Aeroporto : Turismo envergonhado com governo pede responsabilização e veredicto urgente

O setor ficou incrédulo com a polémica criada pelo ministro Pedro Nuno Santos. Gestores e associações acusam governo de brincar com assunto sério e pedem uma resposta definitiva e rápida para o novo aeroporto de Lisboa.

Rute Simão

Um ministro, três aeroportos, um despacho e uma revogação. Estas foram as peças no tabuleiro de xadrez de um jogo político que viu o seu início e fim em menos de um dia. A polémica que marcou esta semana, e a quase crise política, caiu de rompante no turismo, que se diz incrédulo e desapontado com o governo. O crescimento do setor, que foi responsável por um terço da recuperação do PIB nacional no ano passado, depende da expansão da capacidade aeroportuária na capital. Os vários players ouvidos pelo Dinheiro Vivo pedem respostas urgentes e seriedade num dossiê que se arrasta há demasiado tempo.

"A Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) só pode olhar para isto com um enorme desapontamento e com uma incredibilidade com o que se passou. O pára-arranca, o dar expetativas e voltar para trás, para lá do picante político, denota que as questões fundamentais estão a ser tratadas com muita leviandade. Anda-se a brincar com um assunto seríssimo. Estamos a desperdiçar oportunidades. É uma situação muito confrangedora que não se tomem decisões", acusa Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da associação que representa os hoteleiros do país.

O presidente da Vila Galé, Jorge Rebelo de Almeida, assume que assistiu a este episódio "com tremenda tristeza". "Não bastaria já o tempo enorme em que estamos à espera de uma decisão sobre o aeroporto. Mas, não contentes com esse problema, que é grave, e que nos envergonha a todos, só faltava esta cena melodramática de desautorizações e confusões tremendas", desabafa, alertando que a falta de decisões traz "um prejuízo grande para o país, com milhões de euros deitados fora".

Já a Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (Apecate) sublinha a "falha gravíssima" do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e lamenta "que não haja consequências". "A confiança de que algo iria ser feito foi, mais uma vez, colocada em causa. É, independentemente das leituras políticas, muito mau quando temos alguém que diz que a decisão é esta e poucas horas depois, afinal, não é, e ainda é preciso discutir mais o assunto. É o discurso que se anda a ter há 50 anos", aponta António Marques Vidal, presidente da Apecate.

A poeira ainda não assentou e, por isso mesmo, muitos foram os que não quiseram comentar o assunto, preferindo manter-se à margem da polémica que ainda não foi digerida.

O presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, aplaudiu, na quarta-feira, a construção de um aeroporto em Alcochete, referindo que esta "é uma longuíssima ambição do setor do turismo, que não pode crescer mais com o aeroporto de Lisboa", elogiou na altura. A CTP não quis reagir ao desfecho do episódio e fonte próxima da confederação disse ao Dinheiro Vivo que "não havendo medidas concretas, não há mais assunto para comentar".

Durante pouco mais de 12 horas o país inteiro acreditou que o governo tivesse conseguido colocar travão à discussão cinquentenária sobre o novo aeroporto em Lisboa. O espetáculo mediático meticulosamente encenado pelo ministro Pedro Nuno Santos, na quarta-feira, convenceu o país inteiro de que dentro de quatro anos o Montijo estaria a receber aviões, complementando a operação na Portela. E a questão do possível esgotamento das infraestruturas seria atempadamente acautelado com o arranque dos trabalhos no Campo de Tiro de Alcochete, apresentado como o aeroporto principal da capital, em 2035.

A efeméride contou com uma reunião entre o ministro e a comunicação social para deslindar os detalhes da grande obra pública. Seguiram-se entrevistas nas televisões e um despacho publicado em Diário da República, recebido com surpresa também pelo primeiro-ministro e pelo Presidente da República.

A decisão ameaçou ser o início de um novo ciclo, quando a atividade turística do país retoma em força, empurrando a recuperação económica para cima. Mas os ânimos foram rapidamente refreados e, na manhã de quinta-feira, o primeiro-ministro revogou o despacho, assinado pelo secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Santos Mendes, iniciando uma micro crise política, que se revolveu rapidamente e sem demissões. António Costa perdoou o ministro das Infraestruturas com o argumento de que ""errar é humano"" e justificou a revogação com a necessidade de ter o consenso do PSD na matéria. Pedro Nuno Santos fincou pé e recusou-se a sair, dizendo-se seguro de que "a relação profissional e de amizade obviamente não é manchada por um momento infeliz".

