Alexandre Meireles: "Há um fosso geracional na sociedade e temos de acelerar essa transição"

Presidente da ANJE diz que PRR será chave para o país num 2023 cheio de incertezas e lamenta inatividade do Banco de Fomento. Para o futuro da economia, defende que se comece a pôr jovens em cargos de decisão.

Alexandre Meireles começou a carreira no grupo Mota-Engil, onde coordenou a divisão de energia entre 2009 e 2011, isto antes de entrar no empreendedorismo, nos projetos pessoais e familiares e está há três anos à frente da Associação Nacional de Jovens Empresários. Na ANJE, ele assumiu como compromisso de mandato o reforço do papel da associação "como hub de referência do ecossistema empreendedor" entre os mais de 5,5 mil associados. A associação quer contribuir para a criação de novos negócios, capacitação do tecido empresarial, promoção da inovação e transformação digital das empresas para a indústria 4.0. Isto, "sem esquecer o empreendedorismo de baixa tecnologia, de forma a salvaguardar a importância socioeconómica que as microempresas e os negócios de proximidade têm no país".

O Portugal Fashion (PF) deste ano terminou há dois meses com a incerteza se vai ou não haver edição de 2023. A incerteza continua?
Como estamos no fim de um Quadro Comunitário e à espera do início do próximo, houve essa dificuldade de financiamento. Mas tivemos uma reunião com o ministro da Economia, que nos deu boas perspetivas de que até fim do ano, início do próximo, teríamos um novo ciclo de candidaturas aberto, em que o PF se possa integrar, e também algumas garantias de que pudéssemos contabilizar no novo quadro a despesa que tivemos nesta edição e que não foi coberta pelos fundos. Portanto, continua a haver alguma incerteza, mas ficámos mais confortáveis.

Mas já falaram com o ministro da Economia?
Sim, tivemos a reunião ainda durante o evento no ME e foi um encontro produtivo e que traz boas perspetivas.

Neste ano foram 450 mil euros sem ajuda do PT2020, costuma rondar os 900. De que orçamento precisam?
Uma das metas do PF é estar cada vez menos dependente de fundos públicos e temos vindo a fazê-lo com a entrada e contribuição de parceiros, empresas, associações setoriais; queremos seguir esse caminho. A fase de orçamentação pode depender do tipo de candidatura e suas regras - diria que à partida será valor semelhante, com duas edições por ano. Mas queremos que o evento seja cada vez mais independente, exceto na parte de internacionalização da moda, em que é mais difícil encontrar financiamento privado para promover a moda fora do país - nessa área estará mais dependente de fundos mas no resto queremos atrair e envolver mais indústria, parceiros locais e empresas.

Mesmo a levar o PF ao país inteiro?
Fizemos esse caminho pré-pandemia e depois isso parou. Ainda levámos à Câmara de Famalicão, foi um projeto interessante que vamos tentar retomar no próximo ano.

E já bateram à porta da AICEP para a questão do financiamento?
Sim, são nossos parceiros desde sempre por intermédio da candidatura e temos boas relações. Mas neste ponto, as agências não podem fazer muito. É a Europa pôr o PT2030 em ação.

Como viu a ANJE a assinatura do acordo de médio prazo no âmbito da Concertação Social, para melhoria dos rendimentos, dos salários e da competitividade?
Foi muito positivo, acima de tudo pelo sinal que estamos a dar à sociedade. Temos defendido esta cooperação mais efetiva entre privado e público e que haja uma estratégia a médio prazo que muitas vezes temos dificuldade em prosseguir. Nós somos favoráveis ao aumento dos salários e tenho-o dito muitas vezes: não nos parece aceitável que 70% dos portugueses recebam menos de mil euros, como noticiou o DN, e que descontando os apoios sociais tenhamos quase 4 milhões de pobres no país. A valorização dos salários é fundamental e este caminho no acordo quer para o SMN quer para a subida do salário médio é um bom ponto de partida. Espero que seja agora bem executado.

