banco de Portugal (BdP), no novo boletim económico.

Ou seja, o desempenho da economia podia ser melhor que 2,3% este ano não fosse o impasse dos investidores. O Estado também está a contribuir para esta travagem, mostra o estudo do banco central.

“A desaceleração perspetivada para o investimento em construção em 2018, após um crescimento significativo em 2017 (8,3%), reflete, em parte, o impacto do adiamento de trabalhos em algumas grandes obras de infraestruturas”, explica o BdP.

Neste domínio do investimento, o BdP destaca uma forte travagem no investimento público em 2018. “O investimento público apresentou no primeiro semestre um crescimento consideravelmente abaixo do esperado para o conjunto do ano”.

“No que se refere às rubricas de capital, o investimento [público] apresentou um crescimento muito aquém da estimativa para o conjunto do ano (6,3% que compara com 28,7%). Este resultado estará associado a uma execução abaixo do previsto no que respeita a fundos comunitários, com reflexo também na receita de capital”.

“Com efeito, a receita de capital apresentou uma queda, que contrasta com o forte crescimento projetado para o conjunto do ano, mesmo ajustando pelo impacto pontual da recuperação de uma garantia concedida ao Banco Privado Português”, acrescenta o banco central no novo estudo.

Com o adiamento de grandes obras, a construção acabou, necessariamente, por ser “a componente que mais contribuiu para a desaceleração” do investimento fixo total. A travagem sentida na construção em 2018 “estará influenciada também pelo efeito base do forte aumento das obras públicas em 2017”.

“O crescimento deste segmento na primeira metade de 2018 situou-se em 2,7%, após 7,3% na segunda metade de 2017, num quadro de melhoria da confiança no sector”. Acresce que o investimento em habitação “abrandou neste período, refletindo parcialmente as condições meteorológicas adversas no primeiro trimestre do ano”, marcado por meses de chuva intensa.

Da mesma forma, “o investimento em máquinas, equipamentos e material de transporte “apresenta uma taxa de crescimento elevada mas inferior à registada no ano anterior, num contexto de expectativas de crescimento mais moderado da procura global e de maiores níveis de incerteza prevalecentes a nível externo”.

Exportações revistas em baixa, consumo privado em alta

O ambiente político internacional mais conturbado e incerto parece estar já a limitar as exportações nacionais, mas a reposição de rendimentos, o aumento do salário mínimo e o descongelamento gradual de algumas progressões salariais na função pública estão a permitir dar mais gás ao consumo privado, que assim compensa a referida erosão na expansão do investimento e nas vendas ao estrangeiro, diz o Banco governado por Carlos Costa.

No capítulo das exportações, o BdP previa há seis meses um aumento de 5,5% este ano, que agora é revisto em baixa para 5%.

“Num contexto de abrandamento da procura externa dirigida à economia portuguesa, estima-se que as exportações de bens e serviços cresçam 5% em 2018 (menos 0,5 pontos percentuais do que o projetado em junho), depois de terem aumentado 7,8% em 2017. São esperados novos ganhos de quota de mercado das exportações portuguesas, ainda que inferiores aos observados em 2017 e concentrados em setores como o turismo e os automóveis”, refere o supervisor.

Em compensação, verifica-se um maior “dinamismo do consumo privado” suportado pelo crescimento “forte” do rendimento disponível real das famílias, níveis elevados de confiança dos consumidores e condições de financiamento favoráveis, sobretudo por via nas fortes subidas do crédito ao consumo. O crédito a particulares está “especialmente dinâmico” no segmento do consumo, observa o Banco.

Assim, o consumo privado deve avançar 2,4% em 2018 em vez dos 2,2% projetados há seis meses.

No mercado de trabalho, a taxa de desemprego foi revista em baixa de 7,2% da população ativa (projeção de junho) para 7% agora. Mas como vai haver menos investimento e exportações, a criação de emprego ressente-se: em vez de crescer 2,6%, vai aumentar 2,3%.

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