Comércio internacional

Alimentos portugueses podem voltar a ser grandes no Japão

“Enviamos uma mensagem clara de que fazemos uma frente comum contra o protecionismo”, disse Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, após a assinatura da parceria (Koji Sasahara/Pool via Reuters)
“Enviamos uma mensagem clara de que fazemos uma frente comum contra o protecionismo”, disse Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, após a assinatura da parceria (Koji Sasahara/Pool via Reuters)

Nova parceria da UE com país asiático traz potencial “muito grande” de crescimento para exportações. Vendas de agroalimentares europeus vão triplicar.

A história da influência portuguesa na alimentação japonesa vem de longe – da técnica da tempura aos ovos moles ou pão-de-ló adotados no país como kasute hoto ou kasutera, sob influência jesuíta há mais de trezentos anos. Hoje, as trocas com o Japão são outras, mas os bens alimentares lideram – são perto de um terço das vendas portuguesas ao país asiático. E é por aqui que Portugal tem a ganhar com a nova parceria económica entre União Europeia e Japão, assinada terça-feira.

“Há uma grande possibilidade de haver um aumento do comércio entre Japão e Europa – inevitavelmente, com Portugal também. Quer por empresas novas, no consumo, quer por empresas que já estão no Japão”, diz Paulo Ramos, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Japonesa (CCILJ), ao telefone em Tóquio. “Sobretudo para Portugal, onde o forte das exportações é muito o agroalimentar, o potencial é muito grande.”

Com a entrada em vigor do novo acordo, caem as tarifas – ou os custos de importar para o país. Os países europeus deverão aumentar vendas de produtos alimentares para o Japão para quase o triplo, estima a Comissão Europeia. Serão mais dez mil milhões de euros a somar aos 58 mil milhões de euros de vendas ao país no ano passado.

Nestes valores, a participação portuguesa é ainda diminuta – 145,7 milhões de exportações, dos quais 39,1 milhões em bens alimentares, onde entram produtos como vinho, peixe, tomate enlatado ou bolachas. As bases são baixas, e as margens para crescer altas. “Os nossos setores tradicionais, tendo já o seu lugar no Japão, têm ainda muito espaço para aumentar a sua quota de mercado”, diz a a agência portuguesa para a promoção do comércio externo, a AICEP, na sua ficha de mercado sobre o país.

O Japão importa 60% do que consome, nota Paulo Ramos. Por razões políticas que se prendem com a necessidade de garantir a coesão do seu território, onde as grandes cidades são íman para as populações, o Japão mantém um grande número de subsídios à agricultura.“Nas atividades primárias, é um dos países menos produtivos.” Ao mesmo tempo, os padrões de qualidade e segurança alimentar europeus gozam de boa reputação. “Tudo o que são produtos importados de referência estão à venda”, descreve o presidente da CCILJ.

O produto português com maior capacidade para crescer no Japão “de certeza que será o vinho”, prevê Paulo Ramos. No ano passado, Portugal exportou para o país um valor de mais de três milhões de euros de vinho, num aumento de 150% por comparação com as vendas de 2010.

Vinhos mais competitivos

A ViniPortugal, que mantém o mercado japonês como prioritário na sua estratégia até 2023, acredita que o Japão vai comprar mais vinho português. A parceria com a UE elimina tarifas de importação de 15%, colocando a Europa em pé de igualdade com produtores como o Chile, que já goza da mesma isenção.

“Em princípio, este acordo torna os vinhos europeus mais competitivos, pois coloca-os nas mesmas condições tarifárias dos restantes países concorrentes”, afirma Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal, a associação que gere a promoção internacional da marca Wines of Portugal.

“A UE representa hoje mais de 50% das importações de vinho do Japão, com a França em primeiro lugar e Portugal num ainda modesto 11º. Estimar em quanto vão aumentar as exportações portuguesas não é exercício fácil. Mas este acordo, no momento em que Portugal vê aumentar o seu esforço de promoção naquele mercado, só pode ser positivo”, diz Jorge Monteiro.

Entre os exportadores do sector agroalimentar estão também algumas empresas japonesas com subsidiárias em Portugal, que terão agora mais a ganhar em manterem investimento no país. É o caso da gigante multinacional Kagome, que tem em Portugal a HIT, antigas Italagro e FIT, a produzir tomate enlatado na Castanheira do Ribatejo e em Águas de Moura. Ou da Arai Shoji, que investiu na pesca do atum em Tavira, exportando para as lotas japonesas a quase totalidade do seu pescado.

“Quando as empresas japonesas veem capacidade produtiva ou bons recursos naturais têm tendência a procurar adquirir o controlo de capital, mesmo que não assumam controlo das operações”, diz Paulo Ramos. Tem sido o caso de algumas empresas portuguesas.

Desde há quatro anos, que não há dados sobre investimento direto japonês em Portugal. O Banco de Portugal deixou de reunir dados sobre este mercado. Também a Organização de Comércio Externo do Japão, a JETRO, não conta o investimento das empresas do país em Portugal.

O investimento em Portugal será reduzido, mas entrará nos números avançados esta semana pela Comissão Europeia, que fez contas a 898 empresas portuguesas com exportações para o Japão, suportando assim 5929 postos de trabalho no país. Traduz-se também no número de associados da CCILJ, 106, mais de 20 a operar na indústria alimentar e no sector das bebidas.

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