dívida pública

Pela primeira vez, Alemanha endivida-se a 30 anos e não pagará juros até 2050

Angela Merkel, chanceler da Alemanha. Fotografia: EPA/FELIPE TRUEBA
Angela Merkel, chanceler da Alemanha. Fotografia: EPA/FELIPE TRUEBA

Na prática, significa que os ativos públicos alemães (como títulos da dívida) são tão valiosos e seguros que os credores têm de pagar para os deter.

O governo da Alemanha vai fazer, esta quarta-feira, algo inédito: um leilão de Obrigações do Tesouro (OT) com maturidade de 30 anos no qual irá propor pagar um cupão de 0%. Isto é, vai beneficiar de um empréstimo, mas não pagará um cêntimo em remuneração aos credores, até 2050. Nunca tal tinha acontecido neste prazo tão alargado.

Segundo fonte oficial, o Estado alemão pretende pedir emprestado a vários credores cerca de 2 mil milhões de euros, os quais só irá devolver (capital) em meados de agosto de 2050. Até lá, os credores que aceitarem o negócio de quarta-feira não receberão qualquer remuneração. A taxa de juro é 0%.

Em contrapartida, esses investidores passam a deter valor em OT alemãs, um dos ativos mais seguros do mundo, que tem sido muito procurado como refúgio e fator de isolamento face a outros investimentos de com rendibilidades mais voláteis e incertas.

Esta colocação de OT a 30 anos também está a ser vista como um teste das autoridades alemãs ao “apetite” que os investidores internacionais têm por ativos deste tipo e com este perfil; e para aferir, no fim de contas, o sentimento desses agentes, se estão mais pessimistas ou não.

Isto numa altura em que a maior economia da zona euro está estagnada e pode inclusive estar à beira de uma recessão, com consequências nefastas para a zona euro e, claro, Portugal.

Em contrapartida, a Alemanha é e continua a ser uma grande potência económica e industrial de referência mundial e as contas públicas do País oferecem alguma tranquilidade aos mais céticos.

A Alemanha tem um excedente orçamental de 1% do PIB (produto interno bruto), um rácio da dívida de 58% do PIB (abaixo do limite máximo do Pacto de Estabilidade, 60%). No fundo, o governo tem margem de manobra para atuar no sentido de deter uma crise maior, se assim entender.

Esta situação — a República alemã a pagar juros zero pela dívida pública emitida no mercado primário — já tinha acontecido nas maturidades a 10 anos e mais recentemente nas famosas obrigações Schatz, a 2 anos. A 30 de julho último, o Tesouro federal endividou-se em 4 mil milhões de euros pelos quais nada pagará em juros até meados de julho de 2021, indica uma nota governamental (pdf).

Isto sucede quando a Alemanha enfrenta taxas de juro negativas em todos os principais prazos obrigacionistas nos mercados secundários.

Por exemplo, esta terça-feira, a OT a 10 anos estava a negociar com uma taxa de juro de quase -0,7%. Desde finais de abril que a taxa passou a negativa e tem vindo a cair de forma contínua e persistente.

No prazo que será testado na quarta-feira (30 anos), as OT alemãs negoceiam (quarta-feira, 21 de agosto de 2019), no mercado secundário, a uma taxa de juro de -0,17% (ver abaixo). Entraram em território negativo no início deste mês de agosto, segundo o site Investing.com.

Este paradigma significa que os ativos públicos alemães (como os títulos da dívida) são tão valiosos e seguros que, na prática, os credores (bancos, fundos de investimento, fundos de pensões, gestoras de ativos) têm de pagar ao emitente para os deter nas carteiras de investimentos.

Fonte: Investing.com

Fonte: Investing.com

(atualizado às 21h45 com mais informação sobre o mercado das OT alemãs a 30 anos)

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