BCE

Ameaças de Trump já complicam a vida à zona euro

Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos. Fotografia: REUTERS/Kevin Lamarque
Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos. Fotografia: REUTERS/Kevin Lamarque

BCE vê retração em indicadores devido a medidas protecionistas. EUA são o maior cliente da Europa. Para Portugal, é o país mais importante fora da UE

As medidas e as ameaças do governo dos Estados Unidos, presidido por Donald Trump, já estão a contaminar negativamente o crescimento em curso da zona euro e a confiança dos empresários e dos exportadores, deixou perceber, ontem, Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE).

O banqueiro central já criticou diretamente a atitude de Washington na questão da guerra comercial latente.

O alerta não é de somenos. Os Estados Unidos são o principal cliente das exportações europeias, para onde, anualmente, são escoadas mercadorias no valor de 375 mil milhões de euros (cresceram mais de 3% em 2017).

Para Portugal, os avisos de Draghi também têm relevância. Os EUA são o 11º melhor cliente da economia nacional, tendo comprado quase 2,9 mil milhões em produtos portugueses. Estas exportações aumentaram 5,2% em 2017.

Portugal, um parceiro antigo dos EUA, pode até não ser diretamente visado com novas medidas protecionistas. Mas alguns parceiros europeus podem e a economia nacional será indiretamente afetada num cenário de abrandamento do comércio entre os dois grandes blocos.

Mais de 74% das exportações portuguesas vão para a Europa, só para se ter uma ideia do grau de exposição de Portugal ao exterior.

A reunião do BCE, ontem em Frankfurt, serviu ainda para anunciar que as taxas de juro da zona euro continuarão em mínimos de sempre (a taxa de refinanciamento em 0%) até que a inflação suba e se mantenha perto dos 2%; e que o programa de compra de ativos, entre eles dívida pública, vai continuar até, pelo menos, setembro deste ano.

Riscos negativos “mais proeminentes”

Mas o aviso mais sério foi mesmo que o BCE já começou a detetar os primeiros sinais de alguma retração em indicadores de atividade e de confiança por causa do “protecionismo”.

“Após vários trimestres de crescimento acima do esperado, as informações que temos recebido desde a reunião de março apontam para alguma moderação”, ainda que continuem “consistentes com uma expansão sólida e abrangente da economia da área do euro”, começou por dizer Mario Draghi.

O banqueiro central referiu, por exemplo, que alguns indicadores caíram inesperadamente, mas também houve “alguma normalização que era esperada, principalmente devido a fatores temporários, por exemplo, o clima frio, as greves, a época da Páscoa”.

No entanto, o banqueiro italiano revelou que “todos os membros do Conselho do BCE [todos os governadores, Carlos Costa incluído] informaram sobre a situação dos seus próprios países” e todos confirmaram que as economias “experimentaram alguma moderação no crescimento ou perda de impulso”. Trata-se de uma situação “bastante transversal entre países e sectores”, reparou Draghi.

Em resposta a perguntas dos jornalistas, Draghi enumerou uma série de indicadores económicos que caíram (o sentimento dos gestores da indústria, de produção).

A ameaça maior vem de fora

Há também fenómenos novos, recentes, como a maior hostilidade do governo dos EUA em assuntos de comércio internacional (barreiras no comércio de aço e alumínio dirigidos à China, por exemplo), que podem prejudicar as perspetivas da economia europeia, dos empresários europeus.

Além disso, ainda não é seguro que os EUA não avancem com novas barreiras, noutros sectores ou contra mais países. A Europa pode não estar a salvo neste processo.

Assim, alertou Draghi, enquanto “os riscos sobre as perspetivas de crescimento da zona euro permanecem globalmente equilibrados”, já “os riscos relacionados com fatores globais, incluindo a ameaça de aumento do protecionismo, tornaram-se mais proeminentes”.

E acrescentou que “sabe-se que os recentes acontecimentos [relativos ao protecionismo, sendo as iniciativas dos EUA as mais pujantes] têm um efeito profundo e rápido sobre a confiança das empresas e dos exportadores e que, por sua vez, podem afetar as perspetivas de crescimento”.

Mesmo com as ameaças, a retoma europeia continua. A zona euro deve avançar 2,4% este ano. Portugal deverá crescer o mesmo ou em linha com esse ritmo.

No entanto, a inflação da zona euro continua muito baixa (1,5% em março) e precisa de ter um comportamento mais “convincente” no sentido de uma subida, que a coloque mais próxima dos quase 2%, que é a meta oficial do BCE para o médio prazo.

Assim, sendo, “continua a ser necessário um amplo grau de estímulo monetário para que as pressões inflacionistas subjacentes continuem a aumentar”, argumentou Draghi.

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