exploração mineira

Amazónia. A caça ao ouro de Temer que está a assustar os ambientalistas

(AP Photo/Carlos Magno-AJB)
(AP Photo/Carlos Magno-AJB)

Presidente brasileiro abre uma grande área da Amazónia de reserva de exploração mineira estatal a privados. Críticos temem impacto ambiental.

Em maiúsculas, a modelo brasileira Gisele Bündchen escreveu “Vergonha!” no Twitter. Tal como ela, também Ivete Sangalo usou as redes sociais para mostrar a sua indignação. Muitas outras celebridades do Brasil, bem conhecidas do povo português, como os atores Cauã Raymond ou Thiago Lacerda, fizeram coro ao protesto. Em causa o decreto assinado por Michel Temer na quarta-feira passada, que extingue a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), uma área de quase 50 mil quilómetros quadrados na Amazónia, maior que o tamanho da Dinamarca.

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A medida regulamenta e dinamiza a atividade mineira na zona, rica em ouro, manganês, ferro e cobre. A Renca tinha sido criada em 1984, durante a ditadura militar, delimitando uma área que seria explorada pelo Estado. Contudo, a exploração da reserva praticamente não passou de uma intenção. O decreto que Temer publicou agora vem abrir espaço a que os privados também possam atuar.

Os ambientalistas temem o impacto da medida no chamado “pulmão do mundo” e apelam para que sejam salvaguardadas as áreas naturais protegidas e a população indígena. É que nas fronteiras da Renca existem zonas de rica biodiversidade e territórios das etnias Aparai, Wayana e Wajapi. “É uma tragédia realmente anunciada. Vai resultar em desmatamento, contaminação dos rios e o perigo da atividade mineira é associado a outras atividades ilegais, como o garimpo. É uma visão antiga de desenvolvimento, da Amazónia como provedora de recursos naturais”, afirmou à AFP o diretor executivo da WWF no Brasil, Maurício Voivodic. Ao El País, Luiz Jardim, professor de geografia e membro do Comité Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, partilha a mesma preocupação. “Sabemos que a mineração é a porta de entrada para outros interesses, como abrir estradas, atrair madeireiros… É uma ameaça para essas unidades de conservação”.

Na memória coletiva brasileira ainda está bem presente o acidente de Mariana, no estado de Minas Gerais. Foi em 2015 que uma barragem de dejetos de extração mineira, da empresa Samarco Mineração, se rompeu despejando 62 milhões de metros cúbicos de lama. O desastre provocou 19 mortos e foi considerado o pior acidente ambiental da história do Brasil e o maior do mundo da indústria mineira, com os ambientalistas a considerarem que os efeitos na biodiversidade local serão sentidos ao longo de mais um século. A desconfiança dos brasileiros em relação às empresas de exploração mineira e ao seu cuidado com os recursos naturais é, por isso, muita.

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Michel Temer recorreu também ao Twitter para tentar acalmar os ânimos. “O governo não alterou nenhuma reserva ambiental da nossa Amazónia”, explicou. “Reorganizámos uma área mineral, hoje alvo de garimpo. É bem diferente”. O decreto publicado salvaguarda a vegetação e territórios indígenas. “A extinção de que trata o art. 1º não afasta a aplicação de legislação específica sobre proteção da vegetação nativa, unidades de conservação da natureza, terras indígenas e áreas em faixa de fronteira”, pode ler-se no documento oficial.

Os especialistas acreditam que a medida vai abrir uma verdadeira caça ao ouro na região, já que por diversas vezes empresas tinham tentado explorar a zona. O jornal Globo indica que “todas as grandes mineradoras do mundo têm interesse na região, particularmente companhias de países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e África do Sul.”

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