climate change summit

Adrian Bridge: “Há menos para vender e mais custos para produzir”

(Pedro Correia/Global Imagens)
(Pedro Correia/Global Imagens)

O impacto das alterações climáticas, sobretudo no vinho, vai trazer Al Gore ao Porto, à Climate Change Summit, a convite de Adrian Bridge.

Com ou sem declarações polémicas de Donald Trump, as alterações climáticas estão à vista de todos, como aliás se viu nas temperaturas registadas em Portugal ao longo da última semana. Estas mudanças bruscas afetam vários setores de atividade, em especial a agricultura. A produção de vinho é core para a The Fladgate Partnership, motivo pelo qual organiza, de mãos dadas com The Porto Protocol, o The Climate Change Summit, cujo orador principal será Al Gore. O Dinheiro Vivo é media partner económico do evento que decorre de 5 a 7 de março no Porto.

Qual é o grande objetivo da conferência deste ano e da temática do Climate Change? O que para si seria uma grande vitória para cumprir o objetivo?
Este evento tem duas fases: primeira fase focada em soluções é o mais aberto porque fala dos impactos possíveis, na segunda fase vamos ouvir de um global leader como o Al Gore.

No final gostaria que saísse daqui um plano de ação para minimizar as alterações climáticas nos vinhos?
O objetivo, realisticamente, e para quem está dentro do setor de vinhos, é partilhar soluções concretas que já estão implementadas em várias partes do mundo, seja na gestão da água na África do Sul, seja pela adega do futuro construída por Roger Bolton na Califórnia. E outras ideias das áreas das embalagens, logística, até à prateleira e ao consumidor final, ou seja, a ideia é provocar o setor de vinhos e pô-lo a par deste assunto. Há soluções que se podem utilizar e aplicar. Se tudo o que sair da conferência alterar a maneira como se faz hoje, então será um sucesso. Depois o evento vai mostrar que estas soluções estão dentro de tudo: do indivíduo, da empresa, da comunidade, do país, ou seja, não se pode esperar que as novas tecnologias resolvam tudo. Todos nós temos de partilhar ajuda e responsabilidade.

Do ponto de vista do impacto das alterações climáticas no vinho, o que o deixa mais preocupado, com impacto na produção, nas colheitas e no produto final?
Especificamente para a nossa região foram realmente complexos nos últimos três ou quatro anos. Com o bom tempo que tivemos esta semana, por exemplo, as plantas começaram em esforço e se a seguir vem frio é problemático para as videiras. Depois, temos o frio de março que pode afetar o ciclo da videira. Aqui no norte agora é verão! O clima hoje mostra bem a dificuldade e a irregularidade e isso vai dar problemas.

O que pode acontecer ao vinho, face ao que conhecemos hoje?
O ano de 2018 foi complexo, porque o início do ano foi muito frio, depois vieram as doenças e depois houve uma fase de muito calor. A produção no Douro foi 20% mais baixa. A quantidade é razoável, mas é difícil para qualquer agricultor quando a produção é menor e os custos são maiores, com mais investimentos. Há menos para vender e mais custos para produzir e estes esforços não ajudam e fragilizam a realidade das vinhas do Vale do Douro. Por outro lado, com as alterações climáticas, a necessidade de fazer mais aplicação de químicos tem aumentado a pegada de carbono.

Que recado gostaria de fazer chegar a Donald Trump, que continua a recusar o efeito das alterações climáticas?
Barack Obama disse na conferência do ano passado que, independentemente da opinião de Donald Trump, as alterações climáticas existem e estão bem à vista. E a solução não vem só com o governo, vem de todos. O mundo é o mesmo para todos, para os nossos filhos e netos, independentemente do pensamento de um indivíduo. As alterações climáticas existem e precisamos da atuação de todos os cidadãos do mundo.

Qual é a mensagem que gostaria que Al Gore deixasse?
Ele está envolvido neste assunto há mais de duas décadas, com o documentário Inconvenient Truth. Ele tem as suas preocupações e tem iniciativas próprias com a sua equipa, a nível mundial. Vai sublinhar a importância The Porto Protocol, que é uma forma de ajudar a minimizar as alterações climáticas, assente na ideia de partilhar ideias, informação e soluções e que são possíveis de implementar imediatamente. Partilhará também exemplos desses, mostrando que nem sempre é preciso investigar mais, basta aplicar e seguir bons exemplos que já são reais.