O acordo tem uma palavra para os jovens, nomeadamente limitar benefícios no IRS e ao programa REGRESSAR as medidas destinadas aos jovens. Estas medidas não são redutoras?
Tentar fazer regressar algum do talento que tem saído de Portugal - e os baixos salários são um facto determinante nisso - é sempre importante. O empreendedorismo e os novos empregos também estão mais associados ao desemprego, portanto não será redutor. Podíamos tentar criar novas medidas para apoiar as startups e o empreendedorismo, mas temos feito aí um caminho interessante.

Nas empresas, a redução da fiscalidade em sede de IRC para quem aumente salários e invista em desenvolvimento, é o caminho?
Eu sou suspeito, porque é uma das minhas bandeiras. Quando falamos na seletividade do IRC não significa que não defendamos também a descida da taxa de referência. Com a conjuntura atual e a maior receita vinda com a inflação e baixo desemprego, havia condições para baixar a taxa de 21% - não defendo uma revolução, vimos no que deu em Inglaterra, mas era importante uma reforma, que a taxa baixasse. A par disso, o que o OE traz de bonificação de IRC é importante, é uma boa ferramenta para promover as boas práticas empresariais. O Estado utiliza-a para os salários e podia expandir essa ideia à transição energética, é muito importante essa conversão em Portugal e aí o IRC também podia e devia ser uma ferramenta de valorização de boas empresas. Esse caminho devia ser cada vez mais utilizado, o IRC deixar de ser tão igual e haver uma discriminação positiva.

Mas devia ter havido mais ambição neste OE, considerando a receita fiscal adicional?
Acho que sim. O governo fez um OE cauteloso pela dificuldade de prever o que vai ser 2023, mas podia ter ido um pouco mais além nomeadamente na parte fiscal, nomeadamente baixando a taxa de IRC. Veremos o que acontece com o IRC diferenciado, se vai ser permanente, e como vai ser a execução, se será um processo simples ou o que muitas vezes acontece com processos tão burocráticos que depois as empresas não concorrem.

O pagamento em prestações mensais iria facilitar a tesouraria das empresas?
Tem-se falado nisso e seria importante, seria uma medida em que o governo devia pensar.

As transições digital e energética deveriam ser majoradas?
Tudo quanto se possa fazer para trazer melhorias para a economia pode utilizar-se o IRC. Nos salários é mais fácil...

Até porque se recupera em consumo a seguir.
Pois, mas a transição digital é uma questão muito importante. A ANJE apoiou mais de mil empresas nessa viagem mas há ainda um universo grande que precisa de a fazer e tudo quanto possa promover boas práticas nas empresas deve ser feito. Porque o Estado nem perde receita.

E os apoios anunciados pelo ministro do Ambiente de 1500 milhões de euros do Orçamento do Estado de 2023 para abater os custos de eletricidade e do gás nas empresas. Já perceberam como vai funcionar o mecanismo?
Nós na ANJE não temos associados que sejam grandes consumidores de energia. Mas ainda não está claro o que virá e como será isso executado. Mais uma vez alerto para esse problema, até o Tribunal de Contas alertou sobre os fundos covid: as medidas são positivas mas a execução fica muito aquém. É importante analisar se as empresas conseguem recorrer aos apoios e como beneficiam deles.

Seria importante simplificar os processos, até em programas como o PRR?Isso é um dos problemas da economia, o excesso de burocracia. Eu já disse que seria importante uma secretaria de Estado da bazuca e repito: o PRR vai ser fundamental para o ano, um dos fatores chave para a economia ter um bom ano será o PRR. O governo diz que haverá aumento de investimento público de cerca de 3,6% e boa parte da estratégia para o PRR passa por modernizar o Estado, reduzir burocracia e agilizar a máquina fiscal. Quero acreditar que o PRR será bem executado, até porque vai ser a marca desta legislatura e tendo o governo chamado a si grande parte da sua execução não tem grandes desculpas para que não seja bem executado. Já ouvimos as preocupações do Presidente da República sobre os atrasos, que também sentimos, e era muito importante acelerar o PRR exatamente para dinamizar a máquina do Estado para baixar custos de contexto para as empresas.

