AEP pede "coragem política" para majorar apoios à internacionalização

Em ano de pandemia, houve que recorrer às feiras e missões virtuais, agora é preciso promover "o regresso ao terreno", defende Paulo Vaz, administrador executivo da AEP para a área dos Negócios

A Associação Empresarial de Portugal (AEP) quer que os incentivos à internacionalização sejam majorados, de modo a incentivar as empresas a "voltarem ao terreno" e a aumentarem a sua base exportadora. Paulo Vaz, administrador executivo da AEP, lembra que essa majoração aconteceu já na crise de 2008 e, depois, na de 2011, com "grande êxito", não só levando mais empresas a participar em feiras no exterior e a diversificarem mercados. Uma dinâmica "que se manteve mesmo quando os incentivos acabaram", garante. Com a pandemia de covid-19, é tempo de reeditar a medida, designadamente na reformulação do Portugal 2020 que, apesar de ter as verbas todas cativadas, tem uma execução aquém dos 50%. "Há ainda muito a fazer para rever e alocar verbas, e se há incentivos reprodutivos são os apoios à internacionalização. Há estudos que comprovam que cada euro investido na internacionalização multiplica por seis", defende.

Em sede de Orçamento do Estado para 2021, o Governo propõe-se já conceder um benefício fiscal às empresas que estejam envolvidas em projetos conjuntos de promoção externa. Uma boa medida, mas Paulo Vaz diz que é preciso muito mais, sobretudo à luz do novo Programa Internacionalizar 2030, aprovado em julho, e que pretende que metade da riqueza nacional, no final da década, advenha das exportações. "Não podemos chegar a estes números com boas intenções. Tem que haver claramente um investimento nas empresas, e nas associações que promovem os projetos conjuntos de internacionalização, para que isto seja conseguido", refere o responsável. Os projetos conjuntos cobrem 50% das despesas de presença em feiras e missões empresariais, mas o objetivo seria majorar essa parcela para os 75%, a par da inclusão no bolo de outras despesas que agora não são elegíveis, como as viagens, os investimentos nas coleções, no marketing ou nos estudos preparatórios.

Tempos de exceção exigem "coragem política"

É completamente diferente levar amostras de confeção, que podem seguir numa mala, de levar bens de equipamento que exigem uma semana para o transporte e respetiva montagem à chegada", diz Paulo Vaz, lembrando que as regras atuais têm apenas "pequenas diferenças" entre o custo do hotel e as viagens na Europa e fora dela. "Fazer uma feira em Marrocos ou na Austrália é completamente diferente e isso deveria ser contemplado", frisa.

O objetivo é que estas medidas possam vir a ser tidas em conta já na reformulação do que resta do Portugal 2020, mas também no Plano de Recuperação e Resiliência e no futuro quadro comunitário de apoio. "Muitas vezes usa-se a desculpa de Bruxelas para não alterar regulamentos, mas, ao contrário dos auxílios de minimis, que teremos de esperar pelo fim de 2021, quando os regulamentos comunitários vierem a ser analisados, o RECI (Regulamento Específico do Domínio da Competitividade e Internacionalização) é uma adaptação dos regulamentos comunitários à realidade nacional, por via de uma portaria. Basta a vontade política de quem governa para fazer essa alteração", defende Paulo Vaz.

Para o dirigente, os tempos de exceção que atravessamos "exigem coragem política". Este é um apelo que tem vindo a ser feito pelas associações empresariais junto do Ministério da Económica, da AICEP e do programa Compete, e para a qual Paulo Vaz espera que haja "sensibilidade", muito em breve. "Acha que os espanhóis estão preocupados com Bruxelas?", atira.

O Plano de Recuperação e Resiliência nacional também não convence Paulo Vaz. "O grosso do dinheiro vai para a iniciativa pública. Não estamos contra as questões de natureza social, ninguém de boa-fé discorda disso, mas falta equilíbrio da distribuição das verbas. É preciso não esquecer que é a iniciativa privada que promove o crescimento do emprego e da economia que gera receitas para o Estado", sustenta.

Desde 1990, que a AEP se dedica, de forma sistemática, ao apoio à internacionalização, tendo realizado, individualmente ou através de parcerias com outras entidades, mais de 500 ações em mercados externos. Em 2019, foram 34 as missões empresariais, presença em feiras ou organização de missões inversas em 30 mercados distintos, envolvendo 258 empresas. Este ano, o calendário previa a passagem por 33 mercados, num total de 41 ações, sendo 23 feiras e 16 missões empresariais.

