Alemães devem reinvestir poupanças em Portugal – Daniel Gros

Presidente do Centro de Estudos Políticos Europeus, Daniel Gros
Presidente do Centro de Estudos Políticos Europeus, Daniel Gros

O economista Daniel Gros considera que existe demasiada poupança na zona euro e que os países mais ricos, como a Alemanha, deveriam reinvestir algum desse dinheiro nos países que necessitaram de um programa de ajustamento financeiro, como Portugal.

Em entrevista à agência Lusa durante a sua participação no ‘ECB Forum on Central Banking’, em Sintra, organizado pelo Banco Central Europeu, o presidente do Centro de Estudos Políticos Europeus, Daniel Gros, considerou que a crise financeira na zona euro “está acabada”, mas que se as poupanças não forem redistribuídas, os problemas podem manter-se.

“Sempre achei que havia demasiado nervosismo, mas nunca achei que [a zona euro] fosse realmente abaixo. O que importa agora é que a economia deu a volta e que os países estão a adaptar-se. Mas existe uma poupança excessiva na zona euro e esse dinheiro tem de ir para algum lado. Os alemães têm de investir em Portugal. Senão não sabem o que fazer com o dinheiro. Nesse sentido, a crise acabou, mas os problemas de ajustamento como se veem em Portugal podem manter-se”, disse o economista alemão à Lusa.

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Daniel Gros, que inicialmente julgava que “Portugal não ia ser capaz de pagar a sua dívida externa” e que, por isso, iria necessitar de um perdão, mostra-se agora otimista quanto à economia portuguesa.

“Eu era um pessimista em relação à situação portuguesa, mas agora já não. Acho que o fator chave que demonstra o sucesso do fim do programa [de Ajustamento Económico e Financeiro, PAEF] são as exportações. Confesso que não percebo como é que cresceram… Se se mantiverem assim é ótimo, mas não sei se se mantêm”, afirmou.

O economista alemão destacou ainda a diminuição da dívida externa, desvalorizando a dívida pública portuguesa, que se situa acima dos 130% do PIB. “A dívida externa está a diminuir, devagar mas a diminuir. Está a ir na direção certa”, disse.

“Mas claro que têm problemas: com o orçamento, [dificuldade] que se mantém, e em transformar o crescimento das exportações em salários mais altos”, admitiu Daniel Gros.

No entanto, o presidente do centro de estudos disse que estas são questões que se colocam uma de cada vez: “Primeiro exporta-se, depois cria-se mais riqueza e passado algum tempo isso deve levar também a mais emprego”, explicou.

Para Daniel Gros, a discussão em torno da saída do programa com um programa cautelar “era um assunto secundário”, já que Portugal já estava “totalmente financiado”.

Já quanto à reestruturação da dívida, o economista disse que as consequências de o fazer seriam “extremamente severas” para o país.

“Uma coisa é quando a situação é quase impossível, outra é, agora que podem pagar, dizerem que não gostavam de o fazer. A reação ia ser extremamente grave”, alertou.

Uma semana depois das eleições para o Parlamento Europeu, com um aumento dos votos em partidos nacionalistas e eurocéticos, Daniel Gros afirmou que os resultados representam apenas uma “chamada de atenção” para os políticos nacionais.

“Para mim resultam de um problema de funcionamento dos sistemas políticos nacionais. A União Europeia não pode ser considerada culpada pelo desemprego em Portugal ou na Grécia. Se gastaram demais por 15 anos, têm de gastar menos durante outros 15. Ninguém gosta de austeridade, mas se o cartão de crédito alcançou o limite terá sempre de ser pago”, disse.

O presidente do CEPE admitiu ainda um risco de deflação na zona euro, embora considere que esse não é o seu maior problema.

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