Mercado de Trabalho

Ainda há regiões que não recuperaram o emprego pré-crise

Ilustração: André Carrilho
Ilustração: André Carrilho

A agora ministra da Coesão Territorial defendeu que há partes do território onde não vai ser possível recuperar população e atividade.

No início de setembro, a agora ministra da Coesão Territorial escreveu num artigo do Público, que é necessário “assumir que há partes do nosso território onde não vai ser possível recuperar população e atividade económica” e onde coesão territorial significará “gerir o declínio”. E os dados parecem, para já, dar razão a Ana Abrunhosa, que hoje toma posse.

Tendo em conta as estatísticas do segundo trimestre deste ano, ainda faltam mais de 75 mil pessoas para igualarmos a população empregada de há dez anos e meio. É o centro que viu mais pessoas com trabalho a desaparecerem. Entre o final de março de 2009 e o final do mesmo mês deste ano, “desapareceram” 128,7 mil empregados desta região, que abrange os distritos de Aveiro, Viseu, Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Santarém e parte de Lisboa.

A segunda região que mais população empregada perdeu foi a do Alentejo, com menos nove mil pessoas numa década e meia. No norte também se registou uma erosão da população empregada, mas mais modesta, com uma diferença de quatro mil pessoas.

Os ganhadores
Mas também se registou um movimento contrário da população empregada em quatro das sete regiões portuguesas (NUTS II).

À frente está a Área Metropolitana de Lisboa (AML), que conseguiu, em dez anos, subir o número de pessoas com trabalho em mais 48 mil indivíduos, sendo que também aumentou a população em idade ativa (entre os 15 e os 64 anos). A AML conquistou mais de 16 mil pessoas disponíveis para trabalhar, incluindo desempregados.

Na tabela dos que ganharam, segue-se o Algarve que ganhou mais de seis mil indivíduos em idade ativa, passando de 112,3 mil no segundo trimestre de 2009 para 115 mil uma década depois. Uma evolução que poderá estar relacionada com o boom do turismo.

Mas também as regiões autónomas engrossaram o contingente de pessoas disponíveis para trabalhar. Nos Açores são mais três mil pessoas; na Madeira quase cinco mil.

Outra análise para avaliar as declarações da nova ministra da Coesão Territorial é através dos ganhos e perdas da população ativa. Neste caso, apenas 37 dos 308 municípios registaram aumentos no período em análise. Mais uma vez, houve uma erosão de pessoas entre os 15 e os 64 anos no interior, com Alcoutim, no interior algarvio, a registar a perda mais acentuada de população, com um decréscimo de 26,6%. Mas também o Porto (-19,8%) e Lisboa (-17,2%) viram população ativa a “fugir”, que poderá ser explicado pelos elevados preços das casas nas duas principais cidades do país.

Arruda dos Vinhos foi o concelho que, em termos relativos, mais pessoas disponíveis para trabalhar ganhou, com um acréscimo de 17%. De resto, foram os municípios à volta de Lisboa que mais população em idade ativa ganharam em dez anos e meio, onde se incluem Alcochete, Mafra, Montijo. Mas também casos como Santa Cruz, na Madeira (+11,9%), ou Vila de Rei, no distrito de Castelo Branco, com um acréscimo de 10,8%.

Desemprego
Quanto ao desemprego, os dados disponíveis permitem apenas uma análise anual em termos de concelhos, excluindo as regiões autónomas dos Açores e da Madeira, para os quais não existem estatísticas do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). E o resultado do exercício para avaliar as dinâmicas antes e depois da crise económica é claro: há 66 municípios que no final de 2018 tinham uma taxa de desemprego registada nos centros de emprego igual ou mais elevada do que em 2009.
A esmagadora maioria situa-se no interior e com prevalência do norte. Mourão, no distrito de Évora, é o concelho que regista a maior subida da taxa de desemprego em percentagem da população ativa residente em 2018 face a 2009 (6,4%). Segue-se Monforte, em Portalegre (4,4%), Barrancos, em Beja (4,2%), todos no Alentejo. Só depois surgem os municípios no norte e centro do país, encabeçados por Castro Daire (3,2%).

Fonte: Pordata

Fonte: Pordata

“A desertificação do interior parece estar a avançar a um maior ritmo nos últimos anos”, defende Pedro Martins, antigo secretário de Estado do Emprego do primeiro governo PSD-CDS. “Os aumentos muito elevados do salário mínimo poderão explicar parte desta evolução, dado que os preços no interior tendem a ser mais baixos do que no litoral”, conclui.

O professor catedrático da Queen Mary University of London, um dos mais fortes opositores da política de atualizações da retribuição mínima mensal garantida (RMMG), defende que “é possível que com uma política mais cautelosa em relação ao salário mínimo, o emprego em Portugal poderia ter aumentado mais e de forma mais equilibrada entre o litoral e o interior”.

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