Que resultados destaca da edição do ano passado?
Recebemos 2200 pessoas. Lançámos o The Porto Protocol e agora temos 130 assinaturas de empresas que estão ligadas com este protocolo e que começaram a partilhar as suas soluções. Estamos numa fase em que as reações acontecem relativamente rápido. Neste ano vão chegar visitantes de todas as partes do mundo, o envolvimento internacional é muito forte e Portugal já tem alguma liderança neste tema, isto para mim é uma celebração. Afinal, o nosso país também tem ambições elevadas, em termos ambientais, até 2050.

Que retorno a Fladgate Partnership espera?
O retorno é começar a combater este problema. Este investimento, do ponto de vista da Porto Taylor’s, é pelo futuro do nosso setor, não é por outras expectativas especificamente. Esta é uma empresa com 337 anos de história. Obviamente, encara a realidade a longo prazo e entende que é importante o que vai deixar para as futuras gerações. Se podemos todos contribuir um pouco, então vale a pena este investimento. O Porto Taylor’s tem estado muito envolvido neste assunto nos últimos 20 anos dentro da empresa e agora decidimos falar para fora da empresa, em vez de só partilharmos a informação com os 74 agricultores do nosso grupo agora partilhamos com uma audiência maior.

Qual o investimento que faz neste evento?
Obviamente é alto, incluindo o suporte necessário. Primeiro importa sublinhar que o The Porto Protocol é uma fundação sem fins lucrativos e está suportada pelos eventos e pelos patrocinadores. A realidade é que investimos centenas de milhares de euros neste assunto e, do meu ponto de vista, é uma maneira de semear para o futuro. Quero que outras empresas e patrocinadores se juntem à iniciativa. Sozinho não é possível fazer tudo.

Como estão a decorrer as vendas de bilhetes? Os mais baratos, para estudantes, custam 615 euros…
As vendas internacionais são muito boas, o mercado nacional reage mais em cima da hora. Temos os nossos patrocinadores que têm bilhetes e que oferecem a clientes e parceiros. A minha expectativa é de que teremos a alfândega cheia, temos um bom apoio do mercado espanhol, sobretudo da Galiza, mas ainda há bilhetes disponíveis. Eu entendo que se o preço fosse mais baixo era mais fácil para muita gente, o problema é o equilíbrio entre os custos de alugar o espaço e o número de pessoas. Além disso, o objetivo do evento é também angariar financiamento para as próximas fases do The Porto Protocol, fundação para a qual a Taylor’s fez uma contribuição de 250 mil euros.

Afros Shah é um dos exemplos de como a iniciativa privada pode fazer a diferença no ambiente. Com este orador vai ser feita uma recolha de lixo das praias do Grande Porto?
O Afros Shah é o responsável pela limpeza de todos os lixos e plásticos de Mumbai, mas aqui vai ser difícil organizar essa limpeza, porque temos uma dificuldade: não encontramos aqui praias cheias de lixo. A realidade é que as praias estão em relativas boas condições.

Já pensou na summit do próximo ano? Quem é que gostaria de ter cá em 2020?
O meu desporto é montanhismo e é mais fácil atacar um pico de cada vez. Primeiro é preciso chegar ao pico desta montanha e depois posso pensar no próximo pico. Estou mais preocupado com a próxima semana,… quero que o The Porto Protocol tenha as suas iniciativas e quero que os eventos possam continuar a dinamizar a força deste.

O que é que está a faltar ao The Porto Protocol para andar mais rápido?
A conferência para a semana vai ajudar bastante. Estará no foco para os media de todo o mundo e toda a gente fala do assunto. Avança mais rápido assim do que sozinho.

Como faz a ponte entre a produção de vinho do Porto e o hotel The Yeatman, do seu grupo, quanto ao tema ambiental?
O nosso grupo está envolvido com este assunto há muitos anos. Quando construímos o The Yeatman investimos cerca de três milhões de euros na parte da sustentabilidade – a água das nossas redes é aquecida por painéis solares, a recolha de água dos banhos reutilizada para o funcionamento das sanitas, há compostagem de lixo da cozinha e até separação de resíduos dentro dos quartos. Este assunto para nós não é novidade, o que é novo é que decidimos fazer o lançamento do The Porto Protocol e angariar mais apoio e batalhar pelas nossas ideias e noutras soluções. Quero novas ideias para o nosso negócio e estas ideias vêm de outras pessoas e de outras partes do mundo – não só ligadas com vinho mas com outras indústrias e que nos podem apresentar boas soluções.

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