Climate Change Leadership

Afroz Shah. “Não precisamos de dinheiro para amarmos a natureza”

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Afroz Shah liderou a maior operação mundial de limpeza de uma praia, em Bombaim, na Índia. É um dos oradores da Porto Summit, que traz Al Gore ao Porto

Afroz Shah é um advogado indiano que, em 2015, iniciou aquilo que as Nações Unidas garantem ter sido a maior operação de limpeza de uma praia em todo o mundo. A limpeza de Versova, em Bombaim, conhecida como “o lixo do mundo”, começou em outubro de 2015. Começou sozinho, mas todos os dias ganhou novos voluntários. Até estrelas de Bolllywood e políticos se juntaram à iniciativa. Em três anos, foram retiradas mais de 20 mil toneladas de lixo desta praia e Afroz Shah já alargou as suas atividades a outras zonas da cidade, designadamente aos seus rios. Em 2016, foi distinguido com o prémio ONU Champions of the Earth. Participa amanhã na Porto Summit, a conferência do clima integrada na iniciativa Climate Change Leadership, e que será encerrada por Al Gore.

O que o levou a começar a recolher lixo na praia de Versova?
Eu cresci naquela praia. Depois, mudamo-nos para outra zona de Bombaim, longe do mar, e quando me mudei, em 2015, para um apartamento em Versova deparei-me com uma vista que me chocou. Havia um muro de 5,5 metros de depósitos de plástico junto ao oceano ao longo de três quilómetros de praia. Foi a coisa mais horrenda que já vi.

E o que fez?
Como advogado, o meu primeiro instinto foi pensar que devia queixar-me ao Governo, às autoridades autárquicas, eu sei lá. Ou podia simplesmente queixar-me nas redes sociais se fosse hoje, porque à data não andava pelas redes sociais [risos]. Mas acabei por perceber que havia algo de muito errado porque não faltam leis e políticas, o que me levou a questionar o que não estaria a funcionar. E decidi usar aquilo que eu tenho para oferecer, as minhas duas mãos. E comecei a limpar a praia. Hoje continuo a fazê-lo, mas o mais importante é treinar as pessoas para que adotem os princípios da economia circular nas suas vidas. Que se resume, de forma muito simples, a cada um de nós reduzir o lixo que produz. Não use embalagens pequenas se pode usar embalagens grandes. Em tudo, da alimentação à higiene.

Já lá vão quase três anos e meio…
E quase 23 milhões de toneladas de lixo e plástico retirados do oceano.

Como financia essa operação?
Guardo 10% de tudo o que ganho para isto.

E não tem donativos?
Não recebo dinheiro de ninguém para financiar o que faço. A quem me procura digo-lhes que venham contribuir com trabalho. E já consegui chegar a cerca de 70 mil estudantes – todas a semanas algumas centenas deles vêm comigo às minhas ações nas praias ou nas escolas – e a 200 mil cidadãos que consegui envolver no tema da economia circular. E a milhares de voluntários que se juntam sempre que anuncio uma ação de limpeza.

E a indústria?
É suposto que a indústria do plástico implemente sistemas de EPR – extended producers responsability, recolhendo aquilo que lança no mercado. O que sugeri a essas empresas foi que empregassem jovens locais para o fazerem. Asseguramos, assim, o seu direito à subsistência, porque muitos dos voluntários que me acompanham vivem em bairros de lata, e temos as empresas de plásticos a recolher centenas de toneladas de plástico dos oceanos.

Ficou surpreendido com a repercussão que o seu gesto teve na comunidade?
Não, era isso mesmo que eu pretendia. Limitei-me a falar diretamente do coração e quando assim é sabemos que vamos chegar a muita gente. Se se promove o ódio, até se pode conseguir alguns seguidores de início, mas rapidamente os perdemos. Eu limitei-me a por em prática aquilo que na Índia chamamos a filosofia de Mahatma Gandhi, o fundador da minha Nação, e ele ensinou-nos duas coisas, o amor à Humanidade e à Natureza e a juntarmo-nos aos mais pobres. Temos a tendência de olhar para o topo da escada, mas devemos concentrarmos é nos seus patamares mais baixos. Foi sempre como ele viveu. O que significa que só temos de treinar as pessoas, de lhes ensinar a mudarem o seu coração e a sua mente. Não precisamos de dinheiro para amarmos a Natureza.

Que influência teve na sua vida o prémio Champions of the Earth das Nações Unidas?
É uma responsabilidade, obriga-me a fazer mais. Limpar as praias e influenciar outros a fazê-lo é a minha paixão, e quando fazemos o que gostamos não estamos à espera de prémios. Se os recebemos, ficamos muito gratos e percebemos que isso nos dá uma responsabilidade acrescida enquanto líder. Fiquei muito grato, mas teria feito exatamente o mesmo sem a distinção da ONU.

E vai continuar a fazê-lo…
Sempre. Todos os sábados e domingos.

Como é que a sua família vê esta sua paixão?
[Risos] Não sou casado, mas tenho a minha mãe que olhou para mim da primeira vez que eu saí para recolher lixo e perguntou-me ‘Vais limpar o Oceano?’ e eu respondi-lhe que sim. E ela sabia que se eu estava decidido, nada me demoveria. E três anos e meio depois aqui estamos e vamos continuar.

E que comentário faz às políticas ambientais de Donald Trump e à sua decisão de abandonar o Acordo de Paris?
Só sei o que leio nos jornais e vejo na TV, não tenho qualquer conhecimento pessoal e como advogado não consigo pronunciar-me sobre o que não conheço. Diria, apenas, que é muito mau que o líder de um país não preste atenção aos cientistas, é um problema. Mas a administração americana está a trabalhar de forma muito séria no combate à poluição dos oceanos. Já trabalhei com a agência americana NOAA (Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera) quando estive nos EUA e sei que estão a fazer um trabalho fabuloso.

Que mensagem vem deixar ao Porto na conferência do clima?
Aceito poucos convites porque tenho muito pouco tempo livre. Eu prefiro estar no terreno a limpar o planeta do que em conferências e, por isso, quando me convidaram expliquei que só viria se tivesse oportunidade de fazer algum tipo de recolha e é isso que vou fazer com alguns jovens, bem como falar em duas escolas. Gosto de falar com os jovens, eles serão os líderes do futuro. Nós já sabemos tudo sobre a poluição, nascemos no meio da poluição. São os jovens, dos 8 aos 22 anos, que têm de ser ensinados que podem fazer a diferença, que têm nas suas mãos o poder de serem líderes e que devem assumir-se como tal.

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