Corrupção

Álvaro Santos Pereira: “Compadrio de política e privados levou-nos à bancarrota”

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Álvaro Santos Pereira. Fotografia: D.R.

"Sem um combate sério contra a corrupção não voltará a haver confiança no Estado e na política", diz o antigo ministro de Passos Coelho, hoje na OCDE.

Numa altura em que se acumulam novos casos e suspeitas de corrupção dentro do anterior governo do PS, liderado por José Sócrates, um antigo ministro do PSD entra no debate. Foram coisas como o “compadrio” que ajudaram a afundar Portugal e levaram o país à bancarrota, acusa Álvaro Santos Pereira, que atualmente é o economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

O economista escreveu este sábado, em português, na sua conta de Twitter, que “foram as políticas erradas, a corrupção e o compadrio entre a política e os privados que nos levaram à bancarrota, à ajuda externa e ao resgate dos bancos”.

Segundo o antigo ministro da Economia e do Emprego do governo PSD-CDS, liderado por Pedro Passos Coelho, “sem um combate sério contra a corrupção não voltará a haver confiança no Estado e na política”.

Santos Pereira nunca se refere aos novos casos do momento, como o que envolve o antigo ministro da Economia de Sócrates, Manuel Pinho, que antes de ir para o governo era empregado do BES.

Pinho é suspeito de ter sido pago pelo GES (Grupo Espírito Santo) ou de ter recompensas prometidas em forma de complementos de pensão financiadas pelo BES, e a mando do próprio Ricardo Salgado (na altura líder do banco), tudo isto enquanto desempenhava altas funções de Estado, governativas.

Além disso, em 2017, Manuel Pinho foi constituído arguido por suspeita de ter concedido indevidamente à EDP 1,2 mil milhões de euros.

O Ministério Público alega que Pinho terá recebido dois milhões de euros do Espírito Santo Financial Group como contrapartida dessa benesse.

A suspeita é que Pinho tenha sido pago regularmente através do “saco azul do GES” para tomar decisões favoráveis a Salgado e companhia, situação que terá durado cerca de uma década (2002 a 2012)

Manuel Pinho foi ministro no primeiro governo de Sócrates, entre 2005 e 2009.

Santos Pereira, que raramente escreve em português e usa a sua conta de Twitter para divulgar os estudos da OCDE sobre várias economias, parece assim entrar no debate nacional do momento, acenando com os fantasmas do resgate e da bancarrota.

Portugal (Estado, bancos e empresas) entrou em bancarrota no início de 2011, altura em ficou sem acesso normal aos mercados e sujeito a taxas de juro exorbitantes, na ordem dos 8% a 10%. E continuaram a subir, ultrapassando os 17%, sendo que se chegou a especular que o país teria de sair da zona euro.

Não saiu, mas em abril de 2011 teve de ser intervencionado pela troika, que emprestou dinheiro em troca de um duro programa de austeridade e ajustamento económico-financeiro.

Do governo de Passos para a OCDE

O economista está desde 1 de abril de 2014 na OCDE e no final do ano passado deu uma entrevista ao Dinheiro Vivo onde abordou aquelas que, na sua opinião, são as maiores fragilidades económicas e financeiras de Portugal.

Isto foi quando a organização publicou o seu estudo semestral com as perspetivas económicas e as recomendações para os 35 países mais desenvolvidos do mundo (economic outlook), clube ao qual Portugal também pertence.

Aí, disse que a dívida do Estado e das empresas é um perigo (não vá acontecer algum “choque” nos mercados), que a subida planeada para o salário mínimo não lhe parece problemática, pelo menos para já. E defendeu uma reforma ambiciosa do IRC: já devia ter começado, como em muitos países desenvolvidos, sublinhou.

“Graças ao crescimento económico e a alguma prudência orçamental, estamos a prever que a dívida pública vá descer e que vá continuar a descer nos próximos dois anos, pelo menos. Mas obviamente, não há muita margem para expandir muito o orçamento.”

Sendo possível obter alguma margem orçamental, que seja para políticas amigas do crescimento, dirigidas sobretudo para as empresas que são as entidades que criam emprego, defendeu.

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