AHP admite: hotelaria pode ter perdas de 800 milhões até junho

A associação admite que cancelamentos, na ordem dos 50% entre março e junho, pode levar a perdas de 800 milhões de euros para o setor em Portugal.

A Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) realizou uma estimativa da perda de receitas para o setor devido ao novo coronavírus (Covid-19) e, num cenário mais gravoso, a perda de receita pode ascender a 800 milhões de euros.

Dos 70 milhões de dormidas registadas no ano passado, 58 milhões foram na hotelaria nacional. No período de 1 de março a 30 de junho, foram 14,6 milhões de dormidas. Pegando nestes números e aplicando-os a 2020, a AHP, com base numa inquérito que realizou, estabeleceu dois cenários. Se o setor perder menos de 30% das reservas que teve entre março e o final de junho do ano passado, isso vai traduzir-se em menos 4,4 milhões de dormidas e a perda de receita que pode ascender a 500 milhões de euros.

Contudo, num cenário mais grave, com cancelamentos na ordem dos 50% comparativamente ao ano passado, traduz-se numa perda de 7,3 milhões de dormidas, o que significa que a perda de receita pode subir para 800 milhões de euros.

A expetativa dos hoteleiros nacionais é que o turismo à escala global recupere a partir de junho, apanhando assim os meses ainda de verão.

Mais de 350 mil noites canceladas

A associação que reúne os hoteleiros nacionais realizou um inquérito aos associados. Colocou-lhes dez questões para aferir os efeitos da epidemia do covid-19 para o setor. O inquérito foi respondido entre 3 e 9 de março e à medida que os dias foram passando, as respostas foram mudando um pouco. Questionados se tinham cancelamentos devido ao novo coronavírus, a 3 de março, 38% dos inquiridos admitia que tinham tido desmarcações mas sem significado expressivo e 25% admitia que tinha tido cancelamentos acima dos 10%.

No dia 5, na mesma questões, os que tinham cancelamentos acima dos 10% já representavam 36% e os que tinham mas sem significado expressivo localizava-se nos 25%. E 9 de março os números eram ainda mais contrastantes: 41% admitia que tinha tido cancelamentos acima dos 10% e apenas 18% dizia que não tinham expressão.

Até ao dia 9 de março, e com base neste estudo, o setor registou 346 497 noites canceladas. Em Lisboa, os cancelamentos surgem dos seguintes mercados: Itália, China, Reino Unido, Espanha e França. De notar que para a capital, estes não fazem parte do top 5 dos mercados com maior presença. "Lisboa é a que sinaliza um maior registo de números quanto aos que têm cancelamentos superiores a 10%, seguindo-se a região Norte. Ou seja, a região Norte e a região de Lisboa são as que sinalizam o maior volume de cancelamentos entre o período de fevereiro a maio", disse Cristina Siza Vieira, CEO da AHP, na conferência de imprensa.

No Norte, os cancelamentos foram sobretudo de Portugal, França, Espanha, Itália e Reino Unido. O Centro teve também cancelamentos de portugueses e espanhóis, mas também de italianos, chineses e brasileiros.

Menos 20% de receita no final do ano

Raúl Martins, presidente da AHP, admite que no final do ano a hotelaria registe quebras na ordem dos 20% devido à epidemia. "Se pensarmos que na China, o que se passaram foram três meses de aumento de casos e depois começaram a inverter. Se perspectivarmos, quatro meses de impacto do coronavírus - de março a junho, certamente março é ainda com alguma expectativa menos gravosa - teremos uma redução de 50%, que é mais provável que a de 30%, chegaremos ao fim do ano com menos 20% de receitas", admitiu em conferência de imprensa.

Essa quebra na receita vai deixar o setor a braços com uma crise de tesouraria nomeadamente para o pagamento das suas responsabilidades financeiras com os funcionários. "As medidas que o governo colocou à disposição - nomeadamente de lay off simplificado -, podem ser utilizadas pelos hoteleiros, mas as primeiras formas de ultrapassar a situação são a recuperação de horas, férias e inclusivamente podemos passar a ter crédito de horas do trabalhador".

O gestor assumindo que "os hoteleiros querem manter o seu pessoal e querem encontrar soluções", não esconde contudo que pode haver casos de despedimentos e que, para esses, é também necessário "o apoio do governo", no sentido do pagamento dos subsídios de despedimento.

Campanhas

Raúl Martins acredita que, para já, o setor não vai fazer campanhas de baixas de preços. No entanto, quando a situação entrar em inversão esse cenário não é descartar. "Se fizermos campanhas agora com preços mais baixos, vamos ter menos receita. As pessoas que vêm são as mesmas. Numa situação destas, as pessoas não vêm por ser mais barato. No day after, no dia em que houver a inversão, que pensamos que seja em junho, a campanha terá de ser feita".

O responsável admitiu ainda há algumas unidades hoteleiras localizadas nomeadamente no Algarve, cuja abertura estava prevista para este mês e para o próximo, que vão adiar a abertura de portas para junho.

(Notícia atualizada pela última vez às 13:10)

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