"É constrangedor ver que em 50 anos não se conseguiu construir uma solução e isso é um importante sinal de que o nosso sistema organizacional e político não está bem, está a falhar. A primeira consequência é que quanto mais tarde se tomar a decisão, mais custos - económicos, sociais e ambientais - havera. A gestão política não consegue rever-se nem tomar uma atitude em favor dos interesses do país, continuamos a ter outros interesses acima dos nacionais", acusa o presidente da Apecate. O episódio culminou sem feridas no Executivo que colocou um penso rápido no assunto, remetendo a discussão sobre o novo aeroporto na capital para o futuro, e já com o líder da oposição, Luís Montenegro, devidamente instalado no PSD.

Portela no limite
No fim do dia, todas as perguntas ficaram sem respostas. Permanecem as dúvidas e os factos, que dizem que o aeroporto Humberto Delgado poderá atingir o seu limite já este verão. Em 2019, a infraestrutura recebeu 31 milhões de passageiros, segundo os dados da Vinci. O Instituto Nacional de Estatística (INE) deu conta de que, até abril, a Portela movimentou 6,9 milhões de passageiros, valor 23% abaixo do pré-pandemia. Mas a elevada procura dos próximos meses faz antever uma recuperação acelerada. Pedro Nuno Santos admitiu, recentemente, a possibilidade de o aeroporto de Lisboa ter de recusar voos já no próximo ano. Para o turismo, representa perder milhões de euros.

"A recuperação na Vila Galé é muito boa, estamos neste momento com taxas de ocupação ótimas e não gostaríamos de cortar este ciclo de crescimento que se está a verificar com os problemas do funcionamento do aeroporto. É uma vergonha para todos nós", critica Jorge Rebelo de Almeida. Também o presidente da Apecate alerta para as consequências. "Quando alguém recusa clientes, o passo seguinte é fechar. Estamos a caminhar rapidamente para sermos um país em bancarrota e sem possibilidade de pagar as obrigações que temos. Nunca vi nenhuma empresa, ou projeto, que consiga subsistir quando recusa pessoas que lhe são essenciais", comenta António Marques Vidal.

A AHP assegura que a Portela está já "na capacidade limite". "Não só no ar mas em terra, é um desperdício. Há companhias aéreas que estão a recusar voar para Portugal. Deveríamos estar neste momento a posicionar-nos muito bem", lamenta Cristina Siza Vieira que defende que a Portela "precisa de intervenção, quer para o estacionamento das aeronaves, quer para aumentar melhor a mobilidade e capacidade de movimentação de passageiros".

Novo aeroporto
As opiniões continuam divididas quando o assunto é a localização da nova alternativa à Portela. Mas há um consenso: é preciso tomar decisões rapidamente, pedem os empresários do turismo. "A única alternativa que está em cima da mesa e com jeito é Alcochete. Porque é a única localização que tem condição para poder vir a ser uma alternativa à Portela. Todas as outras são complementares. O Montijo é um desperdício total e nem vale a pena gastar mais dinheiro a olhar para aquilo", afirma perentório o presidente do segundo maior grupo hoteleiro do país. Jorge Rebelo de Almeida defende que o estudo de impacte ambiental de Alcochete deveria ser prorrogado e atualizado.

O gestor acredita que o aeroporto Humberto Delgado deverá ser mantido enquanto for possível. "O aeroporto da Portela tem uma localização fabulosa, o aeroporto é equilibrado, é arrumado. A Portela é uma mais-valia tão grande e já gastámos lá tanto dinheiro que devemos tentar ao máximo mantê-lo. Só no limite é que deveríamos mudar. Se for necessário mudar e fechar a Portela, temos de ter uma alternativa que a possa substituir. O Montijo é um disparate tão grande que nunca dará para substituir a Portela", garante.

Já a AHP alinha na aposta Montijo como aeroporto complementar. "Esta seria a solução que melhor responderia no curto e médio prazo, com obras na Portela", comenta a dirigente da associação. A Apecate vê com bons olhos a proposta apresentada no despacho revogado esta semana. "A única solução viável e a mais rápida seria Portela e Montijo, mas esta terá o seu limite e irá esgotar. Deve ser antecipando o prazo de construção e ser criada uma solução que resolva o problema a longo prazo", sugere o presidente que pede "uma solução rápida". "Está na altura de menos jogos políticos e mais decisões", diz.

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