Ainda na semana passada o Banco Português de Fomento (BPF) colocou em consulta pública novos instrumentos financeiros via Fundo de Capitalização e Resiliência. São mais dois programas que disponibilizam 475 milhões de euros aos quais é difícil ou fácil chegar?
Tenho sempre alguma desconfiança, porque falamos do BPF há anos. Agora tem nova comissão executiva e novas linhas, vamos ver... Mas essas linhas são sempre demasiado burocráticas e tinha de se facilitar o acesso. Eu ainda não conheço em pormenor quem pode ter acesso, mas há vontade do governo de simplificar e agilizar. Temos de esperar para ver. Porque muitas vezes as coisas são bem idealizadas mas a execução é tardia e demorada, temos de ver se vai contribuir. Mas que faz muita falta à economia um BPF ativo que ajude as empresas a capitalizarem-se, disso não há dúvida.

Até agora não funcionou?
Ficou muito aquém do que se esperava e podia ter apoiado mais empresas.

O OE poderá ter de ser revisto em 2023, entre inflação e juros?
É difícil prever... o governo prevê 4% de inflação, não sei se será... é possível que durante o ano seja necessário retificá-lo. Diria que é exatamente por isso, para ter folga se necessário, que o governo foi conservador. Mas vejo indicadores positivos para 2023, nomeadamente o desemprego, em níveis historicamente baixos. As pessoas estão empregadas, não dão custo público e até trazem mais receita fiscal. Isso permite ver o ano mais interessante, pelo menos comparando com a anterior crise, em que tínhamos dívida pública e desemprego muito piores.

Quanto à inflação. Qual o impacto nos custos de produção dos vossos associados?
É grande. Acima de tudo para um país pobre ou perto disso. O aumento do cabaz alimentar, da energia, dos juros para combater a inflação, tudo isso impacta diretamente nas empresas. As nossas empresas não estavam energeticamente eficientes ainda, devem continuar esse caminho; por outro lado são bastante dependentes da banca tradicional e por isso muito sensíveis à subida dos juros... e esse é um caminho que temos de fazer. Temos um problema de base de mentalidades: o empresário português não vê com bons olhos a entrada de smart money, de investidores estratégicos, e isso é uma transformação que temos de fazer. Acho que isso só vai conseguir-se quando acelerarmos a transição geracional. Temos a geração mais preparada de sempre, investimos muito nisso, mas essa geração não está a tomar decisões, não está presente nos conselhos de administração, no governo. É ao nível da sociedade em geral que é preciso acelerar essa transição geracional. Não é uma revolução, não é correr com as pessoas que tanto trouxeram ao país, os empresários continuam a ter de estar lá. Mas é bom ter pessoas com experiência e algum sangue novo, que tem uma nova visão e abertura a ferramentas inovadoras. É preciso isso para tornar as empresas menos sensíveis a fatores externos.

Há um fosso geracional na economia?
Há e não é só na economia. Há um fosso geracional na sociedade. A transição deve ser suave e natural, mas tem de ser acelerada. Estamos a falar da economia portuguesa e temos a mesma geração a tomar decisões há 30 anos. Os jovens são extremamente bem preparados e até pelo momento: falamos de transição digital, de IA e é natural que seja complexo para alguém que fundou a empresa a seguir ao 25 de Abril. As novas gerações já cresceram com estes temas, dominam-nos. Quando esta transição acontecer estes processos vão melhorar e nós vamos pontuar melhor.

A formação tem sido uma aposta da ANJE. Que tipo de cursos tem tido mais procura?
Por causa da pandemia, os cursos para a transição digital são os mais procurados. A ANJE já chegou a mais de 1200 empresas com isto, porque claramente trabalhamos a formação muito bem; temos parcerias com a Universidade do Minho, a Católica, a Coimbra Business School, desenvolvermos novos programas, marketing digital... é uma área que nos orgulha muito.

