Climate Change Leadership

Al Gore. “Brexit? Políticos britânicos são cobardes”

Al Gore, prémio Nobel da Paz e ex-vice-presidente dos EUA
Al Gore, prémio Nobel da Paz e ex-vice-presidente dos EUA

Prémio Nobel da Paz e ex-vice-presidente do EUA participou, esta tarde, na conferência do clima na Alfândega do Porto

O ex-vice-presidente dos EUA acredita que o Reino Unido deveria deixar o povo voltar a pronunciar-se sobre o tema do brexit. Aliás, na Porto Summit, a conferência do clima que hoje decorreu na Alfândega do Porto, Al Gore foi claro e classificou de “cobardes” os líderes políticos britânicos por não permitirem um segundo referendo. E o que têm as alterações climáticas a ver com o tema? Muito. Al Gore mostrou um dos cartazes que mais influência teve na campanha pró-brexit, mostrando uma fila imensa de refugiados, com a frase ‘a UE falhou-nos a todos’ e a intenção do país em recuperar o controlo das suas fronteiras para lembrar que a crise dos refugiados com que a Europa se defronta nos últimos anos resulta não da guerra civil na Síria, mas da seca com que o país se viu confrontado, muito anos da guerra. “A maior seca na região em 900 anos e que destruiu 60% das colheitas e 80% do gado”, levando milhares de civis a fugir em busca de comida. “As alterações climáticas são uma ameaça à paz e à estabilidade”, garante, na medida em que a falta de água e comida vai agravar as crises de refugiados.

“Grandes área do Médio Oriente e do Norte de África vão-se tornar inabitáveis o que vai contribuir para a pressão das migrações”, diz Al Gore, que avança com números: Até 2100, África vai ter mais população que a China e a Índia juntos. “Se parte do território não tiver condições de habitabilidade para onde é que eles irão? Querem adivinhar?”, questionou. Em causa poderá estar qualquer coisa como mil milhões de refugiados e por isso, é preciso “tomar a questão sob controlo” porque “é o futuro da humanidade que está em causa”.

Perante uma plateia de 850 pessoas, Al Gore gritou, gesticulou, procurou acordar o mundo para a “emergência global” que está em curso, assumindo a sua “frustração” por, ao fim de quarenta anos a trabalhar de perto nestas questões, continuar a deparar-se com “respostas patéticas” por parte dos políticos. “Vocês podem mudar isto”, sublinhou. E, claro, não se esqueceu da crise dos migrantes nos Estados Unidos. “Por falar no meu país, temos um presidente instável que resolveu criar uma questão política sobre a imigração na fronteira com o México. Eles não são terroristas são pessoas com fome”, lamentou.

Numa intervenção que se prolongou para além de uma hora, Al Gore lamentou que estejamos a transformar a atmosfera do planeta num enorme “esgoto a céu aberto” e a terra “num caixote do lixo gigante”. Precisamos, diz, de “prestar atenção aos cientistas e de reconhecer as oportunidades económicas que a mudança encerra. ” Sim, podemos mudar o futuro. E todos os que duvidam disso tenha em conta que a vontade política [dos cidadãos] é, em si, um recurso renovável”, lembra.

Os números que deixou são assustadores: Se nada for feito para mudar o atual estado das coisas, mais de metade das espécies animais poderão desaparecer. Pior, dentro de 60 anos, poderá não haver condições de cultivo. A destruição da floresta é constante e a cada segundo desaparece o equivalente a um campo de futebol. A cada dia, são lançados 110 milhões de toneladas de gases com efeito de estufa, qualquer coisa como o equivalente a 500 mil bombas atómicas diárias. Nos oceanos, daqui por três décadas, vai haver mais plástico no mar do que peixes. “Não o podemos permitir”, sublinha.

Numa apresentação onde não faltaram fotografias a exemplificar a existência crescente de fenómenos extremos, da seca às inundações, passando pelos incêndios devastadores, como o de Pedrógão Grande, Al Gore lembrou que o próprio mundo do vinho está ameaçado. A Califórnia e o Douro são algumas das regiões, lembrou, onde poderão tornar-se inviável a cultura da vinha.

Mas há boas notícias, garante, e uma dela prende-se com os investimentos crescentes nas energias renováveis. Uma área em que deu os parabéns a Portugal e ao ministro do Ambiente, Matos Fernandes, na plateia, pela intenção do país em atingir a neutralidade carbónica até 2050. “Portugal é um dos países na liderança desta matéria, com metas mais inspiradoras em toda a Europa”, frisou.

Al Gore falou, ainda, da decisão de Trump em retirar os EUA do acordo de Paris, acreditando que tal decisão poderá, ainda, ser revogada. “A lei americana e internacional estabelece que o país só pode sair no dia a seguir ao próximo presidente tomar posse e este tem 30 dias para reverter esta decisão”, disse, manifestando-se esperançoso em que Trump não seja reeleito. “Rezem”, pediu à plateia.

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