Com a pandemia, também a área de Negócios da AEP, que inclui a internacionalização, foi obrigada a reinventar-se. Designadamente, por via de digitalização forçada. Tem vindo a realizar missões virtuais, uma experiência que iniciou com o Peru, Colômbia, Chile e Brasil, "com resultados muito promissores" para as empresas, e está agora a coordenar ações virtuais para os Balcãs, os países nórdicos e Marrocos. E tem no horizonte realizar nova missão virtual à América Latina, abordando mercados como o Panamá, Costa Rica, Guatemala, Honduras e Comunidade do Caribe, e à Ásia, bem como a participação de empresas nacionais em modo virtual em feiras como a Medica Dusseldorf ou a FHC Food & Hospitality China.

"Não é a mesma coisa, como é evidente, mas vamos procurando não deixar as empresas sem nenhuma resposta quando procuram novos mercados", diz Paulo Vaz.

O novo mundo digital

A lógica virtual "funciona, mas não substitui" o contacto direto. Mesmo assim, veio para ficar. E, por isso, embora a grande prioridade da AEP para 2021 seja a normalização da atividade internacional, com o regresso às grandes feiras mundiais - que Paulo Vaz acredita que poderá acontecer já no primeiro trimestre do próximo ano -, está também a desenvolver de forma complementar a vertente digital.

"Temos de aproveitar aquilo que a pandemia nos obrigou a desenvolver, como um elemento adicional que complementa a nossa atividade". Sobre a Exponor, uma das áreas que tem sob a sua alçada, Paulo Vaz garante que "continua sem condições" para retomar a atividade. "Realizamos feiras de grande dimensão que não são compagináveis com as regras que hoje são impostas para ter manifestações desta natureza. A EMAF (feira de máquinas, equipamentos e serviços), que adiámos para o ano, tem cerca de 10 a 12 mil pessoas presentes em permanência no espaço. Não é possível, não é viável", defende.

Mas Paulo Vaz acredita que, em 2021, com a chegada da vacina e de "testes rápidos, baratos e de universal", será possível reativar a confiança e a economia. "Temos de estar preparados para encontrar as soluções necessárias para reativar eventos, a partir do próximo ano, porque vamos ter que aprender a viver com a covid-19", defende.

Next Challenge Asia é o novo projeto já aprovado e que vai decorrer até 2023

Com o propósito de aumentar as exportações e promover a imagem de Portugal no Japão, Coreia do Sul e na China, a AEP tem já em preparação um novo projeto, o Next Challenge Asia, que vai decorrer até 2023. Com um investimento elegível aprovado de 986 mil euros, esta iniciativa pretende reforçar a internacionalização das pequenas e médias empresas das fileiras agroalimentar, casa, infraestruturas (água e energia) e materiais de construção. Nesta fase, a AEP admite não conseguir, ainda, avançar com um número exato de empresas que poderão ser abrangidas pelo Next Challenge Asia, mas estima, tendo em conta projetos semelhantes, que possa envolver cerca de uma centena de empresas.

O Porto foi a terceira cidade no mundo a receber uma Exposição Universal, em 1865. Uma iniciativa da Associação Industrial Portuense, hoje AEP, que pretender aproveitar a presença de Portugal na Expo Dubai, no próximo ano (um dos muitos eventos que deveriam ter acontecido em 2020 e que foram adiados para 2021 por causa da pandemia), para lembrar esse facto histórico. "Das primeiras exposições universais , o Porto recebeu a quarta. Primeiro foi Londres, depois Paris, voltou a Londres e depois foi o Porto. E ninguém se lembra disso", diz Paulo Vaz.

O administrador executivo da AEP para a área de Negócios reconhece que esta opção, de ajudar a divulgar a existência de uma exposição universal no Porto no século XIX, não é uma decisão que caiba à AEP, mas assume que gostaria de recolher os consensos necessários para o fazer. "Não depende só de nós, tem que haver muitos parceiros que estejam envolvidos nisto, mas era um desafio muito interessante para enfrentar", frisa.

A destruição do Palácio de Cristal, construído para receber a Expo do Porto e mais tarde demolido, é uma das razões que pode ajudar a explicar o desconhecimento deste tema. E, por isso, deixa um recado ao atual e futuros autarcas na região: "Reconstruir o Palácio de Cristal original ficaria simpático a qualquer presidente. Não é impossível e dignificaria imenso o país", defende.

Portugal é um dos 192 países que vão marcar presença na Expo 2020 Dubai, que vai decorrer de 1 de outubro de 2021 a 31 de março de 2022 nos Emirados Árabes Unidos. E a AEP quer ter um papel "particularmente importante" em dar "visibilidade do tecido industrial português", num espaço onde haverá "muitos milhões de visitantes a olhar para nós". A AICEP recebe, no final deste mês, o pavilhão português que, do ponto de vista físico, já está construído. Depois, há todo o trabalho de recheio e museológico, com uma área respeitante às "manifestações de natureza corporativa" dos vários setores, na qual a AEP tem interesse. "Serão semanas temáticas, exposições temporárias, conferências, encontros B2B com eventuais clientes, vamos olhar para tudo isso com muita atenção", diz Paulo Vaz.

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