Têxteis técnicos

Alberto Tavares: “Não contrato ninguém pelo passaporte”

Alberto Tavares_Mehler (1)

Entrevista ao português que lidera os têxteis técnicos do grupo alemão KAP

A reorganização interna do grupo KAP, cotado na bolsa de Frankfurt, em cinco segmentos industriais tornou Alberto Tavares o CEO da Mehler, a unidade de produtos de engenharia, com fábricas em Portugal, Alemanha, República Checa, Estados Unidos, China e Índia. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, à margem da presença da empresa na Techtextil, em Frankfurt, o gestor português falou sobre os projetos de futuro de uma unidade que dá emprego a mais de mil pessoas e gera uma faturação de 170 milhões de euros.

Concretizada a fusão dos fios e tecidos técnicos sob uma única entidade, há novas aquisições têm em vista?
No curto prazo não iremos olhar para isso. Os próximos dois anos são para implementar as melhorias operacionais necessárias para que se possa gerir nove fábricas como se fosse uma só. Vamos digitalizar o mais possível os nossos processos industriais, para que possamos ter um controlo total sobre a recolha de informações e tomar as decisões necessárias no sentido de otimizarmos cada fábrica em função dos mercados e clientes que serve. Vamos começar pela fábrica da República Checa, porque depois será mais fácil fazer o roll out para as outras unidades. Numa segunda fase, o objetivo é crescer organicamente no mercado norte-americano, sem descurar as outras áreas onde estamos presentes. A Europa vai continuar a ser o nosso principal mercado.

E numa terceira fase?
Dentro de quatro ou cinco anos estaremos em condições de olhar para outras oportunidades e novas áreas de negócio. O aeroespacial pode ser uma área de oportunidade, mas, nos próximos três anos, temos muito trabalho de casa para fazer. Enquanto não o fizermos, não podemos entrar noutras aventuras porque não podemos prejudicar o processo de estandardização.

Porque é a fábrica de Vila Nova de Famalicão a servir de modelo a esse processo?
Basta visitar as indústrias em Portugal para se perceber que as nossas unidades são iguais ou melhores às de muitos países reconhecidos como líderes mundiais dos projetos de inovação. Além disso, Portugal tem um nível de qualificação dos recursos humanos que é muito bom. E a abertura mental das pessoas para ir trabalhar fora permite, depois, também capturar conhecimento e flexibilidade mental que, muitas vezes, não existem em sociedades mais conservadoras. E a digitalização é vital para otimizar e tornar as unidades industriais mais competitivas. Se não conseguimos concorrer pela mão de obra barata temos que procurar outro tipo de vantagens competitivas.

Arranjar trabalhadores é um problema?
Na áreas dos sistemas de informação e em algumas funções muito técnicas não é fácil encontrar quadros. A concorrência aumentou, mas não foi só em Portugal. Na República Checa, por exemplo, é muito pior. Com um desemprego na ordem dos 1,8% há uma dificuldade imensa em encontrar pessoas qualificadas. Felizmente, até à data, temos conseguido, à custa de alguma inflação na componente salarial. Mas tentamos, também, incentivar muito as oportunidades de mobilidade no grupo.

Em que medida?
Por exemplo, cada um dos cinco segmentos industriais do grupo KAP identificou dois jovens de elevado potencial e criamos uma espécie de universidade interna com nove módulos distintos. Eu tenho a meu cargo o módulo de estratégia. É uma coisa que decorrer durante meio ano e é uma forma de lhes passarmos mais conhecimento, que é muito importante para reter talento

Como é ser português e liderar um grupo de capital alemão?
Eu não contrato ninguém pelo passaporte que tem mas pelas competências e capacidades que demonstra. E em qualquer cultura há pessoas competentes. Acredito que a minha experiência de muitos anos na indústria, a trabalhar e a viver em vários países, me possa ter trazido alguma vantagem de liderança de uma unidade multicultural. Sempre trabalhei em negócios globais, multi-regionais e multiculturais.

Esteve 22 anos na Sonae Indústria. Isso ajudou?
A experiência é um ativo. E não dando eu importância a questões de passaporte, a verdade é que dos cinco líderes de segmento do grupo KAP, quatro são alemães e um é português. Mas acredito que isso é o resultado de muito trabalho de uma equipa muito forte. Os resultados que mostramos na Olbo num curto espaço de tempo terão sido determinantes.

Qual é a maior dificuldade que sente?
A gestão do tempo. Os fusos horários são completamente diferentes entre a China e os Estados Unidos, já para não falar da dispersão geográfica, muitas vezes estou desperto quase 24 horas por dia.

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