Outra aposta da ANJE deu vida neste mês a uma parceria com a Câmara de Faro e a Universidade do Algarve que pretende atrair empreendedores para essa zona do país. Que tipo de negócios pode ter interesse?
Aqui concretamente o turismo, mas sendo a ANJE uma associação não setorial atraímos qualquer tipo de promoção de negócios, claro que as TI, IA e essas novas áreas tem sido muito procuradas por empresas de fora porque temos feito coisas muito boas em startups, tecnologia, etc.

Vão procurar sinergias semelhantes com outras regiões?
Sim, temos casa no Porto mas somos nacionais - temos delegações em Lisboa, no Algarve, em Évora. Era meu objetivo abrir nas ilhas, a pandemia atrasou, mas gostava pelo menos de lançar o acordo, penso que com os Açores.

Falou há pouco de bons sinais, mas poderá haver ainda necessidade de as empresas terem mais ajudas do Estado?
Com inflação a continuar alta, a guerra e outros fatores que não controlamos, é possível que sim, que sejam necessárias novas linhas. Acho que este OE também está a prever essa capacidade e músculo para poder apoiar sem aumentar o défice, que é uma boa preocupação que este governo tem tido. A incerteza é grande, há ameaças, mas que trazem também oportunidades a empresas mais otimizadas por exemplo em energia. Portanto há riscos, indefinição, mas tendo a ser otimista. Repito, o tema fundamental para 2023 correr bem é que o PRR seja devidamente executado: se isso acontecer, pode a economia aguentar até sem grandes medidas extra. É o ponto decisivo.

A seguradora de crédito COSEC libertou nesta semana um inquérito em que revela que mais de 80% das PME preveem manter ou aumentar a faturação em 2023. São previsões otimistas?
Nós começámos mandato em 2020, com covid, e já não sei o que pensar das previsões. Fico contente que as empresas sintam que vão ter bons resultados, é um sinal positivo de maior preparação. Se será realidade é difícil prever.

Sendo a maioria dos associados empresas exportadoras. As exportações vão cair em 2023?
Talvez... o setor exportador depende de muitos fatores ligados à instabilidade em 2023. É natural que haja uma queda nas exportações, 2023 não será um ano fácil, o ponto é como vamos aguentar e esperar que em 2024 regressemos a níveis de inflação pré-guerra. É esse o fator que desencadeará a crise.

Contra a inflação, o BCE tem subido juros. Essa é, a par dos preços da energia, uma das maiores preocupações relativamente ao novo ano?
Seguramente. E falo de empresas e famílias - se tiverem menos dinheiro consomem menos e as empresas também sofrem com isso. Esses são os grandes fatores de risco e volto a falar na importância de as empresas acelerarem a transição energética. E para isso é fundamental o PRR. Em relação aos juros, as empresas devem preparar-se com caminhos alternativos à banca, é importante que olhem cada vez mais para capital de risco, smart money, sócios estratégicos, para amenizar esses pontos.

Está a terminar o seu mandato à frente da ANJE. Que marca acredita que deixará destes três anos que ficam marcados por uma pandemia e pelos efeitos de uma guerra na Europa?
A história fará os balanços. Eu gostava de ter contribuído mais para a dinamização das empresas e dar voz aos jovens empresários. A transição geracional é muito relevante. Fico contente de ter estado a favor do aumento do SMN, do IRC bonificado - de estar do lado certo da história, como costumo dizer - porque são medidas que podem beneficiar muito as empresas. Foi um privilégio este tempo, ainda falta meio ano e gostava de deixar marca no conceito de gerar riqueza. Os empresários têm direito a querer aumentar a faturação, ter empresas maiores e mais competitivas. Direito a enriquecer criar melhores condições para as suas famílias, porque os lucros são o objetivo das empresas. Mas defendo que é importante que essa riqueza ajude também a contribuir para uma sociedade mais justa e mais equitativa.

Já sabe o que vai fazer a seguir?
Eu sou empresário, nunca deixei de o ser, tive estes três anos bons na ANJE, vou voltar. O meu contributo no associativismo penso que terminou e vou dedicar-me a projetos pessoais que retomarei com mais energia.

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